O caminho de volta para a montanha parecia mais longo do que o da ida.
Góvia caminhava devagar pela trilha da floresta, segurando com cuidado o cesto onde havia guardado as folhas prateadas. A brisa fria passava entre as árvores, fazendo as folhas sussurrarem suavemente.
Kael caminhava alguns passos atrás dela.
Às vezes em forma humana.
Às vezes desaparecendo por alguns segundos entre as árvores e reaparecendo logo depois.
Ele parecia se divertir com aquilo.
— Você sempre anda tão devagar? — provocou ele.
Góvia não olhou para trás.
— Eu ando no ritmo que eu quiser.
Kael sorriu.
— Você realmente não tem medo de mim.
— Medo não me faria andar mais rápido.
O lobo prateado riu baixo.
Depois de alguns minutos de caminhada, eles finalmente começaram a subir o caminho pedregoso que levava até a caverna.
Quando chegaram perto da entrada…
Dargan já estava lá.
Sentado sobre uma grande rocha.
Como se estivesse esperando.
Seus olhos dourados imediatamente se moveram para Kael.
A expressão dele ficou dura.
— Você.
Kael levantou as mãos de forma relaxada.
— Calma, tigre.
— Hoje eu só estou acompanhando.
Dargan ignorou completamente ele e olhou para Góvia.
— Você demorou.
Góvia passou por ele e entrou na área da fogueira.
— A floresta não fica mais perto só porque você quer.
Dargan ficou em silêncio por um momento.
Mas algo chamou sua atenção.
Ele se aproximou alguns passos.
Seu nariz se contraiu levemente.
Predadores tinham sentidos muito apurados.
E algo estava diferente.
O cheiro dela…
Ainda era o mesmo corpo.
Ainda era a mesma ogra.
Mas havia algo novo.
Mais limpo.
Mais leve.
Dargan franziu levemente a testa.
— Você fez alguma coisa.
Góvia começou a organizar as ervas perto da mesa de pedra improvisada.
— Eu fui colher plantas.
— Só isso.
Kael observava a cena encostado em uma árvore, claramente se divertindo.
— O tigre tem um bom nariz — comentou ele.
Dargan lançou um olhar afiado para ele.
— Vá embora, Kael.
Kael deu de ombros.
— Eu ajudei ela hoje.
Isso fez Dargan olhar novamente para Góvia.
— Ajudou?
Góvia respondeu calmamente:
— Tinha um lobo guardando o rio.
Dargan imediatamente ficou alerta.
— Um guardião?
Kael assentiu.
— Grande.
— Feio.
— Mau humor.
Dargan suspirou lentamente.
Depois cruzou os braços.
— Você não deveria ir sozinha.
Góvia finalmente olhou diretamente para ele.
— Eu não sou sua presa.
O silêncio caiu entre os dois.
Por um momento parecia que eles iam discutir.
Mas então…
Dargan pegou o grande cervo que havia trazido e jogou perto do fogão.
— Então cozinhe.
Kael começou a rir alto.
— Eu sabia.
— Ele trouxe comida esperando recompensa.
Góvia olhou para o cervo.
Depois para Dargan.
— Eu cozinho.
Ela apontou para o corpo do animal.
— Mas você limpa.
Dargan levantou uma sobrancelha.
— Eu cacei.
Góvia cruzou os braços.
— Então coma cru.
Kael gargalhou.
Dargan ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois pegou sua faca.
E começou a limpar o cervo.
Kael bateu palmas lentamente.
— Isso eu preciso assistir.
Góvia já estava preparando o fogo.
E pela primeira vez desde que acordara naquele corpo…
A vida naquela caverna começava a parecer menos solitária.
Mesmo que fosse rodeada por um tigre rabugento…
E um lobo que falava demais.
Mas, enquanto mexia as ervas na panela…
Góvia sentiu novamente aquele calor suave dentro de seu corpo.
Algo estava mudando.
Muito devagar.
Mas estava.
E essa era apenas a primeira etapa.