Atravessei o portão daquela faculdade me sentindo um cadáver ambulante, uma carcaça vazia que só se movia por puro reflexo muscular. O sol de São Paulo não estava apenas brilhando; o asfalto parecia estar derretendo sob os meus pés, liberando um vapor quente e tóxico que subia pelas minhas pernas, ou talvez fosse só a minha cabeça fritando com a imagem nítida do Francisco recebendo aquela notificação de suspensão de bolsa. Peguei o ônibus lotado, espremida entre pessoas que não faziam ideia de que o meu mundo tinha acabado de implodir, e cada sacolejada daquele latão velho era um soco direto no meu estômago. Eu olhava para os meus pulsos, escondidos obsessivamente pelas mangas longas do casaco no calor de trinta graus, e sentia o fantasma do metal frio do Ricardo me apertando, latejando co

