Mia Sterling.
Eu amo meus irmãos… amo o suficiente para ser capaz de fazer qualquer coisa por eles.
E quando digo qualquer coisa, não é força de expressão. Não é bonito, não é heroico — é real. É bruto. É aquele tipo de lealdade que não pede licença antes de atravessar uma linha.
Eu faria. Sem hesitar.
E talvez esse seja exatamente o meu problema.
Eu compreendo cada um deles, até mesmo nos piores dias. Principalmente Cael. Não é fácil criar uma criança sozinho — nunca foi, nunca vai ser. Theo é um amor de garoto, desses que desmontam qualquer adulto só com um sorriso torto… e ainda assim, meu irmão — o mesmo homem que sempre disse que nasceu pra ser pai — às vezes parece um estranho dentro do próprio papel.
Como se estivesse sempre um passo atrás da própria vida.
O divórcio com aquela v***a, anos atrás, quase acabou com ele. Não só com o casamento — com tudo. Com a confiança, com a estabilidade, com aquela versão dele que acreditava nas coisas sem precisar desconfiar primeiro.
E eu vi. Eu vi ele cair.
E eu vi ele levantar também.
Desde então, Cael luta. Todos os dias. Pra reconstruir não só a própria vida, mas a capacidade de confiar — nos outros, nele mesmo… no mundo. Só que ninguém fala sobre o preço disso. Sobre o que fica pelo caminho.
Porque existe um lado dele — um maldito lado impulsivo, controlador — que surge quando ele acha que está “resolvendo” as coisas.
E quando esse lado assume… bom.
Ele não resolve. Ele atropela.
E foi exatamente esse lado que eu ouvi na voz dele quando meu celular tocou às 00h45.
— Achei a babá perfeita, Mia. Só preciso da sua ajuda.
Foi o suficiente.
Eu nem precisei de mais contexto pra sentir o cheiro da confusão vindo, lenta e inevitável, como uma tempestade que você vê se formando no horizonte… mas sabe que vai cair em cima de você de qualquer jeito.
— Você não me disse que estava fazendo novas entrevistas. — respondo, equilibrando o celular entre o ombro e o ouvido, enquanto seguro o pincel de esmalte o tento não borrar a unha do mindinho.
Prioridades.
— Eu não estou. — ele diz com uma naturalidade absurda. — Aquelas mulheres não estavam aptas a cuidar do meu filho. Contudo... bem, essa nova candidata eu não cheguei a entrevistá-la.
E pronto.
A calma na voz dele não me engana. Nunca enganou. É aquela calma ensaiada, polida, que ele usa quando já decidiu alguma coisa completamente absurda e só está esperando o resto do mundo acompanhar.
— Cael Sterling… — respiro fundo, contando mentalmente até três — quem é essa mulher e por que exatamente ela seria a babá perfeita pro Theo se você sequer entrevistou ela?
Eu realmente tento. Tento soar como uma adulta racional. Não como a tia surtada pronta pra entrar em um avião só pra impedir uma decisão i****a.
— Eu analisei a dinâmica deles… — ele diz, com uma confiança que beira o delírio — e cheguei à conclusão de que ela será a babá dele.
Ah.
Claro.
Porque observar duas pessoas no mesmo espaço por cinco minutos claramente substitui um processo seletivo inteiro.
— Como assim observou a dinamica deles, você deixou seu filho interagir com uma estranha ? — Minha voz eleva um ou dois tons, e por alguns segundos.
— Eu não deixei meu filho sozinho com uma completa desconhecida Mia. — Ele resmunga, mas posso sentir a indignação em sua voz do outro lado da linha.
—Claro que não. — resmungo. — Ela ao menos sabe disso, que está sendo avaliada para se tornar babá do meu sobrinho ? — pergunto, calma demais, o que por si só já deveria ser um sinal de alerta pra ele. — Porque assim, maninho… você precisa entender que dinheiro não compra tudo e—
— Ela dira sim. — ele corta, firme com uma convicção que quase me faz pensar que sou eu a errada da história. — Isso é tudo que você precisa saber.
O silencio paira por um momento, antes que ele torne a falar.
— E pode ser que... Talvez, eu venha precisar da sua ajuda… — ele acrescenta, como se estivesse me fazendo um favor.
Eu fecho os olhos por um segundo.
— Cael Sterling…
— Não precisa se preocupar, Mia. — ele diz, com aquele tom convencido irritantemente familiar. — Eu sei cuidar do meu filho, confia em mim. Ela vai sair uma ótima babá.
" Claro que vai " Penso comigo enquanto reviro os olhos.
Porque nada grita mais vai dar tudo errado do que um homem dizendo pra você não se preocupar.
Conversamos mais alguns minutos — ou melhor, eu tento extrair qualquer informação útil enquanto ele desvia como um profissional — até que ele usa Theo como desculpa e encerra a ligação.
E então o silêncio toma conta.
Olho para minhas unhas, uma delas borrada.
Perfeito.
Encosto a cabeça no sofá e suspiro, encarando o teto como se ele tivesse respostas.
Sinceramente… às vezes eu me pergunto por que nossos pais nunca me deixaram vender meus irmãos quando éramos crianças.
Teria sido mais simples. Muito mais.
Homens são… complicados demais.
Temperamentais demais.
E, aparentemente, absolutamente incapazes de tomar decisões minimamente sensatas depois da meia-noite.
Eu estou em viagem há quase um mês.
Um mês inteiro longe de casa, longe da minha rotina, longe — teoricamente — dos meus irmãos e das decisões duvidosas que parecem persegui-los como uma maldição hereditária.
E ainda assim… eles conseguiram.
Nesse meio tempo, Cael e Gabriel — meus irmãos do meio e o mais novo — acharam simplesmente brilhante contratar um detetive particular para me investigar.
Para descobrir o que, exatamente, eu estou fazendo da minha vida.
Eu.
Uma mulher adulta. Na casa dos trinta. Financeiramente estável. Independente. E com uma paciência consideravelmente menor do que o saldo da minha conta bancária.
O que, diga-se de passagem, já é um problema.
Eu poderia ter surtado. Poderia ter ligado, gritado, ameaçado bloquear os dois da minha existência e talvez até da herança emocional que eles insistem em achar que têm.
Mas não.
Eu nunca fui de escolher o caminho simples.
Na verdade… eu nunca fingi tanto ser algo que não sou quanto nesses últimos dias.
Tudo por um único motivo: tirar minha família do sério.
Descobri sobre o investigador dois dias depois daquela palhaçada começar.
Não foi difícil — meus irmãos são bons em muitas coisas, mas discrição definitivamente não está na lista.
Encontrei o homem.
Marquei com ele em um restaurante discreto, desses com luz baixa e cara de segredo caro. Sentamos, comemos como duas pessoas normais tendo uma conversa perfeitamente comum… e então eu paguei.
O dobro.
Exatamente o dobro do que Cael e Gabriel estavam pagando.
Porque, se tem uma coisa que eu aprendi na vida, é que lealdade é linda — mas um pagamento melhor costuma ser mais convincente.
— Agora você trabalha pra mim. — eu disse, com um sorriso educado demais pra ser inocente.
E foi aí que a diversão começou.
Se meus irmãos queriam um escândalo… então eu daria a eles um espetáculo.
Pedi ao detetive que inventasse os maiores absurdos possíveis. Histórias completamente fora da realidade. Situações ridículas. E, claro, fotos editadas — boas o suficiente para parecerem reais à primeira vista.
E ele entregou.
Fotos minhas em uma corrida ilegal de carros, no meio da madrugada, cercada por luzes neon e motores rugindo.
O detalhe? Eu até gosto de velocidade… mas participar de algo ilegal?
Não mesmo.
Outra sequência me mostrava em uma rave, completamente fora de mim, perdida em uma multidão pulsante de música e caos.
Eu.
Em uma rave.
A ironia chega a ser ofensiva.
Eu não gosto de raves.
Eu não gosto de multidões.
E, sinceramente, qualquer coisa que me tire do conforto da minha cama já começa com dois pontos negativos.
Mas lá estava eu — ou pelo menos a versão fictícia de mim — vivendo uma vida que nem nos meus piores impulsos eu teria energia para sustentar.
E a cada nova “prova” enviada… eu conseguia imaginar perfeitamente a reação deles.
Cael, tenso, tentando manter o controle enquanto claramente surtava por dentro.
Gabriel, provavelmente dividido entre o choque e uma curiosidade absurda pra saber mais.
Talvez um pouco impressionado.
Idiotas.
Como eu disse… eu tentei vender meus irmãos na infância. Fiz o possível, inclusive. Ofertas foram feitas — nenhuma aceita.
Mas meus pais nunca colaboraram.
Alguma coisa sobre direitos humanos, responsabilidade familiar e outras coisas extremamente inconvenientes.
E agora aqui estou eu.
Criando um escândalo falso, financiando a própria investigação e, muito possivelmente, alimentando exatamente o tipo de comportamento que eu deveria estar tentando evitar.
Porque, no fim das contas…
Tudo se torna absurdamente complicado quando você só quer fazer uma boa ação.
》☆☆☆《
● Hannah Brooks ●
A noite passou rápido demais — rápido num nível quase ofensivo, como se tivesse escorrido pelos meus dedos sem pedir licença. E, em teoria, eu deveria estar bem agora. Descansada. Leve. Com a mente limpa, como alguém que saiu, distraiu a cabeça e ainda teve o luxo de acordar tarde por não ter aula na faculdade.
Era o plano perfeito.
Mas meu corpo claramente não recebeu esse memorando.
Porque, em vez disso, eu me sinto como se tivesse sido atropelada por um caminhão… enquanto corria uma maratona depois de encher a cara em um bar qualquer.
E tudo isso graças aquele maluco.
O que me parou no estacionamento da lanchonete ontem a noite. Sim é culpa dele, eu ter passado a noite inteira em uma maldita vigília não planejada, por que aquele maniaco estava parado, como um maldito espírito obsessor em frente ao prédio onde Jane mora.
Ela não o viu, claro que não, estava bêbada demais para se lembrar de algo. Mas eu o vi, e por conta disso, passei a noite inteira acordada observando pela janela, com a cabeça a mil.
Enquanto mil e uma teorias surgiam em minha mente e... espi
—... Teremos uma equipe voltada para servir nossos clientes usando os patins, com o intuito de tornar o atendimento mais rápido...
As palavras do senhor Lincon me trazem de volta a realidade. Eu nem deveria estar tão distraída, mas esse é sem duvidas um dos efeitos por não dormir bem a noite.
O senhor Lincon continua falando, provavelmente explicando o plano de dominar o mundo sobre duas rodas, enquanto eu só consigo imaginar alguém caindo no meio do salão e levando três milk-shakes junto.
Quando a reunião finalmente termina, ele nos libera para dar lugar à próxima equipe. Coloco a touca, ajusto o avental e sigo direto para as mesas, já entrando no ritmo automático de sempre.
É horário de pico. As escolas próximas acabaram de liberar os alunos, e o lugar rapidamente se enche de vozes, risadas, choros e pedidos sendo feitos ao mesmo tempo.
Eu me ocupo anotando pedidos e servindo clientes — alguns simpáticos, outros m*l-humorados, e aqueles clássicos que só querem um minuto de silêncio longe dos próprios filhos.
Mesa após mesa, pedido após pedido… até que me distraio observando uma mãe discutindo com uma garotinha de uns cinco anos, que claramente decidiu que hoje não ia comer nada que não fosse doce. Uma batalha perdida, na minha humilde opinião.
E então, do nada—
Um pequeno furacão de cachos dourados e olhos azuis brilhantes corre na minha direção.
— NANAAA! — ele grita, como se estivesse me anunciando para o mundo inteiro, antes de se agarrar às minhas pernas como se eu fosse um bote salva-vidas em alto-mar.
— Anjinho… — me abaixo até ficar na altura dele, recebendo um abraço apertado que eu retribuo na mesma intensidade.
— Nanaaa… Theo sentiu sua falta. — ele diz assim que nos soltamos, fazendo um beicinho dramático enquanto seus olhos enormes ficam levemente marejados.
Meu Deus… como é possível alguém ser tão perfeito? E ainda se referir a si mesmo na terceira pessoa. Eu não tenho estrutura pra isso.
— Eu também senti sua falta, meu amor. — respondo, apertando de leve sua bochecha. — Me conta, com quem você veio hoje? Com a sua tia legal? Aposto que sim.
Ele balança a cabeça, os cachinhos pulando de um lado pro outro como se tivessem vida própria.
— Papai me trouxe. — diz, com aquele ar inocente que engana qualquer um. — Ele disse que o Theo se comportou e que o Theo merecia sorvete…
Ele faz um gesto conspiratório com a mãozinha, me chamando pra perto. Eu me inclino, entrando no jogo.
— Mas ele tá mentindo, Nana… — sussurra, numa tentativa adoravelmente falha de segredo. — Ele disse que queria ver a moça bonita que trabalha aqui… você sabe quem é?
Pisco algumas vezes, ainda encarando o pequeno ser humano à minha frente. Os olhos azuis dele brilham com uma curiosidade quase contida — quase, porque dá pra ver que ele tá a um passo de explodir em perguntas.