capitulo 12 Continuação

2737 Palavras
PONTO DE VISTA: DANIEL BITTENCOURT O vidro blindado da Mercedes isolava o mundo lá fora como se a realidade fosse apenas um cenário de baixa resolução, um filme mudo e m*l iluminado passando diante de mim enquanto eu cruzava o portão principal da universidade. O motorista não falava. Ele sabia que o silêncio ao meu redor era o meu oxigênio. Eu detesto ruído desnecessário. Detesto a mediocridade que tenta preencher o vácuo com banalidades. Eu fui à faculdade por obrigação institucional. Uma reunião administrativa enfadonha, assinaturas de repasses de verbas e a atualização do núcleo jurídico que leva meu sobrenome uma ironia conveniente para quem nunca pisou ali como aluno, mas hoje é dono de metade do que sustenta aquelas paredes. Eu não esperava encontrar absolutamente nada interessante naquele ninho de intelectuais em formação. Eu estava saindo da ala administrativa, ajustando o punho da minha camisa de algodão egípcio, quando bati numa m*l educada, no começo nem reparei na estúpida, mais esperei ela sair da sala de aula e ouvi vozes alteradas no corredor do bloco C. Normalmente, eu ignoraria. Mas não era o som comum de alunos reclamando de notas. Não era choro. Não era escândalo barato. Era argumento. Era lógica sendo cuspida com uma agressividade controlada. Parei antes da porta da sala 304. Meus seguranças pararam dois passos atrás, estátuas de terno preto. A voz feminina que vinha lá de dentro era firme. Técnica. Uma voz que não tremia, apesar da tensão óbvia do ambiente. “Precedente não é privilégio, professor. É aplicação de razoabilidade. O sistema não pode punir a circunstância externa quando o mérito interno é comprovado!” Aquilo me fez virar o rosto. Arqueei uma sobrancelha, sentindo o primeiro lampejo de interesse em horas de tédio corporativo. A porta se abriu com um estrondo controlado. Ela saiu. Respiração acelerada, as bochechas levemente coradas pelo esforço da discussão. Os olhos dela brilhavam não de lágrimas, eu detesto mulheres que choram para conseguir o que querem mas de uma indignação contida, puramente intelectual. A postura? Reta demais para uma simples estudante de graduação. Era orgulho puro. Um orgulho que beirava a arrogância. Eu não sabia quem ela era naquele segundo. Só vi uma garota que não aceitava regras sem contestar o fundamento. E eu, por hábito estratégico de testar a fibra das pessoas, ofereci ajuda. Não por interesse pessoal eu tenho modelos internacionais à disposição no meu celular mas por puro sadismo experimental. Ela recusou. Direto. Sem pestanejar. Sem nem medir as consequências de dar as costas para um homem que veste um terno que custa mais do que o carro do reitor. Quando o professor saiu da sala logo atrás, trêmulo, e me apresentou formalmente, eu observei o exato segundo em que o peso do meu sobrenome encaixou na mente dela como uma prensa hidráulica. Bittencourt. Ali houve um impacto. Eu vi a pupila dela dilatar. Vi o choque. Mas, para minha surpresa, não houve submissão. Não houve o pedido de desculpas patético que eu recebo 99% das vezes. “Ótimo. Não muda nada.” — ela disse, antes de girar nos calcanhares e sumir pelo corredor. A maioria das pessoas muda o tom, a postura e até o caráter quando descobre a minha posição hierárquica. Ela não. Ela simplesmente reafirmou o seu desprezo. Depois que o som dos passos dela desapareceu, eu entrei na sala 304. Fechei a porta com um estalo seco, deixando o professor sozinho comigo. Ele parecia que ia ter um infarto. — Essa aluna — eu disse, minha voz saindo baixa e cortante, enquanto eu me sentava na borda da mesa dele, invadindo seu espaço pessoal. — Ela sempre fala assim? Ela sempre acha que as regras são sugestões? O professor demorou meio segundo antes de conseguir encontrar a voz. Ele limpou o suor da testa com um lenço amassado. — Mariana Lacerda é uma das melhores do curso, doutor Bittencourt. Ela é... intensa. O sobrenome bateu no fundo da minha mente. Lacerda. Coincidência? Eu não acredito em coincidências. Eu acredito em vetores que se cruzam por causa de forças maiores. — Bolsa? — perguntei casualmente, embora de casual minha curiosidade não tivesse nada. — Parcial. Ela luta por cada centavo do desconto. — Perfil disciplinar? — Irretocável, até hoje. Ela nunca se atrasa. — Sempre confronta autoridade? — Só quando acha que está certa. O senso de justiça dela é... quase perigoso para o sistema. Eu encostei na mesa dele, cruzando os braços. Senti um sorriso de canto, gélido e predatório, surgir nos meus lábios. — E ela costuma estar certa, professor? Ele segurou meu olhar por um breve instante antes de desviar. — Frequentemente. É isso que a torna tão difícil de lidar. Eu fiquei em silêncio por alguns segundos, deixando a fumaça daquela informação assentar. Mariana Lacerda. O nome ficou rodando na minha cabeça como uma peça de um quebra-cabeça que eu estava montando mentalmente desde a noite anterior. — Nome completo — ordenei, sem margem para negativas. O professor, intimidado pela minha presença física e pelo poder que meu sobrenome exercia sobre a verba daquela instituição, abriu o sistema no computador com dedos trêmulos. — Mariana Lacerda dos Santos. Santos. O sobrenome da mãe. Confirmou o que eu já estava começando a suspeitar com uma certeza matemática. — Nome dos responsáveis — continuei, mantendo o tom neutro, como se estivesse apenas revisando um relatório de auditoria. Ele hesitou, mas a pressão do meu olhar foi o suficiente. — Mãe: Arlete Lacerda. Pai: Francisco Lacerda. Francisco. Ali a coincidência morreu de vez. O mundo é pequeno demais para dois Francisco Lacerda estarem ligados a mim de formas tão distintas e, ao mesmo tempo, tão conectadas. Eu me aproximei da mesa e puxei a tela levemente para mim. Não foi um pedido. Foi uma invasão necessária. Olhei para a foto de matrícula. Era ela. A mesma garota orgulhosa do corredor, mas na foto ela parecia mais jovem, com um olhar menos blindado. Data de nascimento. Endereço. Contato de emergência. Era a filha. A "joia da família" que Francisco tinha mencionado entre goles de uísque e suor de desespero. A peça que eu ainda não tinha visto pessoalmente, só por fotos embaçada no celular do Francisco, mas que agora tinha um rosto, uma voz e um temperamento que eu não esperava. A loirinha que acabou de me enfrentar no corredor como se eu fosse apenas mais um obstáculo administrativo era a mesma "garantia moral" que o pai pretendia me entregar para salvar a própria pele. Eu soltei um riso baixo, seco, totalmente desprovido de qualquer traço de humor humano. Era o riso de um predador que acaba de encontrar a toca da presa. — Algum problema, doutor? — o professor perguntou, a voz quase sumindo. — Nenhum — respondi, fechando a aba do sistema com um clique definitivo. — Apenas curiosidade institucional. Eu gosto de saber quem são as mentes que a minha fundação está financiando. Curiosidade. Que palavra pífia para descrever o que eu estava sentindo. Interessante como a vida gosta de pregar peças. Francisco Lacerda passou a madrugada anterior praticamente rastejando no chão do meu escritório, implorando por prazo, chorando por causa de sete milhões de dólares, e oferecendo a filha como se estivesse oferecendo uma apólice de seguro de vida. E naquela manhã, sem ter a menor ideia de que eu sou o dono do destino da família dela, a tal "garantia" me mandou para o inferno. Duas vezes. Eu encostei na cadeira do professor, cruzando as pernas e observando o teto. Arlete. Francisco. O endereço batia com o dossiê que o Rocha tinha me entregue. Não havia margem para erro. Então a garota orgulhosa da sala 304 não era apenas uma aluna problemática com um senso jurídico afiado. Ela era o prêmio de uma dívida de pôquer. E a melhor parte? Ela não fazia a menor ideia de que a liberdade dela já tinha sido apostada e perdida numa mesa de jogo. — Ela corre risco de perder a bolsa por causa desse atraso e dessa prova que ela perdeu? — perguntei, minha voz voltando a ser uma navalha de gelo. — Sim. Se a nota final deste semestre ficar abaixo do mínimo exigido pelo contrato da fundação, a bolsa é rescindida automaticamente. Ela não teria como pagar as mensalidades atrasadas. Seria jubilada. Eu assenti devagar, saboreando a informação. Claro que corre risco. Ela luta como se o mundo fosse regido por mérito e esforço. Coitada. m*l sabe ela que o mundo, na verdade, é regido por contratos assinados com sangue e desespero. Eu permaneci parado por um tempo, processando a clareza da situação. “Se a nota final ficar abaixo do mínimo, sim.” A confirmação do professor era o gatilho que eu precisava. Eu caminhei devagar até a lateral da mesa dele, apoiando meus dedos longos na madeira polida, sentindo o peso exato da decisão que eu estava tomando. Não era um impulso emocional. Eu não me movo por raiva ou ego ferido pelo confronto no corredor. Eu me movo por oportunidade. Francisco passou horas falando da filha como se ela fosse um ativo financeiro. Ele não disse “eu a ofereço”, porque ainda tem um resto de vergonha, mas ele deixou o caminho aberto em cada entrelinha suada. Falou da beleza dela, da dedicação, de como ela era uma “menina de ouro” que faria qualquer coisa pela mãe. Como se estivesse descrevendo as qualidades de uma empresa que ele queria que eu comprasse. Ele tentou me vender uma narrativa de admiração. Mas eu? Eu só negocio termos e condições. — Essa avaliação que ela perdeu... ela vale quanto na média final do semestre? — perguntei, sem pressa, observando o professor suar. — Trinta por cento. É a nota de maior peso antes do exame final. — E a manutenção da bolsa exige quanto? — Média oito e meio. Inegociável. Eu assenti. Mariana deve estar confortável acima disso. O professor disse que ela é a melhor. Ela deve ter um nove ou dez em tudo. Ela se sente segura. Ela sente que o esforço dela é o escudo dela. Até hoje. Eu me afastei da mesa e caminhei até a janela panorâmica da sala. Lá fora, o pátio da faculdade estava cheio de alunos ignorantes, cruzando de um lado para o outro sem ter a menor ideia de que a vida de um deles estava sendo triturada em silêncio atrás daquela porta. — Se ela zerar essa prova — continuei, o tom de voz ficando perigosamente suave — o sistema de gerenciamento acadêmico faz a comunicação automática para o responsável financeiro, correto? — Sim, doutor. O sistema emite um alerta de 'Risco de Perda de Benefício' em vinte e quatro horas após o lançamento da nota. — Excelente. O professor me encarou com um desconforto que agora beirava o pavor. Ele não era burro. Ele sabia que eu estava fazendo algo além da administração acadêmica. — O senhor... pretende manter o zero dela? Mesmo ela tendo chegado minutos depois? Eu me virei lentamente, encarando-o com olhos que não mostravam misericórdia. — Eu não pretendo nada, professor. Eu apenas exijo que o regulamento que eu mesmo ajudei a redigir seja aplicado com rigor absoluto. Regras são regras. Se abrirmos exceção para uma Mariana, teremos que abrir para todos. E a AeroSky não financia exceções. — Mas doutor Bittencourt... isso pode comprometer o semestre inteiro dela. Pode destruir o futuro dela nesta instituição. — Eu sei exatamente o que isso faz — retruquei, caminhando de volta para a mesa. — Registre a ausência definitiva. Sem justificativa extraordinária. Sem atestados médicos de última hora. Apenas um zero seco no sistema. O professor engoliu em seco, as mãos tremendo sobre o teclado. — Isso... isso é por causa do pai dela? — ele arriscou, numa coragem momentânea. Eu sustentei o olhar dele até que ele baixasse a cabeça. — Isso é por causa da proposta do pai. Francisco acha que pode me enrolar com histórias de "gratidão" e "família". Ele acha que pode me oferecer a filha como um prêmio de consolação por sete milhões de dólares. Eu dei um sorriso breve, carregado de um desprezo oceânico. — Gratidão não liquida contratos de dívida, professor. E eu não aceito presentes que não tenham sido devidamente avaliados por mim. Apontei para a tela onde o nome de Mariana brilhava em letras digitais. — Enquanto ela tiver essa bolsa garantida, enquanto ela tiver essa estabilidade acadêmica ilusória, enquanto ela acreditar que o mérito dela sustenta o chão que ela pisa... ela vai continuar sendo aquela garotinha arrogante que me deu as costas no corredor. Ela não dependerá de nada. E ela não aceitará o acordo do pai. Minha voz baixou uma oitava, tornando-se algo visceral. — Dependência altera a postura de qualquer pessoa. Até da mais orgulhosa das leoas. — Isso é extremo — o professor murmurou, quase num lamento. — Não. Extremo seria eu aceitar a proposta de Francisco agora e mandar meus homens buscarem a garota em casa hoje à noite. Eu estou sendo... pedagógico. Estou organizando a equação para que ela entenda a realidade. Eu me aproximei da orelha dele. — Lance o zero. Agora. Sem menção ao meu nome na ata. Sem sinalização de que houve minha interferência. Apenas um procedimento administrativo padrão por atraso. — E se ela recorrer à coordenação? — O recurso será indeferido pela reitoria, com base no meu comando direto. — E se ela for ao conselho de alunos? — Eu sou o conselho, professor. Não se esqueça disso. Ele apertou a tecla 'Enter'. O som do clique pareceu um tiro no silêncio da sala. Mariana Lacerda acabava de se tornar inadimplente com o próprio futuro. — E a bolsa? — ele perguntou, a voz sem vida. — Deixe que o sistema faça o que foi programado para fazer. O alerta vai para o e-mail do Francisco amanhã de manhã. Ele vai entrar em pânico. Ele vai ver que a única coisa que mantinha a filha dele no "mundo dos normais" está desmoronando por causa da dívida dele. Eu caminhei até a porta, mas antes de sair, olhei por cima do ombro. — Quando a notificação de risco for enviada ao responsável, me encaminhe uma cópia oculta. Quero ver o cronômetro do desespero deles começar a girar. — Sim, senhor Bittencourt. Deixei a sala e caminhei pelo corredor com a confiança de quem acabou de fazer uma jogada de mestre. Mariana Lacerda não fazia a menor ideia de que aquele atraso insignificante de minutos tinha acabado de se transformar na maior ferramenta de controle que eu poderia ter contra ela. Ela me enfrentou. Ela me ignorou. Ela recusou a minha mão estendida. Ela ainda acredita que o destino dela pertence a ela. Mas o pai já a colocou no meu tabuleiro de apostas. E quando alguém coloca um ativo desse nível na minha mesa, eu não ignoro. Eu avalio. Eu estruturo. Eu preparo o cenário para a aquisição total. Eu não vou forçá-la fisicamente. Eu não sou um sequestrador comum. Mas quando a bolsa for cancelada, quando a permanência dela na universidade depender de uma soma que o pai não tem, quando a mãe dela sentir o peso do despejo batendo na porta por causa das outras dívidas que eu estou comprando de outros agiotas... Francisco voltará. E ele não trará narrativas ou promessas. Ele trará a filha. E eu estarei pronto para ouvi-la pedir, com aquela mesma voz firme, o que ela mais odeia: a minha ajuda. Porque o poder real não é sobre gritar ou bater. É sobre criar circunstâncias onde a outra parte é obrigada a escolher entre o seu orgulho e a sua sobrevivência. E eu acabei de assinar o decreto de fome do orgulho de Mariana Lacerda. Entrei na Mercedes e fechei a porta. O silêncio voltou a reinar. — Para o escritório, Marcos — ordenei ao motorista. — E ligue para o Rocha. Diga a ele para comprar todas as notas promissórias que o Francisco Lacerda tiver no mercado. Eu quero ser o único credor daquela família antes do pôr do sol. A garota da foto agora tinha um nome, um rosto e um destino traçado. Ela queria aprender a nadar? Ótimo. Eu acabei de secar o oceano dela e transformá-lo em um tanque de tubarões. Vamos ver quanto tempo o orgulho dela dura quando o oxigênio acabar.
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