Hannah Brooks
Desvio o olhar dele só por um segundo… e erro f**o.
Dou de cara com o pai.
Também conhecido como: o maluco da noite passada.
Parado bem no meio da lanchonete, como se aquele lugar inteiro orbitasse ao redor dele. Terno sob medida, postura reta demais pra ser confortável, cabelos presos na nuca, semblante fechado — daqueles que analisam tudo em silêncio — e, claro, aquela expressão clássica de quem acha que dinheiro resolve qualquer problema… inclusive ele mesmo.
Reviro os olhos por dentro e volto minha atenção pro mini humano à minha frente, bagunçando de leve os cabelos dele.
— Acredita que eu não conheço ninguém com essa descrição, anjinho? — faço uma careta pensativa, exagerada, só pra arrancar um sorriso. — Você devia perguntar ao seu papai, meu amor. Tenho certeza que ele vai te contar quem é… afinal, pais não podem mentir pros filhos, né?
— Sério, Nana? — ele pergunta, com os olhos brilhando ainda mais, como se eu tivesse acabado de entregar um segredo proibido.
— É sim, anjinho. — sorrio, cúmplice. — Quer ver? Vai lá perguntar.
O sorriso dele cresce de orelha a orelha, e antes mesmo de eu terminar de falar, ele já tá se virando e correndo na direção do pai.
Perfeito.
Aproveito a deixa sem nem pensar duas vezes e me afasto no sentido oposto, desviando das mesas, das cadeiras, das pessoas — de qualquer coisa que me leve pra longe daquele homem.
Porque, sinceramente?
Eu não faço ideia em que tipo de m***a eu fui me meter.
E muito menos sei se aquele cara é só um riquinho metido… ou um completo psicopata.
Mas uma coisa eu sei com absoluta certeza:
existe um conceito lindo chamado distância.
E eu pretendo respeitar ele com todas as minhas forças.
》☆☆☆《
Cael Sterling.
Péssima ideia.
Sem duvidas, foi uma péssima ideia em níveis quase artísticos levar Theo à lanchonete… e pior ainda ter aberto a boca para soltar aquela besteira de que iríamos encontrar “a moça bonita da lanchonete” bem na frente dele.
Porque, sinceramente, o que se seguiu foi um espetáculo particular de constrangimento. Eu precisei passar as duas horas seguintes tentando convencer o meu próprio filho de que eu havia me confundido — confundido, veja só — enquanto ele se entupia de doces, sorvete e qualquer coisa carregada de açúcar que eu, em um universo minimamente responsável, jamais permitiria.
No fim, não consegui nem sequer vê-la.
Droga.
Eu realmente achei que, vindo mais apresentável do que na noite passada — cabelo no lugar, roupa decente, um mínimo de dignidade intacta — ela me daria a chance de explicar minha proposta. Achei que trazer Theo ajudaria. Que ele, com aquele jeito dele, arrancaria dela ao menos alguns minutos de atenção.
Ingenuidade minha.
Eu até preparei uma pasta. Documentos organizados, tópicos bem definidos, praticamente um PowerPoint impresso. Ridículo. Meticuloso. Desnecessário, ao que parece.
Tempo jogado fora.
E ainda assim… aqui estou eu.
De novo.
Dentro do carro, estacionado no mesmo lugar maldito, às 20h em ponto, com o motor desligado e a paciência por um fio, esperando ela sair. Porque, goste ela ou não, nós precisamos acertar os detalhes da contratação — e ela precisa entender que eu não tenho tempo a perder. Eu preciso que ela comece o quanto antes.
Sabe como são as coisas.
Minha vida não desacelera. Não abre espaço. Não espera ninguém se decidir. E Theo…
Theo precisa de uma babá.
E eu não posso me dar ao luxo de entrar em joguinhos. Não quando, na minha cabeça, isso já está resolvido. Ela só ainda não percebeu.
Cruzo os braços, o olhar fixo na porta dos fundos da lanchonete — aquela que dá direto para o estacionamento — quando ela finalmente se abre.
E lá está ela.
Sai carregando algo nas mãos, ainda presa naquele uniforme ridículo. Colorido demais, chamativo demais… incompatível demais com qualquer ideia de seriedade. Ela caminha até o contêiner de lixo atrás do estabelecimento, joga o que tem nas mãos lá dentro com um movimento automático e desaparece novamente pela mesma porta.
Reviro os olhos, soltando um suspiro impaciente.
Minutos depois, ela surge outra vez.
Agora… diferente.
Roupas normais. Simples. Nada chamativo. Nada que chame atenção — exceto ela mesma, aparentemente sem fazer esforço algum para isso.
Diferente da noite passada, está sozinha.
Uma mochila pendurada nas costas, os ombros levemente tensos… e ainda assim distraída demais para alguém que claramente deveria estar mais alerta. Por Deus, como alguém consegue ser tão… desligada?
Ela desce do meio-fio sem olhar para os lados. Nem uma vez.
Inacreditável.
Reviro os olhos de novo, já sentindo a irritação familiar subir pela minha coluna. Dou partida no carro, o motor ronronando baixo enquanto deixo o estacionamento e entro na rua.
E então começo a segui-la.
Devagar.
Sem pressa.
Até que, em algum momento, ela finalmente perceba que não está mais sozinha.
Ela anda gesticulando, falando sozinha como se estivesse no meio de uma discussão acalorada… consigo mesma. As mãos se movem no ar, cortando o vazio como se houvesse alguém ali para rebater cada argumento.
Então ela ri.
Mas não é uma risada leve, nem genuína. É seca. Sem humor. Quase… deslocada. Como se tivesse perdido o timing da própria sanidade.
E então volta a falar.
Como se nada tivesse acontecido.
Inclino levemente a cabeça, observando com mais atenção.
Ela é mesmo maluca… ou está apenas fingindo?
Permaneço dirigindo devagar, mantendo uma distância segura — suficiente para não assustá-la, mas perto o bastante para não perdê-la de vista. Com um movimento quase automático, abaixo o vidro do lado do motorista, agora tomado por uma curiosidade que cresce a cada segundo.
O tal “diálogo” dela começa a chegar até mim em fragmentos soltos, desconexos… mas ainda assim estranhamente intensos.
— “Tá bom… você me ignorar e eu sou egoísta.”
Faço uma careta discreta.
— “Isso não daria certo.”
Certo para quem?
— “Eu já falei que não.”
Insistente, seja lá quem for o interlocutor invisível.
— “Você deveria ter vindo me buscar.”
Essa frase vem carregada de algo… mágoa, talvez. Ou frustração. Difícil dizer.
E então —
— “Claro que sim, por que eu tenho a palavra palhaça tatuada na testa.”
…
Pisco uma vez.
Duas.
Essa me pega completamente desprevenido.
Ela realmente tem a palavra palhaça tatuada na testa?
Franzo o cenho, tentando puxar da memória alguma imagem mais nítida dela, mas tudo que tenho são flashes rápidos demais, desatentos demais. Eu não a observei com o cuidado necessário.
O que, convenhamos, começa a parecer um erro estratégico.
Será que ela é uma dessas jovens… excêntricas? Do tipo que decide tatuar coisas absurdas em lugares ainda mais absurdos?
Não sei.
Quando mais nova, Mia passou meses escondendo uma tatuagem com maquiagem, numa dedicação quase olímpica, só para evitar o colapso coletivo dos nossos pais quando descobrissem.
Será que é isso? Será que essa… criatura simplesmente cobre a própria testa todos os dias?
Mas, sinceramente —
Quem, em sã consciência, tatuaria a palavra palhaça na própria testa?
Não faz sentido. Nenhum.
Talvez tenha perdido alguma aposta i****a. Ou esteja inserida em algum tipo de círculo social onde esse tipo de decisão é considerado… aceitável.
Reviro os olhos, soltando um suspiro baixo, já sentindo aquele julgamento automático se formando.
Os jovens conseguem ser, com uma facilidade impressionante… bizarros.
E ela continua.
Andando. Falando. Gesticulando.
Como se estivesse no meio de uma peça invisível onde só ela conhece o roteiro.
Até que, finalmente, ela para.
O ponto de ônibus surge à frente — vazio, silencioso, abandonado à própria sorte naquele horário.
E ela simplesmente ocupa o espaço como se aquilo fosse o palco final de toda aquela conversa unilateral.
Acelero o carro e paro em frente ao ponto de ônibus, o motor ainda vibrando sob minhas mãos enquanto meus olhos se fixam nela.
A reação é imediata.
O olhar dela se prende ao meu carro com uma desconfiança afiada, quase instintiva — como um animal que sente o perigo antes mesmo de entendê-lo. E quando eu abaixo completamente o vidro, revelando meu rosto, algo muda.
Não é só desconfiança.
É medo.
Ou talvez pânico.
Talvez os dois, misturados de um jeito caótico que faz seu corpo inteiro ficar em alerta.
— Você… — a palavra escapa ríspida, dura demais para qualquer tentativa de civilidade. — Você de novo… seu… você tá me seguindo?
Respiro fundo, mantendo a expressão controlada, mesmo que a situação esteja claramente saindo dos trilhos mais rápido do que eu gostaria de admitir.
— Estou tentando ter um momento da sua atenção — respondo, usando meu tom mais calmo, mais racional, como se isso ainda pudesse ser resolvido como uma conversa normal entre dois adultos minimamente equilibrados. — Se puder fazer o favor de entrar no carro, nós podemos—
Ela não me deixa terminar.
Claro que não deixa.
Porque, aparentemente, qualquer expectativa de normalidade morreu no instante em que eu decidi sair de casa hoje.
Em um movimento rápido demais para que eu processe, ela se abaixa, pega uma pedra — uma pedra grande, pesada, que eu não faço a menor ideia de onde surgiu — e arremessa diretamente contra o meu carro.
O impacto no retrovisor é seco, alto, irritante.
Eu fecho os olhos por um segundo, inspirando fundo, sentindo a paciência escorrer pelos dedos.
Ela vai pagar por isso.
Mas antes que eu possa sequer abrir a porta ou formular qualquer reação coerente, ela já está correndo.
Correndo como se a própria vida dependesse disso.
Como se eu fosse…
Um sequestrador.
Puta m***a.
Eu só queria contratar uma babá para o meu filho. Não iniciar uma carreira no crime.
Reviro os olhos, irritado, mas já girando o volante em uma manobra rápida, o carro respondendo imediatamente enquanto eu volto para a rua e acelero atrás dela. Não por insistência cega — ou não só por isso — mas porque, naquele estado, daquele jeito completamente descontrolado, ela vai acabar se machucando.
E então—
Acontece.
O som vem primeiro.
Pneus cantando no asfalto. Um freio brusco, desesperado, cortando o silêncio da rua como um grito metálico.
E depois…
O corpo dela no chão.
Imóvel.
Por um segundo, tudo parece desacelerar.
Ótimo.
Simplesmente ótimo.
Agora, além de perseguidor, eu provavelmente vou ser acusado de assassinato.
Solto uma risada seca, sem humor algum, passando a mão pelo rosto antes de abrir a porta do carro com força.
Eu só queria uma babá para o meu filho.
Só isso.
Saio do carro às pressas, o coração acelerando de um jeito incômodo enquanto corro até ela, cada passo pesado demais, urgente demais. Minhas mãos já procuram o celular quase no automático, os dedos discando o número da emergência com uma precisão que não combina em nada com o caos da situação.
— m***a… — murmuro, a voz baixa, tensa. — m***a, m***a, m***a…
E, pela primeira vez naquela noite, eu realmente não tenho controle de absolutamente nada.