capitulo 19 continuação

1908 Palavras
O PESO DA COROA DE GELO Diego soltou uma lufada de fumaça azulada, o olhar perdendo o brilho de deboche e tornando-se algo mais denso, quase sombrio. Ele me encarou por cima da borda da taça, o gelo estalando no silêncio tenso que se formou no nosso canto isolado da L’Empire. As mulheres ao redor dele tentaram se aproximar, buscando o calor do dinheiro e do prestígio, mas ele deu um corte seco com a mão, dispensando-as com uma rispidez que ele raramente demonstrava. — Daniel, papo reto agora, de homem para homem — Diego começou, a voz perdendo o tom de cinismo. — Eu quero morrer sendo seu amigo, cara. De verdade. Ter você como inimigo é assinar o próprio atestado de óbito financeiro, social e mental. Mas, porra... sério? O que você está fazendo com essa garota... eu acho que cruzou a linha, irmão. E olha que eu sou um desgraçado que vende a própria mãe se o lucro for acima de vinte por cento. Eu não pisquei. Não permiti que um único músculo do meu rosto traísse o que eu sentia. Mantive o olhar fixo nele, sentindo o peso do meu relógio de ouro no pulso como se fosse uma algema de poder inquebrável. — Certo, Diego? — repeti, a palavra saindo da minha boca como veneno destilado. — Desde quando você se tornou o bastião da moralidade e dos bons costumes desta cidade imunda? A gente não constrói impérios de bilhões de dólares sendo "certos" ou "justos". A gente constrói sendo eficazes, sendo cirúrgicos e sendo os únicos que não tremem na hora de puxar o gatilho da execução. — Eu sei, eu sei como o jogo funciona! — ele gesticulou, exasperado, a voz subindo de tom. — Mas você está caçando a menina como se ela fosse um alvo militar em uma zona de guerra! Tirar a bolsa de estudos de uma universitária que m*l tem o que comer? Comprar as dívidas de um velho bêbado para expulsar a família de casa? Você está criando um cenário de terra arrasada em volta da Mariana. Isso não é uma conquista, Daniel. Isso é um cerco medieval. É tortura psicológica deliberada antes de apresentar a "salvação". — É a única forma de garantir o "sim" absoluto, Diego — respondi, minha voz soando gélida e definitiva. — O orgulho daquela garota é o maior obstáculo que eu já encontrei. Eu vi o jeito que ela me olhou naquele corredor. Ela não me viu como um salvador, ela me viu como um desafio. Mariana Lacerda prefere sangrar até a última gota do que pedir ajuda espontaneamente. Se eu não remover todas — absolutamente todas — as opções dela, ela vai lutar até o fim, e eu não tenho o luxo de perder tempo com batalhas de atrito. O conselho me deu noventa dias. Eu pretendo usar cada um deles para garantir que ela use a minha aliança como se fosse a sua única chance de sobrevivência. Diego balançou a cabeça, servindo-se de mais tequila, mas notei que as mãos dele não estavam tão firmes quanto o habitual. — Você está subestimando o ódio que ela vai sentir quando descobrir que o arquiteto da ruína dela foi o mesmo homem que estendeu a mão para "salvá-la", Daniel. Ninguém ama o carcereiro, mesmo que a cela seja revestida de seda e ouro. Você quer uma esposa ou quer uma bomba-reloógio dentro da sua cobertura, dormindo ao seu lado todas as noites? — Eu quero um contrato cumprido e uma imagem de estabilidade para os alemães da Lufthansa, Diego — levantei-me em um movimento fluido, ajustando as abotoaduras de prata. — O amor é uma variável sentimental que eu não incluí na minha planilha de riscos. Ela vai me odiar? Provavelmente. Mas ela vai estar segura. Ela vai ter o sobrenome Bittencourt, que abre portas que ela nem sabe que existem. Ela vai ter a faculdade paga e a mãe dela não vai mais ser saco de pancadas de um viciado de merda como o Francisco. O preço disso é a autonomia dela. É uma troca justa no meu mundo. No mercado, nada sai de graça. — Seu mundo é um lugar frio pra c*****o, irmão — Diego murmurou, olhando para o salão da boate onde a vida parecia efêmera, barata e, de certa forma, muito mais feliz que a nossa. Ele largou a taça de cristal na mesa com um baque seco, um som final. Diego se inclinou para frente, invadindo o meu espaço pessoal, os olhos fixos nos meus, tentando perfurar a camada de permafrost que eu levava trinta e quatro anos para polir. — Daniel, olha pra mim e me ouve de verdade — ele disse, a voz agora baixa, rouca, despida de qualquer rastro de deboche. — Você não pode ser assim tão amargo. Você está se transformando em algo que nem o conselho da AeroSky conseguiria gerenciar. Você se fechou pro mundo, cara. Trancou a porta da sua humanidade e jogou a chave no fundo do oceano naquele maldito dia na Rodovia dos Imigrantes. Eu travei o maxilar com tanta força que senti uma pontada na têmpora. Eu sabia exatamente onde ele queria chegar. Aquele era o único território onde eu não permitia incursões. Nem de aliados, nem de amigos. — Não ouse entrar nesse assunto, Diego — avisei, o tom de voz descendo para um registro gutural, uma ameaça que faria qualquer outro homem recuar. — Vou entrar sim, p***a! Alguém tem que falar a verdade pra você antes que você se torne um monstro completo! — ele rebateu, batendo o punho na mesa de mármore. — Você se fechou para o mundo quando os seus pais morreram naquele acidente. Você era um moleque de dezesseis anos, Daniel! Viu o império do seu pai ser retalhado por advogados urubus e tios gananciosos enquanto os corpos deles ainda estavam esfriando no necrotério. Você aprendeu ali, da pior forma possível, que sentir é fraqueza e que amar é dar ao mundo uma faca afiada para ele enfiar nas suas costas quando você menos esperar. Mas a culpa não é sua. O som da L’Empire pareceu sofrer um colapso. O grave que fazia o chão vibrar tornou-se um zumbido distante e incômodo. Na minha mente, o cheiro de álcool caro e perfume de grife foi substituído instantaneamente pelo cheiro de asfalto molhado, óleo diesel e metal retorcido. O som da chuva torrencial batendo no teto solar da limusine enquanto eu, aos dezesseis anos, via os faróis do caminhão vindo na contramão em uma velocidade que desafiava a física. — A culpa não é sua pelo que aconteceu com eles — Diego continuou, a voz agora mais suave, mas ainda firme, implacável na sua tentativa de me alcançar. — Você sobreviveu fisicamente, mas decidiu que nunca mais seria a vítima de nada nem de ninguém. Só que agora, para se proteger, você está virando o vilão da história de uma garota inocente. Você está destruindo a Mariana Lacerda apenas para construir um muro mais alto em volta de si mesmo. Isso não é estratégia de negócios, Daniel. É medo. Medo puro travestido de poder executivo. Levantei-me num movimento brusco, a cadeira de couro rangendo sob o meu peso como um grito de protesto. O tédio tinha evaporado, substituído por uma fúria fria e cortante que fazia as pontas dos meus dedos formigarem. — Você não sabe do que está falando — cuspi as palavras, cada sílaba saindo como um estilhaço de vidro temperado. — O que aconteceu com os meus pais me ensinou a única verdade absoluta que rege este planeta: ou você é o dono da coleira, ou você é quem usa ela para ser arrastado. Eu não vou ser o órfão desamparado de novo. Eu não vou ser o garoto que chora enquanto estranhos dividem o que é seu por direito. Nunca mais. — E por isso vai fazer dela uma órfã de sonhos e de dignidade? — Diego levantou-se também, ficando cara a cara comigo, as pupilas dilatadas pelo desafio. — Você está usando a Mariana Lacerda como um escudo humano contra o seu próprio passado, Daniel. Você quer uma esposa protocolar porque tem pavor — pavor real — de que alguém entre de verdade nessa sua cobertura blindada e veja que o "grande Bittencourt" ainda é aquele garoto assustado no banco de trás do carro. — EU QUERO O CONTROLE, DIEGO! — rugi, a voz saindo por entre os dentes cerrados, atraindo os olhares assustados dos seguranças e de quem estava na pista de dança abaixo. — O controle é a única coisa que não te trai. O controle não morre em uma curva de estrada numa noite de chuva. O controle não te deixa sozinho em um enterro sob os olhares de abutres fingindo pesar. Respirei fundo, forçando a máscara de frieza a voltar ao lugar, sentindo o suor frio na nuca. Ajustei o paletó, sentindo o corte impecável do tecido, a única coisa que me mantinha minimamente estruturado. — A Mariana Lacerda é um ativo estratégico — eu disse, a voz voltando ao tom metálico, monótono e autoritário de sempre. — Ela entra com a imagem de pureza e estabilidade, eu entro com o resgate financeiro e a proteção. No fim do dia, é um balanço positivo para ambos. E se eu sou amargo, Diego, é porque o açúcar e a compaixão nunca construíram um arranha-céu de sessenta andares nem compraram uma companhia aérea. Dei as costas para ele sem esperar resposta. Caminhei pelo camarote, sentindo o peso do meu sobrenome como se fosse uma coroa de espinhos de platina. A menção aos meus pais tinha aberto uma fissura na minha armadura que eu jurava ter cauterizado com bilhões de dólares e vitórias judiciais implacáveis. — Daniel! — Diego gritou atrás de mim, a voz carregada de uma urgência que eu decidi ignorar. Parei na porta de saída do camarote, mas não me virei. — O Rocha vai me entregar os relatórios detalhados em duas horas. Avise a ele que eu quero que ele comece a monitorar a casa dos Lacerda pessoalmente. Se o Francisco tentar fugir, se ele tentar penhorar o que não tem ou se a garota tentar alguma loucura de última hora... eu quero saber antes que o pensamento atravesse a mente deles. — Você vai acabar sozinho, Daniel — a voz do Diego veio carregada de uma tristeza profunda, uma nota de lamento que eu não podia me permitir processar. — No topo do seu império de vidro, mas amargamente sozinho. — Eu já estou sozinho desde os dezesseis anos, Diego — respondi, voltando a caminhar com passos firmes. — Pelo menos agora, eu sou o dono do deserto. Saí da L’Empire e o ar frio e úmido da madrugada de São Paulo me atingiu como um soco no estômago. Entrei no carro blindado, o motorista fechou a porta com um estalo seco de vácuo, e o silêncio absoluto voltou a me envolver. Olhei para o reflexo do meu rosto no vidro escurecido. Eu não via o CEO de sucesso que o mundo invejava. Eu via o garoto que aprendeu, sob o som de metal retorcendo, que o mundo é um contrato de adesão onde as letras miúdas sempre dizem que você vai perder tudo o que ama. Mariana Lacerda seria o meu contrato mais complexo. E eu não aceitava nada menos que a rendição total dos termos.
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