Eu estou sozinha à meia-noite.
Tenho tentado muito não entrar em problemas, mas eu... Eu tenho uma guerra em minha mente, então eu apenas sigo em frente.
Ride, Lana Del Rey
A noite estava drasticamente fria.
Eu odeio vestidos e acho que não nasci para usá-los. Me sinto objetificada demais quando coloco algum em meu corpo e começo a me odiar por ter saído de casa com um, no qual me dá a sensação que fui embalada a vácuo ao invés da minha calça jeans surrada de sempre, confiando apenas na minha jaqueta de couro velho para me proteger dos onze graus da grande São Paulo.
Ultimamente tenho frequentado bastante bares, em busca de um lugar de sossego, já que a minha casa não é esse lugar. No caso hoje, Victoria, a minha melhor amiga desde de que a gente tinha uns dois anos de idade, me convidou a ir pra uma festa a Fantasia em uma boate, perto do meu condomínio. Era dia trinta e um de outubro, o famoso Halloween, a festa americanizada que os brasileiros decidiram tomar como mais um motivo para se divertir e aqui estou eu, vestida criativamente de mim mesma, totalmente de preto e sem nenhuma expectativa quanto a isso. Nada diferente do habitual.
Puxei meu maço de cigarro de dentro da bolsa, coloquei um entre os meus lábios e depois acendi com meu isqueiro, tendo cuidado para não apagar com a brisa gélida devido à umidade extrema. Já eram tempos frios do ano e na minha lista que parei de criar colocações, por estar enorme demais de coisas nas quais eu odeio, o frio estava no top dez, com certeza.
Abracei meu corpo, enquanto inalava a nicotina na esperança de acalmar todo o nervosismo que se instalava dentro de mim.
A expulsão do reformatório veio e com ela a tribulação dos meus problemas multiplicada por cem. Parabéns para Lailah Angeline, você foi expulsa de um convento por ter brigado com a garota mais rica do Estado de São Paulo.
O quão fodida eu sou?
A meta era sair de lá, claro. Mas não assim dessa forma, eu não contava com a possibilidade de voltar pro meu inferno particular, mais conhecido como casa, antes de ter planejado uma fuga perfeita pra bem longe daqui.
Decidi que vou empurrar com a barriga, até minha mãe descobrir por conta própria. Ela se importa tanto comigo, que a ideia de férias no meio do semestre, não pareceu ser sem pé e sem cabeça. Agora enganar o meu irmão mais velho, não era tão fácil assim, ele ainda não sabe e quando souber vai tentar f***r minha vida, mas planejo contar e adiantar o problema, quem sabe um acordo resolva; serei sua empregada. Já sou o tempo todo mesmo. Para minha mãe, apenas uma coisa importava nessa terra: meu irmão mais velho. Isso me deixa cansada, desgastada e desesperada para sair de casa.
Depois de soprar a última nuvem de fumaça, comecei a achar que a Vic tinha me feito de i****a e que tinha esquecido totalmente que a gente tinha combinado de se encontrar aqui as 22h da noite, até pegar o celular pra ligar pra ela e ver que atrasada sou eu, já passava da meia noite.
Adentrei no local, me deparando com um movimento apaziguado, havia poucas pessoas espalhadas por mesas em todo ambiente escuro e barulhento, era de se esperar para uma segunda-feira à noite. Poucas pessoas fantasiadas, o que me fazia ficar mais à vontade, já que nem fiz questão de procurar algo ao nível e ainda bem por isso, pois acabo de perceber que levei um bolo da minha amiga.
?: obrigada por fingir que eu sou um nada.
Bitch⭐️?: menos drama, miga
Bitch⭐️?: precisei fazer um ⚽️? no LP aqui nos fundos do bar
?: o que diabos é isso?
Bitch⭐️?: inocente, já volto
Pensei por dois segundos, depois preferi não ter pensado. É por isso que salvei o contato dela assim, é autoexplicativo.
Continuei andando pelo local até avistar o balcão de bebidas. Havia uma garota ruiva conversando com um cara mais velho. Ele tinha uma barba grisalha e vestia terno, entretido demais com toda a beleza do corpo dela, vestido com uma fantasia ridiculamente sexualizada de demônio. Ela sorria, eu diria até que de uma maneira bem lasciva, enquanto preenchia o copo dele com Uísque.
— Boa noite, com licença? — me aproximei, me odiando por ter que atrapalhar o flerte dos dois. — Eu quero duas doses de tequila.
A garota sorriu mais uma vez para o senhor, antes de levar seus olhos cinzas até os meus e foi quando o seu sorriso sedutor deu lugar para um sorriso que ficava entre nojo e pouco caso. Não precisava de muita coisa para ler os seus pensamentos, notoriamente ela devia está me chamando de patricinha mentalmente ou, deveria ser só coisa da minha cabeça, para variar. O fato da minha mãe ser uma investigadora renomada no país me fazia ter boas condições o suficiente para nunca mais trabalhar e viver na sua barra, mas bem, como falei, não é exatamente isso que quero e ter a minha imagem ligada a ela é como um insulto.
Ela me entregou os dois shots, sorri como forma de agradecimento e tive quase certeza de a ver revirando os olhos sutilmente.
Antes que eu pudesse decidir se pedia desculpa por existir ou se perguntava qual era o problema, pensei duas vezes, até porque acabei de ser expulsa de um convento por não saber controlar meus ataques de raiva.
Enquanto pensava a que ponto cheguei e fazia uma contagem inútil até dez, fui pega desprevenida por uma voz muito familiar, na qual eu daria tudo para nunca tê-la por perto.
— Que p***a você pensa que está fazendo, Lailah?
Joshua. Meu irmão mais velho, vem em passos furiosos, gritando, em minha direção. p***a.
O bar já estava bem mais movimentado em comparação a hora que cheguei aqui, talvez por já ser de madrugada. Tinha pessoas fantasiadas por todo local e todas elas tinham parado o que faziam, para assistir em primeira mão um barraco de família ao vivo.
— Achou mesmo que ia voltar e eu não iria ficar sem saber de nada? — ele continuava questionando, indignado.
— Eu não fiz questão de esconder. — peguei a dose de tequila pronta para tomar, sendo cínica ao extremo, sem dar muita cerimônia para aquele surto ciumento na minha frente.
Mas ao invés disso, tive uma ideia melhor...
— Uma garrafa de tequila, por favor. — pedi à garota suuuuper simpática que ainda me olhava com cara de deboche. Ela me entregou o que eu pedi, provavelmente torcendo para que meu espírito entrasse em um eterno coma alcoólico. Joshua continuava no meu encalço, provavelmente torcendo para o mesmo, ele me encarava como se quisesse enfiar a garrafa na minha goela abaixo.
— E aí decidiu por conta própria que vir pra essa espelunca a noite, beber todas, era o melhor pra tua vida e que isso resolveria os seus problemas? — Sim? Apesar de que ainda nem comecei a beber, mas planejava.
Me pergunto se o cara que a Victoria foi chupar não gozaria nunca? Só queria sumir daqui.
— Pensou mesmo em mentir pra mãe e não contar que você foi expulsa do convento? Eu vou contar tudo pra ela e essa pouca vergonha vai acabar logo! — ele soca a madeira do balcão do bar, agindo como o irmão sufocantemente ciumento que sempre foi. Durante todo o pouquíssimo tempo que convivemos juntos, devido uma infância longe um do outro, o meu meio irmão e eu nem sequer nos suportamos. E todo esse direito que ele achava ter sobre mim, só piorava as coisas entre eu e a mulher que me teve e de alguma maneira.
Isso tudo , era tudo que eu não queria que estivesse acontecendo. Que merda!
— Se ela realmente se importasse com alguma coisa, ela estaria cuidando da gente em casa. — soltei um riso amargo, afim de que as palavras o ferissem, depois completei em um sussurro cheio de acidez: — apesar de que você é o único que ela se importa, o irmão mais escroto de todos.
— Pra casa, agora! Sua vad... — a mão de Joshua abanava bem na frente do meu rosto, fechei os olhos, apenas esperando o impacto dela me tocar, mas ao invés disso, senti uma energia estranha se fazer presente na minha frente e quando abri os olhos, me deparei com uma parede de músculos de quase dois metros.
— Não aceitamos esse tipo de coisa aqui. — Um cara no qual eu nunca vi, diz de maneira calma, porém não menos que ameaçadora. Que p***a é essa?
— Fica na tua cara, você nem sequer conhece ela. Não sabe o "tipo" que ela é. — Joshua avisou, me fazendo cogitar a ideia de me sentir como um lixo, eu posso até não prestar, mas o pódio de porcaria pertence exclusivamente a ele.
— Eu acho melhor você falar direito com ela, ou então realmente, vou fazer você se arrepender de cada palavra.
Me afastei minimamente daquele sujeito a um palmo de distância, apenas para poder olhar bem para quem estava desafiando Joshua, o rei da arrogância, ninguém nunca falaria dessa forma com o meu querido irmão, a não ser eu, mas hoje pude ter esse pingo de felicidade de presenciar essa cena magnífica.
Ninguém nunca havia feito isso por mim.
— Você ta fodida. — foi o veredito que Joshua me deu fervendo em ódio, antes de finalmente me deixar "sozinha" ali.
A inveja é um pecado capital, e eu pratiquei tal pecado zilhões de vezes no decorrer da minha vida, quando desejei amargamente ter nascido em outra família.
— Problemas em casa? — o estranho que decidiu tomar minhas dores, perguntou, agora se mostrando um tanto quanto interessado nos meus problemas.
Dei de ombros, notoriamente esgotada mentalmente pelos sapos que engulo todos os dias e pensando se desabafar com alguém que nunca vi, parece ser uma boa ideia.
— E como você se chama?
Lembro que não comi bem durante o dia, pra ser franca, eu nem tive tanto tempo, então o álcool indo diretamente pro meu estômago vazio me fez sentir uma leve tontura, segurei minhas têmporas, fechando os olhos, tentando me manter firme na cadeira.
— Meu nome é Lailah.
— O nome de um anjo. — revirei os olhos ao escutar algo tão clichê, como já sabia, os homens são todos iguais, mas ele não e tive essa certa quando o escutei dizer em um sussurro sombrio. — O anjo da noite.
Dei um grande suspiro, antes de abrir os olhos e encontrar um par de olhos cinzas fissurados nos meus, foi então que eu tive aquela famosa sensação que descrevem nos livros, aquela sensação que descreve detalhadamente o momento em que seu mundo para de rodar e o tempo parece estagnar ao seu redor.
— Não me parece do tipo religioso.
— Nem você. — ele pendeu sua cabeça para o lado, cruzando os braços e deixando saliente os seus braços tatuados. — Você tem a beleza de uma garota que não vai para o céu.
Era nítida a malícia em cada uma das suas palavras. Realmente eu não sou tão religiosa quanto deveria ser, mas confesso que a visão que estou tendo desse cara era uma visão dos deuses, e me fazia pecar em pensamento. Ele é a prepotência em pessoa, vestido com uma camisa branca e um jeans surrado. Tentei não olhar diretamente mais em seus olhos, mas pude perceber alguns fios de cabelos caídos pelo rosto e cinza nebuloso nos seus olhos.
— Eu posso te levar ao céu, acredite. — De prazer ou até mesmo morto, quase acrescentei. Não pude conter uma risada ao entrar na linha do mesmo tipo de cantada que ele.
O sorriso quase inexistente continuava em seu rosto, dando a ele uma leve imponência misteriosa que eu queria mais que tudo, quebrar ali mesmo.
— Eu nunca vou pisar lá. — ele disse.
— Estamos juntos nessa. — joguei meus ombros pra cima, me dando conta que, conversar com ele era um tanto quanto interessante.
Isso é perigoso, e se torna ainda mais perigoso quando me sinto atraída como uma abelha ao mel, quando o efeito daquele maldito arquear de lábios me faz querer tirar toda a sua roupa para ver de perto cada desenho no seu corpo, me faz ir longe nos pensamentos, imaginando as coisas mais pecaminosas que seríamos capaz juntos.
— Então o que acha de nos brindarmos a isso? — Levantei a garrafa que eu tinha comprado há pouco, enchi meu copo e depois peguei um outro e enchi para ele. Na minha cabeça desmiolada beber com um estranho era uma ideia perfeita.
Brindamos no ar, mas antes que pudéssemos sentir o álcool queimar na garganta ele disse da maneira mais displicente e tentadora possível:
— Seja bem vinda ao inferno, anjo.