🥀 Capítulo 14 🥀

1850 Palavras
Hannah Brooks Respiro fundo, puxando o ar devagar na tentativa quase inútil de conter as lágrimas que insistem em se formar nos meus olhos. Eu detesto me sentir vulnerável. Detesto essa sensação de fragilidade que parece escorrer pelas minhas veias como um veneno lento, silencioso, humilhante. Demonstrar fraqueza nunca foi algo que me agradou, nunca foi algo que eu permiti que os outros vissem com facilidade. Mas vamos lá. São 01h40 da madrugada. Está um frio do c*****o. O tipo de frio que se infiltra pelos ossos e faz o corpo inteiro tremer, mesmo dentro de um hospital iluminado demais e silencioso demais. E aqui estou eu, sentada em uma cama de hospital, em um quarto desprovido de vida, com o cheiro estéril de antisséptico impregnando o ar, esperando por alguém que deveria já estar aqui. O homem que deveria ser meu noivo. O homem que, neste exato momento, está se recusando a vir me buscar porque diz estar cansado do seu maldito emprego de meio período. Quase rio com amargura ao pensar nisso. Como se eu também não tivesse trabalhado das 13h às 20h, em pé o tempo todo, servindo clientes irritantes, lidando com adultos mais mimados do que as próprias crianças que eles carregam pela mão. Como se meu dia tivesse sido uma caminhada tranquila por um campo de flores e não sete horas seguidas sorrindo por obrigação enquanto minha paciência era lentamente triturada. Aperto o celular com mais força contra o ouvido, sentindo minha mandíbula travar enquanto tento manter a voz firme. — Ryan, qual a parte de que eu sofri um acidente e estou no hospital você não entendeu? — digo, cada palavra saindo mais controlada do que eu realmente me sinto. Minha voz ecoa com uma firmeza que claramente não existe dentro de mim naquele momento. — Eu preciso que você venha me buscar. Do outro lado da linha vem um suspiro arrastado. — Caramba, amor... eu até iria, eu juro... — a voz dele ecoa preguiçosa, carregada daquele maldito tom sonolento que ele usa sempre que não quer fazer alguma coisa. — Mas eu tô mó cansado, o dia foi puxado demais. Fecho os olhos por um instante, sentindo o sangue pulsar nas minhas têmporas. — Por que você simplesmente não pega um táxi ou sei lá... Abro os olhos devagar, olhando para o relógio digital pendurado na parede branca do hospital. Os números vermelhos brilham como um lembrete c***l da hora. — São quase duas da manhã, Ryan. — digo, lentamente, tentando não deixar a irritação tomar completamente minha voz. — Duas da manhã. E você está realmente me mandando pegar um táxi a essa hora, quando você claramente pode pegar o carro e vir me buscar? A indignação pesa nas minhas palavras. Eu consigo sentir isso. E antes que eu perceba, uma lágrima solitária escorre pelo meu rosto, quente contra o frio da madrugada. — Para de drama, Hannah. — ele responde, a voz agora carregada de impaciência. — Eu tô cansado, cara. Trabalhei o dia todo e— — E você acha que eu não? — interrompo, as palavras escapando antes que eu consiga segurá-las. Minha mão aperta o celular com mais força. — Eu também trabalhei o dia todo, Ryan. E ainda sofri um acidente quando estava saindo do trabalho. Por sorte não foi nada mais grave, mas poderia ter sido. — minha voz falha por um segundo, mas eu continuo mesmo assim. — Eu estou ligando para o meu noivo, praticamente implorando para que você venha me buscar... e você sequer teve a decência de desligar a p***a do jogo. O silêncio do outro lado dura apenas um segundo. Mas é tempo suficiente. Porque eu ainda estou ouvindo. O som abafado de tiros digitais. Explosões distantes. Alguma coisa sendo destruída em um videogame i****a. — Amor, calma, não é pra tanto, eu só— — f**a-se, Ryan. As palavras saem cortantes, carregadas de uma raiva ferida que arde no peito. — Pelo visto precisamos rever nosso relacionamento. — continuo, minha voz agora mais baixa, mas infinitamente mais dura. — Porque claramente nós não temos mais as mesmas prioridades. Ele começa a falar alguma coisa do outro lado da linha. Provavelmente uma desculpa. Talvez aquele velho discurso de auto-piedade que ele sempre usa quando percebe que fez m***a. Mas eu não fico para ouvir. Desligo antes que ele consiga terminar a primeira frase. O silêncio volta a dominar o quarto do hospital. Por alguns segundos eu apenas fico ali, encarando a tela escura do celular na minha mão, enquanto o peso da situação finalmente começa a se acomodar dentro de mim. Respiro fundo outra vez. Então seco as lágrimas que escaparam com a parte de trás da mão, tentando recuperar o pouco de dignidade que ainda me resta naquela madrugada miserável. Pego minha bolsa e a jogo sobre os ombros, sentindo uma leve pontada de dor atravessar meu corpo por causa do impacto do acidente de horas atrás. Não é nada insuportável, mas está ali, lembrando-me a cada movimento de que o dia já tinha passado do limite do aceitável há muito tempo. Mesmo assim, ignoro o incômodo e saio do quarto do hospital. Eu já havia recebido alta quase uma hora antes. Uma hora inteira perdida ali dentro, sentada naquele quarto de hospital, discutindo com Ryan e, em um momento particularmente patético da minha noite, praticamente implorando para que meu noivo viesse me buscar. Solto um suspiro cansado ao lembrar disso. Que palhaçada. Se eu soubesse que aquilo ia acabar daquele jeito, teria pedido um táxi desde o início e poupado meu orgulho de passar por aquela cena ridícula. Caminho pelos corredores silenciosos do hospital, meus passos ecoando suavemente no chão brilhante enquanto sigo em direção à saída. O lugar está quase vazio àquela hora da madrugada, iluminado por aquelas luzes brancas e frias que fazem qualquer pessoa parecer mais cansada do que realmente está. Estou prestes a atravessar as portas automáticas que me separariam do frio noturno de Toronto quando ouço alguém chamar meu nome. — Senhorita Brooks! Senhorita Brooks, por favor, espere! A voz feminina ecoa atrás de mim, clara o suficiente para me fazer parar no meio do passo. Fecho os olhos por um segundo, respirando fundo. O que será que eu fiz agora? — Ótimo... — murmuro baixinho para mim mesma. — Porque aparentemente hoje o destino decidiu brincar comigo até o amanhecer. Viro-me devagar para encarar a dona da voz. Uma mulher está parada alguns metros atrás de mim. Ela parece ter algo em torno de quarenta anos, talvez um pouco mais. Usa um uniforme que eu não saberia exatamente identificar — elegante demais para ser de hospital, formal demais para parecer casual. Há algo extremamente organizado nela, desde a postura até o sorriso educado que repousa em seus lábios. — Boa madrugada, senhorita Brooks. — ela diz com educação impecável. — Meu nome é Martina Diaz. Sou motorista particular do senhor Sterling. Franzo levemente a testa. Antes que eu possa perguntar qualquer coisa, ela continua: — Ele me pediu para acompanhá-la até sua residência e garantir que a senhorita chegue em segurança. Ela faz um pequeno gesto educado com a mão. — Por favor, me acompanhe. E então simplesmente começa a caminhar em direção à saída do hospital, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Eu permaneço parada por um segundo, piscando algumas vezes, tentando processar o que acabou de acontecer. Eu poderia recusar. Poderia inventar alguma desculpa. Poderia até perguntar por que diabos um homem que eu conheci por alguns minutos decidiu mandar uma motorista particular me buscar no hospital. Mas a verdade é que estou tão cansada, tão exausta mental e fisicamente depois do dia que tive, que recusar essa carona quase parece um pecado. Então apenas sigo atrás dela. Saímos do hospital e caminhamos em silêncio pelo estacionamento iluminado pelos postes de luz da rua. O ar frio da madrugada de Toronto imediatamente invade meus pulmões, fazendo minha pele arrepiar. Mas meus passos simplesmente travam no meio do caminho quando vejo o carro para o qual estamos indo. Um Rolls-Royce Wraith Black Badge está estacionado ali. Impecável. n***o como a própria madrugada. Brilhando sob a luz dos postes como se tivesse sido colocado ali apenas para ser admirado. Aquilo não é apenas um carro. Aquilo é o carro. Literalmente o tipo de carro que grita para o mundo inteiro que o dono tem dinheiro demais e absolutamente nenhum problema em gastar cada centavo dele. — Esse é apenas um dos carros dele. — a voz de Martina ecoa ao meu lado. Olho para ela, que agora sorri com certa diversão. — O senhor Sterling tem uma pequena coleção. — ela continua, dando de ombros. — Coisa de gente rica. Ela solta uma pequena risada enquanto contorna o carro e abre a porta do motorista como se aquilo fosse apenas mais uma terça-feira comum. Eu ainda fico alguns segundos encarando o veículo antes de finalmente entrar também. E claro, escolho o banco da frente. Porque sejamos honestos: talvez eu nunca mais tenha a oportunidade de entrar em um carro desses novamente, e eu não vou desperdiçar essa experiência sentada atrás como uma passageira invisível. Martina liga o carro e o motor ronrona de forma quase silenciosa, elegante, como se até o barulho tivesse sido refinado. Eu passo o endereço e ela o insere no GPS antes de colocar o carro em movimento, nos guiando pelas ruas quase vazias da cidade em direção ao prédio onde Jane mora. Também conhecido como meu lar temporário. O trajeto é tranquilo. O tipo de silêncio confortável que só existe de madrugada, quando a cidade finalmente desacelera. Conversamos um pouco durante o caminho, nada muito profundo, apenas aquelas trocas educadas que fazem o tempo passar mais rápido. É no meio dessa conversa que Martina menciona casualmente: — O senhor Sterling comentou que a senhorita será a nova babá do pequeno Theo. Levo alguns segundos para processar aquilo. Então mordo o lábio para não rir. Porque se antes eu tinha alguma dúvida de que aquele homem era completamente maluco, agora eu tenho absoluta certeza. Um estranho decide que eu vou trabalhar para ele depois de observar por alguns minutos a minha interação com o filho dele, me persegue, me atropela… e ainda manda um Rolls-Royce me buscar no hospital quando eu tenho alta. Sem duvidas um poço de normalidade o querido. Algum tempo depois, o carro para diante do antigo prédio de quatro andares onde Jane mora. Agradeço a carona a Martina, saio do veículo e entro no prédio silencioso. O elevador antigo sobe lentamente até o andar do apartamento, rangendo um pouco mais do que eu gostaria àquela hora da madrugada. Quando finalmente abro a porta do apartamento, encontro tudo completamente escuro. Jane provavelmente já está na casa de Levi, como tinha comentado mais cedo. Fecho a porta atrás de mim e apoio a testa por um segundo na madeira fria. Neste momento da minha vida, só existem três coisas que realmente importam. Um banho quente. Meu pijama de unicórnio. E minha cama.
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