Hannah Brooks
Abro meus olhos devagar, ou pelo menos tento. A claridade que invade minhas retinas é tão agressiva que parece que alguém decidiu projetar o sol diretamente no meu rosto. Fecho as pálpebras com força, sentindo uma pulsação dolorosa atrás dos globos oculares que dita o ritmo do meu desespero.
Antes mesmo de recuperar a visão, o olfato me dá o veredito. O cheiro estéril de antisséptico misturado ao odor metálico de desinfetante hospitalar invade minhas narinas, atingindo meu estômago com a força de um soco.
Ele revira em uma volta magnífica de 360°, ameaçando devolver qualquer resquício de dignidade que me sobrou.
Eu não preciso de um diagnóstico para saber onde estou. O silêncio artificial e o frio excessivo gritam a mesma coisa: hospital.
E, d***a, eu odeio hospitais.
Não é apenas uma birra comum; é um daqueles traumas de infância enterrados em sete chaves. Nada que uma terapia pesada não resolvesse, mas também nada que eu fosse estúpida o suficiente para admitir em voz alta para qualquer ser humano.
Tento mover o pescoço, apenas um centímetro para o lado, e uma dor lancinante e elétrica atravessa minha coluna.
O grito escapa antes que eu possa raciocinar. É alto, agudo e ecoa pelas paredes brancas, me deixando com uma ponta de vergonha, mas que escolha eu tenho? Sinto como se tivesse sido moída por um moedor de carne industrial e depois remontada com cola barata.
Que m***a aconteceu para eu vir parar aqui?
Forço minha mente a trabalhar. Busco memórias, fragmentos de imagens, qualquer coisa que explique o desastre.
Mas a única coisa que consigo é uma enxaqueca tão brutal que parece descer como uma avalanche por todo o meu corpo. Engulo em seco, mas minha garganta parece revestida por uma lixa grossa. Minha boca está tão seca que eu juraria ter engolido metade da areia do Saara enquanto estava inconsciente.
— Céus... o que diabos está acontecendo? — murmuro, ou tento murmurar.
Tento me mexer novamente, movida pelo puro instinto de fuga, e a agonia volta a me atingir em ondas. Mordo os lábios com força para sufocar o próximo grito, mas não consigo impedir que as lágrimas quentes comecem a rolar, traçando caminhos salgados pelo meu rosto.
— Será possível que você não consegue ficar quieta por um minuto? — Uma voz masculina corta o silêncio do quarto.
O tom é carregado de irritação, temperado com aquela dose de sarcasmo que faz meu sangue — o pouco que sobrou — ferver.
— Pare de se contorcer, garota. Quanto mais você se mexer, pior vai ser a dor. É física básica, tente acompanhar.
Meu corpo congela instantaneamente. O reconhecimento é como um choque elétrico. Eu conheço esse tom. Conheço essa arrogância.
Abro os olhos novamente, piscando freneticamente até que as manchas coloridas desapareçam e o ambiente se estabilize. Eu estava certa: o quarto é estéril, desprovido de qualquer cor quente ou conforto, um cenário que faz meu estômago dar mais um solavanco.
Viro o pescoço milímetro por milímetro. A dor protesta, mas eu me mantenho firme, mordendo o lábio com tanta força que sinto o gosto metálico e quente do sangue.
Quando finalmente consigo focar minha visão, meus olhos pousam na origem de todos os meus problemas das últimas quarenta e oito horas.
Lá estava ele. O maluco. O psicopata. O i*****l filho da p**a que decidiu, por livre e espontânea vontade, que me perseguir seria seu novo esporte favorito.
— Vo... você... — Minha voz sai áspera, como se eu tivesse engolido brasas. Cada sílaba queima. — Você... me atropelou...
Meu maníaco de estimação finalmente desvia os olhos do celular, fixando-os diretamente em mim. Ele me encara com aquela intensidade perturbadora, como se pudesse ler meus segredos mais obscuros através dos meus lençóis de hospital.
— Eu não te atropelei — ele rebate, com uma voz desprovida de qualquer remorso, quase soando entediado. —
Você se jogou na frente do meu carro.
Ele faz uma pausa dramática, me analisando com aqueles olhos gélidos onde, para meu ódio absoluto, brilha um toque de diversão sádica.
— E, a propósito, você ainda me fez o favor de amassar o capô. Você tem alguma ideia de quanto custa para consertar um carro daqueles?
— Idiota... — A palavra se forma com dificuldade, baixa e rouca, mas carregada de todo o veneno que consigo reunir.
Ele me encara por um longo momento, o silêncio sendo preenchido apenas pelo bipe rítmico e irritante de algum monitor ao meu lado.
Um sorriso zombeteiro, quase imperceptível, começa a brincar nos cantos de seus lábios, como se ele estivesse assistindo a uma comédia particularmente engraçada da qual eu sou a protagonista involuntária.
Sem desviar os olhos dos meus, ele ergue o braço e alcança algo fora do meu campo de visão.
Quando sua mão retorna, ele segura um copo de água. Fico dividida entre o agradecimento genuíno pela sede que me mata e a desconfiança instintiva que me diz que ele poderia ter colocado veneno de rato ali apenas para ver como eu reagiria.
Ele aciona o controle da cama, ajustando o encosto com uma eficiência mecânica antes que eu possa protestar, e me entrega o copo.
O líquido fresco toca minha garganta como um milagre absoluto; é como encontrar um oásis pulsante em meio ao Saara que eu sentia na boca segundos atrás. Bebo ávida, sentindo a vida retornar aos poucos.
— Devagar, ou vai se afogar, garota — ele resmunga, a voz vindo de algum canto do quarto, carregada daquela paciência forçada de quem lida com uma criança teimosa.
Ignoro o comentário. Apenas reviro os olhos e termino a água em paz, sentindo cada gota hidratar minhas cordas vocais.
— Você me atropelou — repito. Minhas palavras saem muito mais firmes agora, sem a rouquidão de antes, atingindo o ar com a força de uma acusação formal.
Ele deixa o celular de lado, cruzando os braços sobre o peito e me encarando com um desafio gelado nos olhos.
— Você se jogou na frente do meu carro — ele rebate com uma firmeza inabalável.
— Eu estava atravessando a rua enquanto fugia de um perseguidor maníaco! — Exclamo, a indignação subindo pelo meu peito e ignorando a dor de cabeça que lateja em protesto. — No caso, você. E você me atingiu com um bloco de metal de duas toneladas.
O maluco à minha frente parece genuinamente divertido com a minha exasperação, o que só me faz querer atirar o copo vazio na cara dele.
— Se você tivesse parado para me ouvir em vez de correr como uma maratonista amadora, nada disso teria acontecido — ele dá de ombros, com uma casualidade que beira o absurdo. — Eu disse que só queria conversar.
— E você acha normal seguir uma estranha por dois dias seguidos para "conversar"? — pergunto, minha voz subindo um tom. — De onde eu venho, isso se chama assédio, perseguição e motivo para uma ordem de restrição. Claramente, uma pessoa normal não faria isso.
— Certo, talvez eu tenha passado um pouco do ponto. Admito — ele diz com uma calma que me tira do sério, como se estivesse admitindo um erro menor de cálculo em uma planilha. — Mas você não me deu a chance de explicar. Eu só queria lhe oferecer a chance de...
— De me tornar a babá do seu filho — interrompo, o desdém escorrendo por cada sílaba. — Eu já ouvi essa proposta antes de quase virar estampa de asfalto, e já disse que não tenho interesse. Eu já tenho um trabalho e, mesmo que não seja o emprego dos sonhos, ele não envolve ser perseguida por psicopatas em carros de luxo.
Ele me corta antes que eu possa concluir meu raciocínio.
— Eu irei bancar seus estudos. Todos eles. — As palavras saem da boca dele como um decreto. Meu corpo inteiro entra em estado de alerta. — Você não me conhece, Hannah, mas eu conheço você. Ou, pelo menos, tudo o que o meu subordinado conseguiu desenterrar nas últimas horas.
Ele começa a recitar minha vida como se estivesse lendo um relatório de inventário.
— Hannah Brooks, 23 anos. Escrava daquela lanchonete desde os 19. Noiva de um aspirante a artista que, sejamos honestos, possui um talento medíocre e músicas esquecíveis. Eu não apostaria minhas fichas no sucesso dele, se fosse você. Você cursa medicina, quer pediatria... e leva jeito com crianças. Analisei suas interações com meu filho no parque e cheguei à conclusão de que você é a peça que falta na rotina dele.
Eu fico boquiaberta, o choque paralisando minha resposta por alguns segundos.
— Você... como... o quê? — Gaguejo, sentindo o sangue subir para as bochechas. Respiro fundo e o encaro, tentando manter o que resta do meu orgulho. — Você mandou investigar a minha vida? Quem você pensa que é? Algum tipo de chefão da máfia que decidiu me escolher como próximo alvo?
— Você deveria ler menos esses romances de banca de jornal, garota. Não estamos em um livro — ele diz, o sarcasmo pingando de sua voz. — Eu sou apenas um homem extremamente ocupado, com um filho pequeno e em busca da melhor profissional disponível. E você, por algum milagre do destino, serve para o cargo. Pense bem: estudos pagos, moradia de alto padrão e o dobro do que você ganha atualmente.
— São benefícios demais para serem reais — digo, estreitando os olhos, procurando a pegadinha. — Eu não confio em você. Nem um pouco.
— Nem eu em você — ele confessa com uma sinceridade brutal que me desarma por um segundo. — Mas meu filho, por algum motivo insondável, gosta de você. E como eu não n**o nada a ele, não tenho muita escolha a não ser aturar você.
O silêncio volta a cair sobre o quarto.
Minha mente trabalha em alta velocidade, processando a oferta. Era a saída para todas as minhas dívidas, o caminho livre para meu diploma de médica, a chance de sair do sufoco... mas o preço parecia ser a minha sanidade ao lidar com aquele homem.
— Como posso saber que você não é um maníaco perigoso? — pergunto, a incredulidade ainda guiando minhas palavras.
Ele ergue as sobrancelhas e solta um riso seco, de puro escárnio, que ecoa pelo ambiente gélido. Com um movimento fluido, ele retira um cartão de dentro do terno impecável e o estende para mim.
O papel é de alta gramatura, elegante, com letras em relevo. Cael Sterling. Abaixo, um número de telefone e um endereço que eu sabia pertencer a uma das áreas mais caras da cidade.
— Cael Sterling. Pesquise esse nome, se isso acalmar sua paranoia. Este é meu número pessoal. Você tem uma semana para entrar em contato, ou eu irei até você novamente — ele diz com uma naturalidade tão absoluta que me faz questionar se o impacto no capô do carro não afetou o cérebro dele também. — As contas do hospital já foram liquidadas. Você não quebrou nada, apenas um susto e algumas dores de cabeça pelo impacto, segundo os médicos. Preciso ir. Tenho que buscar meu filho.
Sem esperar por uma resposta ou um adeus, ele se levanta com uma elegância irritante e sai do quarto, o som de seus passos ecoando no corredor até desaparecerem por completo.
Fico sozinha, encarando o cartão entre meus dedos trêmulos. Que diabos acabou de acontecer aqui?