capitulo 16 continuação

2010 Palavras
— Chega, mãe! — o grito saiu rasgado, um som gutural que parecia arrancar as paredes da minha garganta, misturado com um soluço convulsivo que eu não conseguia mais asfixiar. — Olha para o seu rosto, pelo amor de Deus! Olha para esse braço! Não tá tudo bem, Arlete! Nunca esteve bem, p***a! A gente tem que sair desse inferno agora, a gente tem que sumir do mapa antes que ele volte com mais cachaça no sangue e termine de estraçalhar o que sobrou de você! Eu tentava estancar o sangue que brotava do supercílio dela, um vermelho vivo que contrastava com a palidez cadavérica da pele dela, usando a manga do meu casaco de lã. Minhas mãos tremiam tanto que eu parecia estar tendo uma convulsão; eu não conseguia precisão, só conseguia borrar o sangue, transformando o rosto da minha mãe em uma pintura de horror. Quando ela tentou segurar meus pulsos para me acalmar, o contato dos dedos dela com as feridas em carne viva deixadas pelas algemas do Ricardo me fez soltar um ganido de dor, um choque elétrico que percorreu minha espinha. Mas eu não recuei. A dor física era um detalhe insignificante perto do vácuo absoluto que eu via no olhar dela um olhar de quem já tinha aceitado a própria sentença de morte. — Para onde, Mari? — ela sussurrou, a voz saindo borbulhante, o som do ar passando pelo sangue que inundava a boca dela. — A gente não tem para onde ir, minha filha... Ele é o meu marido, essa casa é tudo o que a gente tem no mundo... — CASA?! — eu rebati, a voz subindo até atingir um tom de histeria que fez meus próprios ouvidos zunirem. — Isso aqui não é uma casa, mãe! É um matadouro! É um cativeiro! Você quer morrer nas mãos dele? É esse o plano? Esperar o próximo soco ser o último? Porque é exatamente para o IML que a gente tá caminhando se ficarmos aqui! Eu me levantei num solavanco, puxando-a pelos ombros com uma força que eu não sabia que possuía. Mas a Arlete parecia feita de chumbo, uma massa inerte pesada por décadas de submissão sistemática, por uma lavagem cerebral que a convenceu de que ela merecia cada golpe. — EU NÃO AGUENTO MAIS! — berrei, esmurrando meu próprio peito, sentindo o ar faltar. — Eu não aguento mais ver você ser moída dia após dia e ficar de mãos atadas porque você protege o monstro que te devora! Você não me deixa denunciar, você não me deixa chamar o 190, você limpa o sangue dele e pede desculpas por ter apanhado! Eu estudo a p***a dessa lei, eu vejo o caminho jurídico para colocar esse verme apodrecendo numa cela, e você me impede! Você está me obrigando a ser a plateia do seu próprio feminicídio! As lágrimas dela, pesadas e carregadas de um cansaço secular, se misturavam ao sangue que escorria pelo pescoço, manchando a gola do vestido gasto. — Ele é seu pai, Mariana... se a polícia pegar ele, vai acabar o que restou da vida dele... ele não tem ninguém além de nós... — QUE VIDA, MÃE?! O Francisco morreu faz tempo! O que sobrou foi esse dejeto alcoólatra que usa a nossa dignidade para limpar o chão! — Eu me ajoelhei de novo, colando minha testa na dela, sentindo o calor febril da pele machucada. — Por favor... eu tô implorando... se você não quer ir por você, vai por mim. Eu tô morrendo aqui dentro. Cada vez que o cinto dele estala na sua pele, ele arranca um pedaço da minha alma. Eu perdi minha bolsa, eu tô sendo caçada por um policial psicopata e agora o meu próprio pai quer me leiloar para pagar dívida de mesa! Se a gente ficar, ele vai entregar a gente em uma bandeja de prata para o Bittencourt ou para qualquer outro credor que bater nessa porta com sede de sangue! Arlete soltou um lamento longo, um uivo de dor que parecia vir das entranhas, e finalmente desabou no meu pescoço. Senti o corpo dela amolecer, a resistência quebrando como cristal sob o peso esmagador da realidade. — Eu tenho medo, Mari... tanto medo que eu não consigo nem respirar. — Eu também tenho, mãe. Eu tô apavorada. Mas eu tenho mais medo de ter que escolher a sua roupa pro caixão — respondi, limpando meu rosto com as costas da mão, sentindo o gosto ferroso e amargo do meu próprio lábio cortado. — Pega o essencial. Só o que couber em uma bolsa. A gente vai para a casa da Bia. Ela conseguiu um esconderijo, ninguém sabe o endereço. A gente sai pelos fundos agora, enquanto o Francisco está lá no bar bebendo o que sobrou da nossa alma. — Filha, por favor... só mais uma chance. — A voz da minha mãe saiu como um sussurro esfarelado, carregado de uma esperança doentia que me dava náuseas. — Se ele não melhorar dessa vez... se ele não mudar depois dessa crise... a gente vai. Eu juro que eu vou. Mas não me tira daqui agora, não me faz deixar tudo o que eu construí para trás... Eu olhei para ela e senti uma vertigem violenta. A têmpora dela estava inchando, um calombo roxo e disforme subindo pela pele, e ela ainda estava ali, negociando os termos da própria tortura. O amor dela pelo Francisco era uma doença autoimune, e eu estava assistindo a metástase levar o que restava da mulher que um dia me protegeu do escuro. — "Mudar", mãe? — Eu soltei uma risada que foi mais um engasgo de dor, sentindo o corte no lábio abrir e o sangue escorrer. — O Francisco não muda. Ele só apodrece em camadas. E ele vai arrastar você para o fundo da cova junto com ele se você continuar dando essas "chances". Você está pedindo para eu esperar o quê? O laudo da necrópsia? Arlete me segurou pelos pulsos com as mãos trêmulas, e a dor das marcas das algemas do Ricardo queimou sob o casaco como se o metal ainda estivesse incandescente. Ela não soltou. Ela me olhou com um desespero infantil, os olhos nublados pela dor física e pela confusão mental. — E agora, Mariana? O que vai ser de nós? — ela perguntou, a voz falhando em cada sílaba. — Agora que você perdeu sua bolsa... o que você vai fazer da vida? Tudo o que você suou, as noites sem dormir, os livros que você devorou... tudo jogado no lixo por causa desse inferno. Como a gente vai comer? Como vamos pagar esse boleto que o diretor mandou? Eu me afastei, sentindo o peso daquela pergunta esmagar minhas vértebras. A faculdade de Direito, os códigos pesados, o sonho de ser "Doutora"... tudo parecia uma piada de péssimo gosto, um delírio de grandeza de uma menina pobre que achou que podia vencer o sistema. O Direito não me protegeu da agressividade do Ricardo, não protegeu minha mãe do soco do Francisco e não ia colocar comida no prato amanhã. — Eu vou arrumar um emprego, mãe — respondi, a voz saindo gélida, meu coração se transformando em uma pedra bruta. — Qualquer um. Faxina, caixa de mercado, carga e descarga no porto... eu não ligo para o meu ego. Eu vou arrumar um jeito de sustentar você sem depender de um centavo daquele lixo que se diz meu pai. — Mas e o seu sonho, Mari? Ser advogada... você nasceu para isso, meu anjo. Falta tão pouco! Você vai abrir mão de tudo? — Sonho é artigo de luxo para quem tem a barriga cheia e paz dentro de casa, mãe. — Eu peguei um pano limpo na gaveta e comecei a limpar o sangue do rosto dela com uma firmeza que beirava a brutalidade, porque eu não suportava mais ver aquela fragilidade. — Eu não tenho mais o direito de sonhar. Eu só tenho o dever de sobreviver. E se para manter você viva eu tiver que enterrar a Mariana que queria ser advogada, eu enterro agora mesmo. Eu prefiro ser uma faxineira com a mãe respirando do que uma advogada que teve que identificar o corpo da mãe no necrotério central. A Arlete baixou a cabeça, os soluços sacudindo os ombros magros, o pranto dela molhando o chão da cozinha. O silêncio daquela casa era cortante, interrompido apenas pelo tique-taque do relógio de parede que parecia uma contagem regressiva para a próxima tragédia. — Eu vou sair, mãe — falei, pegando minha mochila e socando o Vade Mecum lá dentro, não por estudo, mas porque o peso do livro era a única âncora que eu ainda reconhecia. — Vou até a casa da Bia, ou vou atrás de qualquer bico que me pague em dinheiro. Tranca tudo. Se ele chegar, não abre. Fica quieta. Saí pelos fundos, pulando o muro baixo que dava para o beco úmido, sentindo cada centímetro do meu corpo protestar. O asfalto parecia estar sugando o resto das minhas forças vitais, mas eu continuei andando, uma autômata movida a ódio e adrenalina. Meus pés, por instinto de quem buscava o infinito para não enlouquecer, me levaram para o único lugar onde o barulho do mundo parecia fazer sentido: a beira do mar. Caminhei pela areia fofa, sentindo o vento úmido e salgado açoitar meu rosto, limpando superficialmente o cheiro de uísque e tragédia que eu carregava nos poros. Sentei-me perto de uns barcos de pesca descascados, longe da vista dos poucos turistas. Ali, sob o céu que escurecia, eu era apenas mais um grão de areia na imensidão da desgraça. Fiquei observando o anoitecer cair como uma cortina pesada. O céu, que antes ardia em tons de laranja, agora desbotava para um roxo profundo, quase n***o, engolindo o horizonte. As ondas batiam contra os pilares do deque com uma violência ritmada, como se o oceano estivesse tentando cuspir toda a podridão humana de volta para a terra. — Por que isso está acontecendo comigo? — murmurei para o nada, as palavras sumindo no estrondo das ondas. O que eu fiz de tão errado para o universo me cobrar esse preço? Eu segui todas as regras. Eu estudei enquanto os outros dormiam. Eu aguentei as humilhações do Francisco em silêncio absoluto por anos, acreditando piamente que o diploma seria minha alforria. E agora? Agora eu tinha pulsos marcados por um policial psicopata, uma mãe destruída fisicamente, uma dívida milionária que eu não contraí e um futuro que evaporou em dezessete minutos de atraso. Parecia que quanto mais eu tentava nadar para a superfície, mais o lodo do fundo puxava meus calcanhares. Eu estava exausta de ser forte. Estava cansada de ser o escudo que recebia os golpes destinados a outros. — A justiça é cega, mas a vida... a vida é um sádico de primeira linha — sussurrei, sentindo uma lágrima solitária escorrer e queimar o corte aberto no meu lábio. Eu estava ali, desabada na areia, sentindo o peso de cada escolha errada do meu pai e de cada abuso de poder que eu sofri nas últimas vinte e quatro horas. O mundo era um tabuleiro viciado e eu tinha acabado de perder minha última peça. Eu não era mais uma estudante. Eu não era mais uma promessa. Eu era apenas o resultado de um sistema que tritura quem não tem sobrenome. — Ficar encarando o abismo por muito tempo não costuma trazer as respostas que você procura, Mariana. Na verdade, o abismo só devolve o olhar. O susto foi como uma descarga elétrica de alta voltagem. Levantei-me num salto, a areia voando, o coração batendo com tanta força que eu sentia as batidas na ponta dos dedos. Minha mão foi instintivamente para a mochila, pronta para usá-la como um escudo desesperado contra qualquer novo agressor. Parei. O ar congelou nos meus pulmões. A poucos metros de mim, encostado com uma elegância insultuosa em um dos pilares de madeira do deque, estava ele. O poste de terno da faculdade.
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