PONTO DE VISTA: MARIANA
Eu acompanhei a Bia até o apartamento onde ela estava ficando como quem escolta um ferido num campo de batalha. O trajeto foi um silêncio cortante, interrompido apenas pelo som dos nossos passos rápidos e o barulho dos carros ao longe.
Não era perto. Não era caminho. Não era, de forma alguma, confortável.
Era outro bairro, outra realidade. Ruas estreitas demais, daquelas que parecem se fechar sobre você, silenciosas de um jeito que incomoda. Os postes de luz piscavam com uma frequência doentia, como se estivessem cansados de iluminar os mesmos problemas alheios todas as noites. O prédio era uma relíquia decadente: pintura descascando em tiras, grades enferrujadas que rangiam com o vento e janelas fechadas cedo demais. Era o cenário perfeito para quem está tentando se apagar do mapa, sumir da própria vida.
— Você tem certeza que tá bem aqui? — perguntei, cruzando os braços e travando a mandíbula. Meus olhos escaneavam cada detalhe daquela rua, cada sombra, como se eu pudesse prever o perigo pela textura do reboco caído na calçada.
— Tô, Mari. É temporário — ela respondeu, remexendo na bolsa com dedos inquietos, as chaves tinindo num som nervoso.
Temporário.
Essa palavra maldita anda me perseguindo como uma sombra. Temporária a paz. Temporária a estabilidade. Temporária qualquer merda que minimamente pareça segura. Na vida real, o "temporário" é só o intervalo entre um soco e outro.
Ela abriu o portão de ferro, que deu um estalo seco, e me olhou por cima do ombro.
— E você? Vai ficar bem?
Eu dei aquele meio sorriso automático. O sorriso de máscara, o que eu uso para blindar os outros enquanto eu mesma estou desmoronando por dentro.
— Eu sempre fico, Bia. Sabe como é.
Mentira descarada. Uma mentira lavada. Mas ela já estava carregando o luto de um filho e o medo de um carrasco fardado; eu não ia jogar meu piano nas costas dela também. Esperei ela entrar, ouvi o trinco bater com aquele som metálico final e só então virei as costas.
O céu já tinha virado chumbo, aquele azul pesado de São Paulo que parece que vai desabar. Minha cabeça era uma panela de pressão esquecida no fogo: a prova perdida, o quase enquadro da polícia, o embate com o Daniel Bittencourt... e agora, a volta para o epicentro do meu caos.
Casa.
Essa palavra tem gosto de bile na minha boca. Peguei o ônibus e encostei a testa no vidro frio, sentindo a vibração do motor nos dentes. Fiquei ensaiando discursos. Versão resumida para não cansar. Versão filtrada para não assustar a Arlete. Versão blindada para não acender o estopim do Francisco. O problema é que, naquela casa, até o silêncio é inflamável.
Desci no meu ponto sentindo aquele aperto no estômago que não é medo é o modo de combate ativado. Antecipação de guerra. Quando virei a esquina e vi a luz da sala acesa, meu corpo inteiro entrou em alerta máximo. Luz acesa àquela hora na minha casa nunca é sinal de festa. Ou ele estava bebendo, ou estava discutindo, ou as duas coisas ao mesmo tempo.
Abri o portão e o ferro rangeu como um lamento. Entrei. Minha mãe apareceu no mesmo segundo, brotando do corredor como se estivesse colada atrás da parede me esperando.
— Mariana! — ela segurou meus braços com força, os olhos correndo pelo meu rosto com uma rapidez frenética, procurando qualquer marca, qualquer corte. — Por que você chegou essa hora? O que aconteceu, filha?
O cheiro da sala era aquela mistura nauseante de café requentado, álcool barato e uma tensão tão antiga que parecia fazer parte da mobília. Eu ainda estava organizando os pulmões para responder quando a voz dele cortou o ar, vinda do sofá.
— Deve ter ficado abrindo as perninhas pra algum homem na rua. É por isso que não chega no horário.
O silêncio que se seguiu não foi leve. Foi um silêncio de chumbo, daqueles que pesam nos ombros. Minha mãe virou na hora, o rosto pálido de vergonha e medo.
— Francisco! Cala a boca!
Eu não me abalei. Não ia dar esse gosto para ele. Tirei a mochila do ombro devagar, sem pressa, e a coloquei sobre a mesa. Olhei direto nos olhos dele, ignorando o bafo de cachaça que já dominava o ambiente.
— Se você vai inventar história para tentar me atingir, pai, pelo menos seja criativo. Esse roteiro de machão ofendido já está manjado demais.
Ele estava sentado, com o copo na mão e a camisa aberta, revelando o peito suado. Não estava no nível de cair, o que era pior. Significava que cada ofensa era milimetricamente calculada.
— Chega tarde. Não atende essa p***a de celular. Quer que eu pense o quê? Que está na igreja?
— Que eu estudo. Que eu tenho uma vida fora desse hospício. Que eu não sou uma propriedade sua que você controla por GPS — respondi, gélida.
Minha mãe apertou meus braços de novo, a voz trêmula.
— Filha, fala pra mim... o que houve na faculdade?
— Confusão, mãe. Só isso. Um imprevisto que me custou a prova de Civil.
— Confusão como? — ele rosnou, levantando do sofá com um movimento brusco.
— Nada que envolva "abrir perna" pra ninguém, pode ficar tranquilo. Minha dignidade não está à venda, ao contrário da sua.
Ele deu dois passos na minha direção, a face vermelha de uma fúria alcoólica. Eu não recuei um centímetro. Senti o cheiro do uísque barato emanando dele.
— Não fala comigo nesse tom, sua ingrata! — ele gritou.
— Então não fala de mim como se eu fosse lixo de calçada — retruquei, sustentando o olhar.
— Você conseguiu algum dinheiro? — ele disparou de repente, mudando o tom para uma ansiedade doentia.
Eu pisquei, atordoada pela mudança de assunto.
— O quê?
— Dinheiro, Mariana! Dinheiro! Eu tô precisando agora. Tô com dívida acumulada, os caras estão cobrando...
Aquilo quase me fez rir de nervoso. A audácia dele era uma entidade à parte.
— Eu sou estudante, Francisco. Bolsista. De onde você acha que eu vou tirar dinheiro?
— Você é inteligente. Sempre dá um jeito, sempre foi a "sabichona" da casa. Dá seus pulos!
Olha a lógica do cara. Olha a coragem de pedir isso depois de me chamar de p**a.
— Que tipo de "jeito" você acha que eu tenho que dar? — perguntei, a voz carregada de veneno.
Ele não respondeu com palavras. Mas o olhar dele... o olhar dele foi o pior golpe da noite. Foi uma resposta que doeu mais do que qualquer soco. Foi ali que eu entendi que, para ele, eu não era filha. Eu era uma ficha de aposta.
— Eu não vou pedir dinheiro para ninguém por causa dos seus erros — afirmei, sentindo meu estômago embrulhar.
— Você precisa arrumar! Eu sou seu pai, eu te dei a vida! — Ele perdeu o controle, a voz subindo até as vigas do telhado.
— E desde quando isso virou profissão? Filha sustentando vício de pai? Eu não sou seu banco, Francisco. Muito menos sua saída de emergência.
— Eu te criei! Eu te sustentei esse tempo todo pra você me olhar com esse nojo?!
— Você fez o mínimo, e ainda fez m*l feito! — gritei de volta. — Eu estudo pra não depender de ninguém. Nem de marido, nem de favor e, principalmente, nem de dívida suja que eu não fiz!
Ele apontou o dedo na minha cara, a mão tremendo.
— Você mora debaixo do meu teto!
— E ajudo com cada centavo que sobra do meu estágio e da bolsa! Mas eu não sou o Banco Central!
— Eu tô afundado, garota! Se eu cair, vocês caem junto!
— Afundado por quê? Em quê? Fala a verdade uma vez na vida!
— Não interessa! — ele berrou, virando o resto do copo.
— Interessa sim! Você está tentando jogar uma âncora no meu pescoço e diz que não interessa? Quanto é essa dívida?
Ele desviou o olhar para o canto escuro da sala. O silêncio dele foi a resposta mais barulhenta do mundo. Eu passei a mão no rosto, sentindo o cansaço de mil anos pesando nas minhas costas.
— Eu quase perdi meu futuro hoje por causa da tensão dessa casa — falei, a voz agora mais baixa, mas letal.
— E eu posso perder essa casa! — ele rebateu, tentando se vitimizar.
— E você acha que eu vou resolver isso como? Quer que eu faça o quê? Que eu me venda? É isso?
Ele respirava pesado, o peito subindo e descendo.
— Você tem amigos na faculdade... gente rica, gente com influência... conhece esse povo do terno. Dá um jeito, Mariana. Usa essa sua inteligência pra algo que preste além de ler livro velho.
Eu ri, uma risada amarga que pareceu um soluço.
— Você quer que eu me humilhe por você? Depois de tudo o que você faz com a minha mãe?
— Eu quero que você salve a sua família!
— Salvar a família é uma coisa. Ser usada como moeda de troca por um viciado é outra bem diferente.
Ele se aproximou mais, invadindo meu espaço, tentando me diminuir pela altura.
— Você me deve respeito. Eu sou a autoridade aqui.
— Respeito não é cheque em branco que você desconta quando faz merda — respondi, sem piscar. — A era do seu império de dor acabou.
Eu senti meus olhos arderem, mas engoli o choro. Lágrima na frente dele é combustível para agressão.
— Eu não tenho dinheiro — disse, pausadamente. — E mesmo que tivesse, não entregaria um centavo na sua mão sem saber quem é o dono da coleira que está te puxando.
Ele me encarou como se eu tivesse cometido um sacrilégio.
— Ingrata. m*l agradecida.
— Se você precisa de ajuda, Francisco, vira homem. Assume o que fez. Trabalha. Negocia. Mas para de tentar me vender como solução pros seus buracos.
Ele ficou parado, a respiração ruidosa, os olhos carregados de um ódio que eu já conhecia bem. Eu peguei minha mochila da mesa.
— Eu não sou sua saída financeira. Nunca fui e nunca vou ser.
Virei as costas e segui para a escada, sentindo os olhos dele queimando minhas costas. Subi os degraus de madeira sentindo cada articulação do meu corpo protestar. O corredor parecia mais estreito, as paredes pareciam estar se fechando. Quando cheguei no meio da escada, ouvi o som dos passos dela. Leves. Apressados. Aquele som de quem sempre pede licença para existir.
— Mariana… espera.
Eu parei no último degrau. Não virei de imediato. Respirei fundo, tentando colocar o coração de volta no ritmo certo. Se eu olhasse para a Arlete naquele segundo, eu ia desmoronar, e eu não podia me dar a esse luxo.
— Você tá mesmo bem? — a pergunta dela veio num sussurro, carregada de um cansaço que doía de ouvir.
Virei devagar. O rosto dela estava um mapa de sofrimento: olhos inchados, a pele sem viço, a expressão de quem vive em estado de sítio há décadas.
— Tô, mãe. Sobrevivi a mais um round.
Ela subiu o resto dos degraus e parou na minha frente, me obrigando a olhar para ela.
— Não faz isso comigo, filha.
— Isso o quê?
— Esse “tô bem” que é mentira. Eu conheço o seu olhar.
Eu encostei na parede fria do corredor, cruzando os braços como se estivesse tentando me manter inteira, impedindo que os pedaços caíssem no chão.
— Eu quase fui levada pra delegacia hoje por causa de um ex-marido louco da Bia. Enfrentei um cara que pode acabar com a minha bolsa só com um estalo de dedos. E chego aqui pra ser chamada de p**a pelo meu próprio pai. Como você quer que eu esteja?
Ela empalideceu. A mão dela subiu, trêmula, e tocou meu rosto. O toque era leve, frio.
— Por que você não ligou? Eu teria dado um jeito...
— Pra quê, mãe? Pra você ter um infarto de preocupação? Pro Francisco rir da minha cara e dizer que a culpa foi minha? Na nossa vida, a gente resolve as broncas sozinha ou elas nos engolem.
Ela abaixou a mão, derrotada. O silêncio entre nós era denso, cheio de coisas não ditas.
— Eu não sabia dessa dívida nesse nível — ela admitiu, a voz sumindo. — Ele me falou que tinha perdido um pouco... mas não que era esse absurdo.
— Quanto é, mãe? Me diz o número.
Ela hesitou. Olhou para o chão, para as próprias mãos calejadas.
— Mãe. Olha pra mim. Quanto?
— É alto, Mari. Alto o suficiente pra gente perder esse teto aqui.
Senti uma onda de náusea. O chão pareceu sumir por um segundo.
— Ele assinou o quê?
— Ele colocou a casa como garantia, filha. Fez um papel lá... disse que era a única saída pra não morrer.
Eu fiquei olhando para ela, sem conseguir processar a imbecilidade daquele homem.
— Ele apostou o lugar onde a gente dorme... e agora quer que eu resolva? O que ele espera que eu faça? Que eu apareça com sete milhões de reais do nada?
Ela segurou meus braços com força, os olhos suplicantes.
— Ele tá desesperado, Mari. Ele chora à noite quando acha que ninguém tá vendo.
— E eu? Eu não conto? — Minha voz falhou, a revolta transbordando. — Eu tô me matando de estudar, abrindo mão de tudo pra construir um futuro que não tenha cheiro de uísque e grito! E ele quer me puxar pra lama junto com ele?
— Eu não vou deixar ninguém te obrigar a nada — ela disse, mas a frase soou vazia, sem peso. Uma promessa que ela não tinha poder para cumprir.
Eu inclinei a cabeça, encarando-a com uma lucidez dolorosa.
— Você deixou muita coisa acontecer nessa casa, mãe. Muita coisa.
A frase bateu nela como um golpe físico. Ela fechou os olhos, as lágrimas finalmente vencendo a resistência.
— Eu sei... me perdoe, eu sei.
Aquilo doeu mais do que a discussão lá embaixo. O arrependimento dela era uma ferida aberta que nunca cicatrizava. Eu passei a mão no rosto, o cansaço finalmente quebrando minha armadura.
— Eu tô bem, mãe. Mas eu tô exausta. Exausta de ser a única pessoa com juízo nessa família. Exausta de ser o escudo que ninguém agradece.
Ela me puxou para um abraço. Eu resisti por meio segundo, a rigidez do ódio ainda presente, mas depois cedi. O cheiro dela era uma mistura de sabão, café e um luto antigo. Era o cheiro de casa, com todas as suas rachaduras e goteiras.
— Você não é responsável pelos erros dele, Mariana. Nunca foi.
— Então por que parece que eu sou a única que vai pagar a conta? — murmurei contra o ombro dela.
O silêncio voltou a dominar o corredor. Lá embaixo, ouvi o som de vidro quebrando. Mais um copo. Mais um fragmento da nossa vida indo para o lixo.