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A FATURA (MORRO)

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Sinopse

Um segredo pode te manter viva. Mas o silêncio tem um preço.​Fernando está preso por um crime que não cometeu. Sua irmã, Fernanda, sobrevive vendendo brigadeiros e lutando contra desmaios que a apagam nos momentos de maior tensão.​Em um dia de visita no presídio, ela abre a porta errada. O cenário é um pesadelo: dois mortos e um homem com uma faca improvisada nas mãos. Ele é conhecido como O Limpador.​Ela deveria ser a próxima vítima. Mas ele sussurra: "Doces sonhos".​No morro, toda dívida é cobrada com sangue. E a fatura acabou de chegar.

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O Começo do Fim
Fernando: ​4 anos antes.. ​— Eu estou cansada, Fernando! Eu não aguento mais essa vida! — a voz da Clara ecoava pelas paredes finas, carregada de um desprezo que já tinha se tornado rotina. ​— Calma, Clara... O que foi agora? Eu tenho que ir trabalhar, o plantão não espera — respondi, tentando manter a voz baixa para não assustar o pequeno. ​— Deixa o menino lá na sua mãe, cara! Me dá um sossego! ​Ela não falou, ela rosnou. Jogou a mochila do Júnior contra o meu peito com força. Olhei para baixo e vi meu filho me encarando com aqueles olhos marejados, o medo estampado no rosto de quem já estava acostumado a ser tratado como um fardo. ​Eu e a Clara tivemos um lance rápido, coisa de momento, e logo depois ela engravidou. O problema é que ela não esperava engravidar de um simples vapor. Ela queria luxo, queria o topo, queria o poder que o crime prometia, mas que a minha posição na época ainda não dava. Eu fingia não ver, tentava ignorar o jeito que ela olhava para as frentes de morro, mas no fundo, eu sabia: a ambição dela era maior que o amor pelo nosso filho. ​— Vamos, Júnior. Já tô atrasado — chamei, pegando na mãozinha dele. ​Desci o beco a passos largos. O sol ainda estava nascendo, mas o morro já pulsava. Cheguei na casa da minha mãe e encontrei ela e a Dada na sala. Coloquei o menino no sofá, e o silêncio da minha coroa doeu mais que qualquer grito. Ela me olhou com aqueles olhos cansados, um julgamento silencioso que dizia tudo: ela sabia que a Clara nunca quis o menino. ​— Cuida dele, mãe — foi tudo o que consegui dizer. ​Saí correndo, pegando meu rádio e ajeitando a postura. Já estava atrasado para o meu ponto. O dia transcorreu normal, no ritmo de sempre, entre uma carga e outra, um olho no asfalto e outro na mata. ​O que eu não sabia era que aquele sol, que brilhava forte sobre o morro, seria o último que eu veria como um homem livre. Eu não sabia que, ao voltar para casa, minha vida viraria de ponta-cabeça e o sangue dela mancharia não só as minhas mãos, mas o meu destino inteiro... O plantão terminou e o morro estava estranhamente calmo. Senti um calafrio enquanto subia o beco, mas achei que era só o cansaço acumulado. Quando cheguei na porta de casa, notei o detalhe que deveria ter me feito dar meia volta a porta estava apenas encostada. ​Um silêncio ensurdecedor vinha lá de dentro. ​— Clara? Cheguei — anunciei, entrando devagar. ​O cheiro de ferro — cheiro de sangue fresco — invadiu minhas narinas antes mesmo de eu chegar ao quarto. Meu coração disparou. Quando entrei, a cena parecia um pesadelo montado. Clara estava caída, o sangue ainda escorrendo, mas o que me travou foi o que vi ao redor: a casa estava revirada, mas nada de valor tinha sido levado. ​Me desesperei. Me joguei ao lado dela, tentei estancar o corte no pescoço, sujei minha camisa, minhas mãos, meu rosto. Eu gritava por ela, mas os olhos dela já estavam fixos no nada. ​Foi nesse segundo que o chute na porta aconteceu. ​— Polícia! Mãos na cabeça! ​Eu nem tive tempo de processar. Não houve perguntas, não houve perícia detalhada. Antes mesmo de eu entender que ela tinha partido, o metal frio das algemas já apertava meus pulsos sobre o sangue dela. ​Olhei pela porta aberta e vi vultos no beco. Vizinhos que eu nunca vi, gente que parecia estar ali só esperando o espetáculo. E lá no fundo, um sorriso de canto de boca de um dos caras que trabalhava comigo no ponto. Ali eu entendi. ​Não foi um latrocínio. Não foi um crime de paixão... Foi um sumiço ​A Clara morta era a desculpa; eu na tranca era o objetivo. A sena estava armada para eu cair, e eu caí como um patinho, segurando o corpo da mulher que, apesar de tudo, era a mãe do meu filho. ​Enquanto me jogavam no camburão, minha única imagem era o rosto do Júnior na casa da minha mãe. Quem ia proteger ele agora, se o plano era me apodrecer no sistema?

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