Isabella.
Eu odeio este prédio.
Odeio o vidro espelhado que me devolve uma versão de mim que não reconheço. Sempre impecável. Sempre controlada. Uma Isabela moldada para caber num espaço que nunca pediu por ela. Odeio o ar-condicionado frio demais, como se a empresa inteira tivesse sido projetada para anestesiar qualquer traço de impulso, de erro, de humanidade. Odeio o som constante dos teclados, dos telefones, das vozes treinadas para parecerem seguras — mesmo quando tremem por dentro.
E, acima de tudo, odeio o fato de estar aqui todos os dias.
Trabalhar na empresa do meu pai nunca foi um sonho. Nunca foi um plano. Nunca foi desejo. Ainda assim, aqui estou: sentada atrás de uma mesa organizada demais, com um crachá pendurado no pescoço como um lembrete silencioso de quem eu sou… ou, pior, de quem esperam que eu seja.
As pessoas sorriem diferente quando falam comigo. Pesam cada palavra. Algumas bajulam. Outras julgam. Quase ninguém me enxerga de verdade. Para eles, eu não sou Isabela — sou um sobrenome andando pelos corredores. Uma extensão dele.
— Bella.
A voz do meu pai me alcança antes que eu consiga me recompor por inteiro. Ele está encostado à porta do próprio escritório, paletó impecável, expressão séria suavizada.
— Está tudo bem? — pergunta, já sabendo que a resposta não é simples.
Dou de ombros, um gesto automático, ensaiado.
— Está — minto m*l. — Só foi um dia… longo.
Entro na sala do meu pai.
A porta se fecha atrás de mim com um som baixo, definitivo demais para ser ignorado. O escritório é amplo, silencioso, controlado — As paredes são em tons escuros, sóbrios, quase austeros, quebrados por uma estante de madeira maciça que ocupa uma lateral inteira. Livros alinhados com precisão excessiva, pastas organizadas por cores discretas, nenhum objeto fora do lugar. Não há fotos de família. Não há lembranças pessoais à vista. Apenas escolhas calculadas.
Ele se aproxima devagar, como sempre fez quando eu era criança e achava que o mundo era grande demais para caber em mim. Apoia a mão no encosto da cadeira à minha frente, sem invadir, sem pressionar.
— Você vai se gostar daqui — ele diz com calma. — Ter você aqui me faz ver que você já é uma mulher adulta, mesmo com tão pouca idade.
Eu sorrio de leve. Um sorriso cansado.
— Eu já sou adulta, deveria poder tomar minhas próprias decisões — respondo. — Parece que tudo aqui carrega um peso maior quando envolve você, parece que eu estou tentando provar isso.
O olhar dele se suaviza ainda mais.
— Isabela — ele diz, firme, mas gentil. — Você não precisa provar nada para ninguém. Muito menos para mim.
Engulo em seco.
— Eu sei… — murmuro. — Só não quero decepcionar você.
O silêncio que se segue não é pesado. É cuidadoso.
— Você nunca me decepcionou — ele afirma, sem hesitar. — E não vai acontecer agora.
Levanto o olhar para ele. Há tanta certeza ali que quase dói.
— Eu te amo, pai — digo, baixo, sincera. — Mesmo quando não sei se esse lugar é pra mim. Mesmo quando me sinto perdida aqui.
Ele sorri de um jeito pequeno, verdadeiro.
— E eu te amo exatamente assim — responde. — Perdida, confusa, questionando. Isso significa que você está tentando.
Ele se endireita, retomando parte da postura de chefe — não frio, apenas necessário.
— Agora, volte ao trabalho — diz, com um meio sorriso. — Termine o dia. Depois vamos conversar com calma, fora daqui.
Assinto.
— Vou tentar.
— Não tente — ele corrige, de leve. — Apenas seja você. O resto se ajeita.
Quando ele se afasta, fico alguns segundos parada, respirando fundo.
Talvez eu ainda não saiba quem sou.
Mas sei exatamente por quem tenho medo de falhar.
E, por ora, isso é o suficiente para seguir em frente.
— Alguns meses, Bella — ele disse, naquela sala enorme que sempre cheira a poder e decisões irrevogáveis. — Observe. Aprenda. Depois, você decide o que quer fazer da vida.
Decidir.
Como se fosse simples.
Como se eu já não tivesse passado anos tentando descobrir quem sou sem carregar o peso de “Romero Matarazzo” colado à pele. Como se trabalhar aqui não fosse, todos os dias, uma batalha silenciosa entre agradá-lo e não desaparecer no processo.
Eu sei que ele não fez isso por crueldade. Meu pai sempre foi cuidadoso comigo. Presente. Protetor — às vezes até demais. Ele acredita, genuinamente, que está me dando tempo. Segurança. Um chão firme enquanto penso no futuro.
Mas o que ele não entende…
é que esse chão não é meu.
Cada reunião me aperta o peito um pouco mais. Cada e-mail assinado com o nome da empresa parece roubar um fragmento da mulher que eu poderia ser lá fora. Eu observo as pessoas discutindo metas, lucros, estratégias, e me pergunto quando foi que crescer significou aceitar o que é seguro em vez do que faz o coração bater mais rápido.
Eu me sinto ingrata por pensar assim.
Tenho privilégios. Uma mesada considerável. Um lugar garantido. Portas abertas. Um futuro quase pronto — bastaaceitar.
Mas e se eu não quiser esse futuro?
Às vezes, no meio do expediente, me pego encarando a vista do décimo segundo andar, imaginando outras versões de mim. Uma Isabela que acorda com vontade de trabalhar. Outra que erra, cai, aprende sozinha, recomeça — sem o sobrenome do pai funcionando como rede de proteção e algema ao mesmo tempo.
Aqui, até meus erros são suavizados antes de doerem. Sempre há alguém para corrigir, para ajustar, para impedir que eu aprenda sozinha.
— Você está indo bem — dizem.
Mas “ir bem” em algo que você não escolheu soa mais como sentença do que elogio.
O pior não é o trabalho. Eu aprendo rápido. Executo bem. Sei sorrir na hora certa. O pior é esse silêncio que cresce dentro de mim — a sensação constante de estar adiando a minha própria vida.
“Só alguns meses”, repito como um mantra.
Alguns meses para decidir.
Mas decidir o quê, exatamente?
O que eu quero… ou o que não vai decepcionar meu pai?
Essa é a parte que nunca digo em voz alta: eu tenho medo. Medo de escolher algo que ele não entenda. Medo daquele silêncio pesado quando ele discorda sem elevar a voz. Medo de enxergar, nos olhos dele, que todo o esforço que fez por mim não foi suficiente para me manter por perto.
Eu o amo.
Talvez por isso doa tanto estar aqui.
No fim do dia, quando desligo o computador, sinto um alívio quase culposo. Como se estivesse fugindo de algo que ainda nem começou. Cruzo o corredor, o elevador, o saguão — e o reflexo no vidro me encara de novo.
A mesma Isabela bem vestida. Postura correta. Aparência segura.
Por dentro, sou só uma mulher contando os dias.
Não espero pelo fim do expediente —
espero pelo momento em que finalmente terei coragem de escolher por mim mesma.
E enquanto esse momento não chega…
eu posso me permitir um pouco de diversão.
Brincar com fogo sempre foi um vício silencioso.
Especialmente quando o incêndio atende pelo nome de Mikhail.
Toda vez que ele me vê, é como se estivesse diante de um erro que ganhou forma. Um erro de saia, olhar firme e intenções que ele finge não perceber. Ele se protege com controle, com moral, com silêncio — como se isso apagasse o fato de que já atravessou limites antes.
E agora age como se nada tivesse acontecido.
Finge muito bem.
Mas não comigo.
A curiosidade me cutuca, insistente, quase provocativa. Ir até a sala de Mikhail é uma ideia r**m — o que, sinceramente, só a torna irresistível.
Digo a mim mesma que é curiosidade profissional.
Vontade de aprender. De entender. De crescer.
Mentira.
É curiosidade sobre o homem por trás da pose impecável. Sobre o que ele esconde quando a voz baixa um tom. Sobre o que tenta negar toda vez que nossos olhares se prendem por um segundo a mais do que deveriam.
E, talvez…
sobre até onde ele está disposto a fingir que eu não sou exatamente o tipo de problema que ele luta tanto para controlar — e secretamente, para não desejar.