Capitulo 17 Arlete

1419 Palavras
O ECO DA DOR NO VAZIO NARRADO POR: ARLETE LACERDA O som da porta batendo foi como um tiro de misericórdia no silêncio que ficou. A Mariana saiu, o ódio carregado nos ombros, e eu fiquei ali, jogada no chão frio daquela cozinha que já viu mais sangue meu do que alegria. O Francisco foi embora levar o resto da alma dele pro boteco, e eu fiquei com o gosto de ferro na boca e o latejar constante na têmpora, um tambor rítmico que me lembrava que eu ainda estava viva. Infelizmente. Tentei me mexer e um grito mudo morreu na minha garganta. Minha costela parecia um graveto seco prestes a perfurar o pulmão. Arrastando o corpo, me apoiei no pé da mesa a mesma mesa onde um dia a gente tomou café rindo, antes das dívidas, antes da cachaça virar o único deus dessa casa. Olhei para o chão e vi uma poça pequena do meu próprio sangue. Vermelho escuro. Grosso. Parecia uma mancha de pecado num lugar que devia ser sagrado. — Por que você não foi, Arlete? — sussurrei para as paredes descascadas, a voz saindo como um chiado de rádio velho. — Por que você não seguiu os passos dela? Eu vi o rosto da Mariana antes dela sair. Vi a decepção lavando o rosto dela, uma decepção mais dolorosa que qualquer soco do Francisco. Ela me olha e não vê mais a mãe que a protegia do bicho-papão; ela vê uma mulher covarde que se apaixonou pelo próprio carrasco e agora cultiva os hematomas como se fossem flores de um jardim morto. Dói. Dói ver que a minha filha, a minha joia, está perdendo o brilho por causa da minha sombra. Eu vi os pulsos dela hoje. Eu vi as marcas roxas, circulares, o rastro de um aço que não foi o Francisco quem colocou. Ela está sendo quebrada lá fora porque eu não tive coragem de quebrar o ciclo aqui dentro. Eu passei vinte e um anos acreditando na mentira da "próxima vez". Na próxima vez ele não bebe. Na próxima vez ele ganha no jogo. Na próxima vez ele volta a ser o homem que me deu flores no primeiro encontro. Mas a "próxima vez" sempre chega com o punho fechado e o cheiro de cana. Eu limpei o sangue do rosto com o pano de prato encardido, sentindo a pele arder. Eu sou uma mentirosa. Minto pro vizinho que pergunta do roxo, minto pro médico do postinho que diz que eu "caí da escada" pela décima vez no ano, e minto pra mim mesma toda noite quando deito naquela cama de casal que mais parece uma mesa de tortura. A Mariana acha que pode me salvar com as leis dela. m*l sabe ela que não existe lei que cure um coração que aprendeu a bater no ritmo do medo. Eu olho para os livros dela espalhados e sinto uma inveja que me envergonha. Ela tem palavras. Ela tem argumentos. Eu só tenho silêncio e preces que Deus parece não querer ouvir. O Francisco disse que ela é igual a mim. E isso me matou mais do que o soco na têmpora. Se ela for igual a mim, ela está condenada. Se ela tiver esse mermo defeito de carregar o mundo dos outros nas costas, ela vai ser esmagada. Eu rezo, rezo com o que sobrou da minha fé, para que ela seja brava, para que ela seja má, para que ela seja fria. Tudo o que eu não consegui ser. Eu me levantei devagar, segurando o choro para não arder os cortes. Fui até a janela e vi o vulto dela sumindo no beco. Ela ia atrás da Bia. Ia atrás de um jeito de nos sustentar. Minha menina, que devia estar preocupada com prova e com namorado, está preocupada em como não deixar a mãe ser enterrada como indigente emocional. — Me perdoa, Mari... — murmurei, encostando a testa no vidro gelado. — Me perdoa por te obrigar a ser adulta antes do tempo. Me perdoa por te mostrar que o amor pode ser uma prisão. Senti um arrepio. A noite estava caindo e o Francisco ia voltar. Ele sempre volta. E quando ele voltar, ele vai querer saber da bolsa, vai querer saber do dinheiro. E eu vou estar aqui. Vou receber o primeiro golpe, vou baixar a cabeça, vou pedir desculpas. Vou ser o para-raios dele de novo, só para que, quando ela chegar, a fúria dele já tenha se transformado em sono pesado. A gente se anula tanto por causa de um homem que acaba virando nada. Eu sou um nada que cozinha, um nada que lava roupa, um nada que sangra sem reclamar. Mas enquanto a Mariana estiver respirando e sonhando, mermo que o sonho dela esteja ferido agora, eu vou continuar aqui. Vou ser o escudo de carne, até que não sobre mais nada de mim para ele bater. Porque a única coisa que me mantém viva agora não é o amor pelo Francisco. É a esperança de que a Mariana seja a mulher que eu não tive coragem de ser. Que ela saia desse asfalto maldito e nunca mais precise cobrir os pulsos para esconder a marca de homem nenhum. Eu me arrastei até a pia, segurando o ar para não sentir o estalo da costela, e joguei um pouco de água gelada no rosto. A água misturada com o sangue descia rala, sumindo pelo ralo entupido, exatamente como a minha vida sumiu nesse buraco. Eu olhei para o portão lá fora, o caminho livre, a rua escura chamando. Eu poderia ir embora. Eu poderia simplesmente abrir aquela porta, caminhar sem rumo e nunca mais olhar para trás. Mariana me deu a chance, ela me estendeu a mão, ela implorou para eu ser livre. Mas os meus pais... ah, eles me ensinaram direitinho como ser uma "mulher de verdade". Lembro da minha mãe, com as mãos calejadas de tanto esfregar chão, me dizendo que o casamento era uma cruz que a gente carregava com orgulho. "Arlete, filha, homem é bicho difícil, mas é o nosso mastro. Se ele balança, a gente segura. Se ele bate, a gente oferece o silêncio. Foi assim com a sua avó, foi assim comigo, e vai ser assim com você. O altar não é lugar de festa, é lugar de sacrifício." Meu pai, então, nem se fala. Quando o Francisco veio pedir minha mão, com aquele sorriso que ainda não tinha o amargo da cachaça, meu pai me puxou de canto: "Ele é homem trabalhador, Arlete. Se um dia ele errar a mão, você cala. Mulher que fala muito atrai a própria desgraça. Honra o teto que ele te der, mesmo que o teto caia na sua cabeça." Eu fui criada para ser alicerce de castelo em ruínas. Me ensinaram que a minha dignidade valia menos que a paz de um homem violento. Me ensinaram que o "até que a morte nos separe" era uma profecia, não um juramento. E agora, como é que eu vou desaprender tudo isso com cinquenta anos nas costas? Como é que eu vou dizer para a Mariana que a liberdade dela me assusta mais do que o soco do Francisco? Eu me apoiei no balcão, sentindo o corpo todo tremer. Eu sou o resultado de gerações de mulheres que apanharam em silêncio para que a família não "passasse vergonha". Eu sou o fruto de um ensinamento podre que diz que o amor é suportar o insuportável. Minha mente entende a Mariana, mas o meu sangue... o meu sangue ainda obedece às vozes dos mortos que me disseram para ficar. — Eles me ensinaram a ser sombra, Mari — sussurrei para o vazio da cozinha. — Eles me ensinaram que o meu lugar é aqui, limpando o sangue do chão e esperando o próximo Temporal. Eles me ensinaram a morrer aos poucos para que o Francisco pudesse se sentir vivo. Olhei para a aliança apertada no meu dedo inchado. O ouro já estava gasto, sem brilho, exatamente como eu. Aquela aliança é a minha algema invisível. Eu não vou embora porque eu não sei quem eu sou fora desta casa. Eu não sei quem é a Arlete que não tem um olho roxo para esconder ou um jantar para servir com medo. Eu tenho pavor do mundo lá fora, porque lá fora eu teria que ser responsável pela minha própria felicidade, e eu nunca fui ensinada a ser feliz. Só fui ensinada a aguentar.
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