Pré-visualização gratuita O Começo do Fim
Fernando:
4 anos antes..
— Eu estou cansada, Fernando! Eu não aguento mais essa vida! — a voz da Clara ecoava pelas paredes finas, carregada de um desprezo que já tinha se tornado rotina.
— Calma, Clara... O que foi agora? Eu tenho que ir trabalhar, o plantão não espera — respondi, tentando manter a voz baixa para não assustar o pequeno.
— Deixa o menino lá na sua mãe, cara! Me dá um sossego!
Ela não falou, ela rosnou. Jogou a mochila do Júnior contra o meu peito com força. Olhei para baixo e vi meu filho me encarando com aqueles olhos marejados, o medo estampado no rosto de quem já estava acostumado a ser tratado como um fardo.
Eu e a Clara tivemos um lance rápido, coisa de momento, e logo depois ela engravidou. O problema é que ela não esperava engravidar de um simples vapor. Ela queria luxo, queria o topo, queria o poder que o crime prometia, mas que a minha posição na época ainda não dava. Eu fingia não ver, tentava ignorar o jeito que ela olhava para as frentes de morro, mas no fundo, eu sabia: a ambição dela era maior que o amor pelo nosso filho.
— Vamos, Júnior. Já tô atrasado — chamei, pegando na mãozinha dele.
Desci o beco a passos largos. O sol ainda estava nascendo, mas o morro já pulsava. Cheguei na casa da minha mãe e encontrei ela e a Dada na sala. Coloquei o menino no sofá, e o silêncio da minha coroa doeu mais que qualquer grito. Ela me olhou com aqueles olhos cansados, um julgamento silencioso que dizia tudo: ela sabia que a Clara nunca quis o menino.
— Cuida dele, mãe — foi tudo o que consegui dizer.
Saí correndo, pegando meu rádio e ajeitando a postura. Já estava atrasado para o meu ponto. O dia transcorreu normal, no ritmo de sempre, entre uma carga e outra, um olho no asfalto e outro na mata.
O que eu não sabia era que aquele sol, que brilhava forte sobre o morro, seria o último que eu veria como um homem livre. Eu não sabia que, ao voltar para casa, minha vida viraria de ponta-cabeça e o sangue dela mancharia não só as minhas mãos, mas o meu destino inteiro...
O plantão terminou e o morro estava estranhamente calmo. Senti um calafrio enquanto subia o beco, mas achei que era só o cansaço acumulado. Quando cheguei na porta de casa, notei o detalhe que deveria ter me feito dar meia volta a porta estava apenas encostada.
Um silêncio ensurdecedor vinha lá de dentro.
— Clara? Cheguei — anunciei, entrando devagar.
O cheiro de ferro — cheiro de sangue fresco — invadiu minhas narinas antes mesmo de eu chegar ao quarto. Meu coração disparou. Quando entrei, a cena parecia um pesadelo montado. Clara estava caída, o sangue ainda escorrendo, mas o que me travou foi o que vi ao redor: a casa estava revirada, mas nada de valor tinha sido levado.
Me desesperei. Me joguei ao lado dela, tentei estancar o corte no pescoço, sujei minha camisa, minhas mãos, meu rosto. Eu gritava por ela, mas os olhos dela já estavam fixos no nada.
Foi nesse segundo que o chute na porta aconteceu.
— Polícia! Mãos na cabeça!
Eu nem tive tempo de processar. Não houve perguntas, não houve perícia detalhada. Antes mesmo de eu entender que ela tinha partido, o metal frio das algemas já apertava meus pulsos sobre o sangue dela.
Olhei pela porta aberta e vi vultos no beco. Vizinhos que eu nunca vi, gente que parecia estar ali só esperando o espetáculo. E lá no fundo, um sorriso de canto de boca de um dos caras que trabalhava comigo no ponto. Ali eu entendi.
Não foi um latrocínio. Não foi um crime de paixão... Foi um sumiço
A Clara morta era a desculpa; eu na tranca era o objetivo. A sena estava armada para eu cair, e eu caí como um patinho, segurando o corpo da mulher que, apesar de tudo, era a mãe do meu filho.
Enquanto me jogavam no camburão, minha única imagem era o rosto do Júnior na casa da minha mãe. Quem ia proteger ele agora, se o plano era me apodrecer no sistema?