Jainy
- Estou indo filha - minha mãe avisou antes de se levantar da mesa. Observei ela pegar sua bolsa e uma garrafinha de água.
- Eles já voltaram de viagem? - Perguntei curiosa, e ela assentiu sem me olhar.
- Voltaram ontem a noite, e certamente vou passar o dia inteiro desfazendo malas - Minha mãe suspirou - Até mais tarde - disse antes de me beijar na testa e sair da cozinha.
Olhei para meu café na mesa. Odiava o fato da minha mãe precisar trabalhar de empregada doméstica para nos sustentar. Eu já tentei arrumar um emprego, mas ela sempre dizia que queria que eu me esforçasse apenas na faculdade, o que eu não achava justo. Talvez eu com um emprego bom, não precisaria que ela trabalhasse para uma das famílias mais insuportáveis do mundo.
Terminei meu café, peguei minha mochila e sai de casa. Na faculdade as aulas se arrastaram lentamente, meu único momento de alívio foi somente quando encontrei minhas amigas Kiara e Beth na lanchonete.
- Você não vai acreditar no garoto novo da minha turma - Kiara disparou antes mesmo que eu me sentasse com elas.
- Eu conheço? - Perguntei nem um pouco interessada. Kiara vivia suspirando por vários meninos da faculdade, eu não sabia realmente o porquê essa obsessão dela em tentar achar o homem perfeito, no final só se magoava e ficava triste, logo depois encontrava um novo que pensava ser diferente e o ciclo continuava.
- Não. Ele é novo na cidade.
- Então fala - Pedi antes de morder meu sanduíche.
Kiara fixou seus olhos em algo atrás do meu corpo, e apontou o dedo:
- Ele.
Assim que os olhos de Beth se arregalam ao ver o tal garoto novo, minha curiosidade aumentou. Me virei em direção a ele e p**a MERDA! Não era um garoto bonito. Não. Era lindo. Muito mais que lindo. Realmente faltou palavras suficientes para expressar. Dessa vez Kiara acertou em cheio. Seu cabelo curto escuro fazia par perfeito com sua pele bronzeada. Sua barba rala deixava mais evidente sua boca enfeitado com um piercing de argola. Ele sorriu para um dos garotos ao seu lado, e eu juro por Deus que meu coração se derreteu naquele momento.
- Zayn - Kiara disse me fazendo saborear na cabeça cada letra do seu nome. Zayn.
Eu parecia hipnotizada, não conseguindo tirar minha atenção dele. Sua jaqueta preta parecia mais um de seus artefatos para acabar com o meu coração. Observei algumas tatuagens em suas mãos, e senti curiosidade em saber como eram seus braços sem aquele tanto de pano.
- Jainy - Beth me chamou mas eu ignorei. Sua mão subiu até a boca, onde ele fez um carinho de leve em seu lábio inferior, não parando de conversar com seus amigos. Por um segundo me perguntei qual seria a sensação em beijar aqueles lábios, mas logo meus pensamentos se calaram quando os olhos dele me encontraram.
Foda-se.
O barulho a minha volta sumiu. Nem mesmo os batimentos do meu coração eu conseguia ouvir agora. Ele manteve seu olhar preso ao meu tempo o suficiente para me matar, já que m*l respirando eu estava. O escuro de suas pupilas pareciam me engolir e me levar para um lugar nunca visitado antes.
- Jainy - Kiara me chamou dessa vez, destruindo a imersão que eu havia entrado. Finalmente desviei meu olhar do Zayn, que agora tinha uma feição de curiosidade me olhando, será que ele sentiu o mesmo? Olhei para minhas amigas confusas na minha frente, e mordi meu sanduíche para esconder a minha vergonha.
- O que foi isso? - Kiara perguntou e eu dei de ombros.
- Isso o que? - Mantive meus olhos para a mesa.
- Você parecia hipnotizada por ele - Beth falou rindo.
- Bobagem - revirei os olhos e mordi exageradamente meu sanduíche para acabar com ele logo. - Vou pra sala - falei de boca cheia, e sem ter certeza se elas me ouviram ou não, eu me levantei da mesa e sai andando. Antes de deixar a lanchonete, dei uma olhada discreta em direção ao Zayn, mas ele não estava ali mais. Lembrei de como meu corpo ficou ao vê-ló, e balancei a cabeça. Quem era esse garoto?
(...)
Entrei em casa e encontrei minha mãe encolhida no sofá da sala. A preocupação logo atingiu meu corpo.
- Mãe? O que aconteceu? Por que não está no trabalho?
Ela levantou a cabeça para me olhar. Notei que seus olhos estavam vermelhos, o que foi suficiente para me deixar despedaçada.
- Foram eles de novo? - Perguntei sentindo a raiva começar dar seus primeiros sinais. Os patrões da minha mãe eventualmente humilhavam ela, ou achavam que podiam fazer certos tipo de coisas que tudo bem, quando na verdade ela chegava em casa e chorava na maioria das vezes. Minha mãe assentiu com a cabeça e eu bufei antes de me entrelaçar com ela no sofá. - Mãe eu já te disse para se demitir, deve ter famílias melhores por ai. E eu posso procurar um emprego também, não seria um problema.
- Não, de jeito nenhum - ela se impôs com a voz rouca. - Você precisa manter o foco em apenas uma coisa.
Revirei o olhos.
- E é fácil te ver quase todos os dias triste por causa daquela família de nojentos?
- Eles podem ser cruéis, mas o salário é bem mais alto que a média, além disso... - ela me olhou - Trisha irá pagar a sua faculdade.
- O que? - Praticamente gritei.
A patroa mesquinha e irritante em tantos níveis agora seria responsável pela mensalidade da minha faculdade?
- O filho mais novo dela veio dessa viagem, e agora está morando com eles. Ele foi bem simpático comigo, e tentou saber o máximo possível sobre minha vida. Quando soube que eu trabalhava principalmente para pagar sua faculdade, ele falou com sua mãe para que ela fosse responsável por isso, sem alterar o valor do meu salário.
- E ela aceitou? - Perguntei incrédula.
- Sim. Aparentemente esse garoto pode fazer o que quiser, até mesmo deixar seus pais aos seus pés - Minha mãe respondeu e soltou um leve sorriso. Mas eu não vi graça nenhuma. A família que eu mais odiava no mundo estará mais ligados a minha vida do que antes?
- Eu não aceito mãe! Eu não quero ela pagando nada pra mim - Me levantei do sofá brava.
- Não é você quem decide isso Jainy! Precisamos de dinheiro, e ela pagando sua faculdade é um alívio enorme para mim. Poderemos até trocar a geladeira. - Minha mãe falou mais alto mostrando que eu não tinha escolhas. Eu nunca tinha escolhas. Me lembro da geladeira que estava nos seus últimos dias de vida, e na tristeza da minha mãe ao saber que iria precisar economizar ainda mais para comprar uma nova. INFERNO.
Suspirei e balancei a cabeça. Infelizmente eu não podia fazer nada sobre isso. E infelizmente estaremos mais presas a essa família.
- O que aconteceu hoje? - Perguntei tentando voltar ao ponto inicial disso tudo.
- Ah...- minha mãe trouxe novamente a feição de tristeza. - Trisha me pediu para desfazer sua mala, mas não havia dito nada sobre ter um vaso extremamente caro lá dentro. Quando retirei as roupas para lavar, ele caiu junto e bom...Ela correu para ver o que tinha acontecido, e quando viu, me disse palavras realmente dolorosas para serem repetidas - Vi os olhos da minha mãe se encherem de lágrimas, e minha vontade em chegar na Trisha e falar umas verdades para ela, só aumentou. - Minha mão foi cortada, e ela achou melhor me mandar para casa.
- Cadê? - Perguntei preocupada. Minha mãe ergueu sua mão com uma faixa fina em volta.
- O filho dela fez o curativo, ele é muito bom - ela elogiou.
- Ou talvez seja só um falso - bufei.
- Não fala assim, você não o conhece. Ele me defendeu, ninguém nunca me defendeu lá.
- Defendeu? - indaguei surpreendida.
- Sim. Quando ele chegou e viu que Trisha estava brigando comigo, ele zombou dela - um sorriso se abriu no rosto da minha mãe ao lembrar - Ele disse que aquele vaso era feio demais, e que ele iria quebrar em algum momento, mas eu tive o privilégio em fazer primeiro - Seu sorriso aumentou e apesar da minha luta para não sorrir junto, eu me deixei ser levada.
- É...Pode ser que ele não seja tão r**m assim como os outros, mas ele ainda pertence a uma família nojenta - falei e minha mãe concordou. Voltei a me sentar ao seu lado e abracei seu corpo de lado. - As coisas vão melhorar mãe, prometo - murmurei torcendo para que melhorassem logo.
Continua...