Quando o controlo parte

1421 Palavras
📖 Entre Espinhos e Veneno Capítulo 19 — Quando o Controlo Parte O ecrã no fundo da sala continuava a brilhar com força fria, a imagem de Gabriel nítida e imóvel, como se ele próprio estivesse ali a observar cada reação de todos. A mensagem gravada permanecia visível, escrita em letras escuras que pareciam queimar no ar: “Escolham: guerra um contra o outro… ou guerra contra a verdade.” As palavras repetiam‑se na cabeça de Isabela uma e outra vez, cada sílaba como uma agulha afiada a perfurar‑lhe o pensamento. Sentia‑lhes o sabor amargo na boca, o peso no peito, a vergonha de ter andado a ser guiado, movido, usado como peça de xadrez sem nunca ter percebido. E então… alguma coisa dentro dela partiu de vez. Não foi uma mudança lenta, nem uma raiva que vai crescendo pouco a pouco. Foi súbito, brusco, absoluto — como uma corda que estica até ao limite e se rompe de repente. — Chega. A voz dela saiu baixa, quase um sussurro, mas carregada de uma ameaça tão forte que fez até o ar da sala parecer ficar mais pesado. Os olhos brilharam de uma forma que ninguém ali jamais vira. No instante seguinte, virou‑se de repente para a grande mesa central de reuniões. O primeiro soco bateu com toda a força do seu corpo no tampo grosso de metal. O impacto foi tão forte que toda a estrutura rangeu e estremeceu, fazendo canetas, papéis e copos saltarem e caírem ao chão. Ela não parou. Levantou o punho e bateu outra vez. PÁ. O som metálico e seco ecoou pelas paredes vazias. Um canto da mesa cedeu, dobrando‑se para baixo sob a violência dos golpes. Isabela rodou o corpo e desferiu um pontapé potente contra a perna de suporte; a estrutura inteira desequilibrou‑se e caiu de lado, fazendo voar mapas, relatórios, fotografias e todos os documentos que ali estavam acumulados há meses. — Tudo… não passa de uma grande manipulação… — murmurou entre dentes cerrados, a raiva a crescer‑lhe na garganta como fogo. Outro pontapé, mais forte ainda, lançou uma cadeira pesada de madeira e ferro contra a parede mais próxima, onde bateu e partiu em pedaços. PÁ! Deu um passo em frente, agarrou o monitor grande que ainda brilhava sobre uma mesa menor, arrancou‑o da base com um movimento brusco e atirou‑o com força contra o chão de cimento. O vidro estilhaçou‑se em mil pedaços, o som agudo e cortante espalhando‑se por todo o lado. Sofia recuou um passo instintivamente, as mãos juntas à frente do peito, sem sequer tentar aproximar‑se ou dizer uma palavra para a acalmar. Conhecia‑a bem demais para saber que era inútil — tentar travar Isabela naquele estado seria como tentar segurar uma tempestade com as mãos nuas. Nada a iria parar. — Pensam que são espertos… pensam que podem brincar com as nossas vidas, com o nosso passado, com tudo o que construímos… — respirava agora de forma ofegante, o peito a subir e descer com força desmedida, os olhos claros, frios e quase vazios de qualquer outra coisa que não fosse fúria pura. E então explodiu por completo. Avançou sobre o resto da mobília restante, derrubando, partindo, lançando tudo para os lados com golpes e pontapés certeiros e violentos. Estantes pequenas caíram, pastas grossas rasgaram‑se ao serem atiradas, folhas de papel espalharam‑se pelo chão como folhas secas ao vento. Pisou sobre elas, sobre cacos, sobre tudo o que estivesse ao alcance. Mas não era apenas destruição cega, sem sentido. Havia método, energia concentrada, como se cada golpe fosse uma resposta silenciosa a cada mentira, a cada segredo, a cada fio que alguém puxara nas suas vidas. PÁ. — Gabriel… o amigo que julgámos morto. PÁ. — Os Corvos Vermelhos… que nunca passaram de uma ilusão. PÁ. — Anos de ódio, de distância, de luta… tudo planeado do princípio ao fim. Cada palavra que passava pela sua mente transformava‑se de imediato em movimento, em força, em impacto contra o que estava à sua frente. Até que parou de repente, de pé no meio da confusão que criara, rodeada de destroços e silêncio. Respirava profundamente, o ar a entrar e a sair‑lhe rápido e forte pelos pulmões, o coração a bater‑lhe tão forte que ouvia o som nos ouvidos. O cabelo solto, a respiração quente, as mãos ligeiramente tremidas mas ainda fechadas em punhos duros. A sala estava irreconhecível — tudo caído, partido, espalhado. E no entanto, ali de pé no centro de tudo, ela continuava a ter uma postura firme, dominadora, como se ainda segurasse as rédeas de si mesma com uma força de v*****e inquebrável. E essa era a parte mais assustadora de todas: mesmo quando parecia ter perdido tudo, ela ainda mandava em si. Sofia observava‑a em silêncio absoluto, atenta a cada detalhe, e um pensamento atravessou‑lhe a mente com uma calma estranha, quase absurda perante o caos: Se um dia alguém conseguir chegar ao coração desta mulher, se alguém a fizer sua e a levar a gerar uma vida dentro de si… nem mesmo uma gravidez, nem a fragilidade de um corpo a mudar, nem nada neste mundo vai conseguir fazê‑la recuar ou parar. Ela é o próprio Mateus, mas feita de uma forma ainda mais intensa, mais dura, mais afiada. O mesmo fogo, a mesma força, a mesma capacidade de destruir ou construir impérios — só que em forma de mulher. Do outro lado da sala, afastado, encostado tranquilamente a uma parede ainda intacta, Mateus também não fizera qualquer movimento para intervir, para falar ou para se aproximar. Apenas observava tudo com aquela calma habitual, os olhos atentos e profundos, como se cada movimento dela lhe fosse familiar, como se sentisse exatamente o que se passava dentro dela, como se ele próprio já tivesse sentido e libertado aquela mesma fúria muitas vezes. Havia compreensão no seu olhar — talvez até algo mais, algo que não dizia mas que sentia. Isabela passou ambas as mãos pelo cabelo, puxando‑o para trás, limpou o suor que lhe escorria pela testa e encheu os pulmões de ar devagar, deixando que a calma voltasse pouco a pouco — uma calma agora mais dura, mais fria, mais perigosa que qualquer explosão. — Isto… o que vimos, o que ouvimos… não foi um aviso — disse ela, a voz firme, estável e cortante, virando‑se lentamente para os restantes. — Foi uma declaração de guerra, feita por quem pensa estar acima de todos nós. Os seus olhos já não tinham o fogo descontrolado de há pouco; estavam mais frios, mais afiados, como lâminas recém‑afiadas. — Eles querem guerra, querem ver‑nos destruir‑nos uns aos outros ou lutar contra sombras… pois muito bem. Então vão ter guerra. Mas não a que eles planeiam. Vão ter a nossa. Ninguém falou. O silêncio pesava ainda mais agora. Sofia soltou um suspiro baixo e longo, abanando a cabeça devagar entre o espanto e a resignação. — Pois… que ótima notícia. Quer dizer que estamos oficialmente completamente ferrados, não é? Mateus deixou escapar um sorriso pequeno, seco, vazio de alegria, cheio de uma perigosa determinação. — Isso não é novidade para nós. Estamos assim há muito tempo — murmurou ele, sem tirar os olhos de Isabela. Ela olhou para ele nesse instante, apenas um olhar rápido, direto e penetrante. E naquele breve encontro de olhares, não havia mais raiva antiga, nem dúvidas, nem ódio. Havia algo muito mais claro, muito mais forte: uma decisão tomada em conjunto, sem palavras, perigosa e definitiva. — E a partir de agora… — continuou Isabela, erguendo o queixo com altivez e força — ninguém mexe neste jogo, nas nossas vidas ou nas pessoas que nos são importantes, sem ter que pagar um preço muito alto por isso. E eu garanto que esse preço vai ser tudo o que eles têm. E naquela noite, naquela sala destruída e silenciosa, todos os que ali estavam perceberam de uma vez por todas: o que tinha começado como uma ameaça, como um engano, como uma armadilha… já não era uma possibilidade ou um perigo distante. A guerra era inevitável. E quando chegasse, ia ser muito pior, muito mais violenta e muito mais destrutiva do que quem a criara alguma vez imaginara. Continua... 🖤⚔️
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR