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1360 Palavras
Isabella. — Olha por onde anda. A voz vem antes do impacto. Um esbarrão calculado, seco, que faz as pastas escaparem dos meus braços e se espalharem pelo chão de mármore como afronta. Chelsey para à minha frente com um sorriso lento, desses que não pedem desculpa porque nunca pretendem dar uma. Salto alto impecável, vestido caro, postura de quem anda pelo prédio como se fosse dona — ou esposa — de alguém muito importante. — Desculpa — digo, sem me abaixar de imediato. Minha voz sai calma demais para alguém que acabou de ser provocada. — Você estava ocupada demais olhando para cima? O sorriso dela se afia. — Alguns de nós têm motivos para olhar — responde, avaliando-me de cima a baixo como quem inspeciona um objeto fora do lugar. — Outros só estão… de passagem. Ah. Então é assim. Me agacho devagar para recolher as pastas, não por submissão, mas por estratégia. Não tiro os olhos dela nem por um segundo. — Engraçado — murmuro. — Eu pensei que esse corredor fosse compartilhado. Mas você anda como se tivesse fosse seu. Chelsey cruza os braços, satisfeita com a atenção. — Quando você estiver aqui há mais tempo, talvez entenda como as coisas funcionam. Algumas pessoas sabem exatamente onde pisar. Outras tropeçam. Levanto-me, segurando as pastas contra o peito. Estou perto o suficiente para sentir o perfume caro dela — invasivo, excessivo. — Eu não tropecei — respondo, inclinando levemente a cabeça. — Fui empurrada. Os olhos dela cintilam, venenosos. — Cuidado com acusações, Isabela. Sobrenomes não duram para sempre. Dou um meio sorriso. O tipo que não pede aprovação. — E atitudes dizem muito mais do que cargos, Chel—sey…— leio no crachá, pausando de propósito. — vendo a raiva ferver em seus olhos verdes. Ela se inclina um pouco, baixando a voz como quem compartilha um segredo sujo. — Você acha mesmo que esse lugar é seu? A pergunta paira entre nós, carregada de ameaça e desprezo. Chego mais perto. A desafiando. — Não — digo, tranquila. — Mas também não é seu. O silêncio estala. Chelsey me encara como se estivesse decidindo se vale a pena criar uma cena. No fim, apenas ajeita o cabelo e solta uma risada curta. — Aproveite enquanto pode. — Sempre aproveito — respondo. — Principalmente quando tentam me diminuir. As pastas ainda estão firmes contra o meu peito quando sinto a mudança no ar. Não é um som. É uma presença. — Está tudo bem aqui? A voz de Mikhail surge atrás de Chelsey, baixa, controlada — daquele tipo que não precisa se impor porque já manda. Meu estômago se contrai antes mesmo de eu olhar para ele. Chelsey se vira imediatamente, o veneno no rosto dando lugar a algo mais… suave. Ensaiado. Familiar. E então eu vejo. A mão dele pousa nas costas dela. Não é brusco. Não é ostensivo. É um toque leve, quase casual — mas íntimo demais para ser profissional. Os dedos se espalham devagar, como se aquele gesto fosse antigo, confortável. Como se aquele corpo fosse território conhecido. Algo aperta dentro de mim. — Claro que está — responde Chelsey, inclinando-se levemente em direção a ele, como quem pertence. — Tivemos só um pequeno… acidente de corredor. Os olhos de Mikhail se movem até mim. Demoram mais do que deveriam. Avaliam. Pesam. Reconhecem. Sinto-me menor sob aquele olhar. Não fraca — exposta. — Isabela — ele diz, meu nome saindo como uma linha esticada demais. — Você se machucou? Balanço a cabeça, rápido demais. — Não — respondo. — Foi só um esbarrão. Chelsey sorri, satisfeita, enquanto a mão dele continua ali, firme nas costas dela. O gesto não muda. Não recua. Não pede desculpa. É isso que mais intimida. — Esses corredores ficaram apertados, com tanta gente nova — ela ironiza me olhando com desdém. — Especialmente para quem ainda está… se acostumando. Mikhail não tira os olhos de mim. — É verdade — diz ele, mas o tom não confirma nem contradiz. Apenas observa. Sinto o calor subir pelo meu pescoço. Não é ciúme. É algo mais feio: a sensação de estar fora de um jogo cujas regras eu ainda não conheço — mas que claramente não fui convidada a jogar. — Eu já estava de saída — digo, erguendo um pouco mais o queixo. Recuso-me a baixar os olhos. Ele finalmente afasta a mão de Chelsey. O espaço deixado parece mais ofensivo que o toque. — Certo — responde. — Nos vemos mais tarde. Mais tarde. Chelsey se inclina e murmura algo no ouvido dele, baixo demais para eu ouvir. O sorriso dela é lento. Vitorioso. Como se tivesse acabado de marcar território. Passa por mim sem olhar, o salto ecoando no chão. Fico ali por um segundo a mais do que gostaria. — Isabela — Mikhail chama de novo. Eu me viro. Estamos frente a frente agora. Sem Chelsey. Sem plateia. Mas a intimidação ainda pulsa no ar, recente demais para desaparecer. — Algum problema? — ele pergunta. Seguro o olhar dele. Meu coração bate rápido, traidor. — Nenhum — respondo. — Só… aprendendo como as coisas funcionam por aqui. Algo se move no rosto dele. Não é um sorriso. Não é reprovação. É alerta. — Aprender exige atenção — diz ele. — E cuidado. Inclino a cabeça, um meio sorriso surgindo apesar do aperto no peito. — Eu sou muito atenta, Mikhail. Passo por ele antes que responda. Só quando estou a alguns metros de distância percebo: minhas mãos estão frias. E, pela primeira vez desde que decidi brincar com fogo, eu entendo exatamente com o que estou mexendo. Continuo caminhando pelo corredor, mas minha cabeça ficou para trás. Na mão dele. No gesto automático. Na i********e que não precisava de explicação. A forma como Mikhail tocou as costas de Chelsey não foi descuido. Não foi educado. Não foi profissional. Foi íntimo demais para ser recente… e confortável demais para ser casual. Aquilo não nasce do nada. Meu estômago se revira com a constatação. Então é isso. Chelsey não é só uma mulher convencida que anda por esse prédio como se fosse dona de tudo. Ela é parte da vida dele. Talvez não oficialmente. Talvez nunca vá ser. Mas o suficiente para ocupar um espaço que não admite distrações. Isso explica muita coisa. Explica por que ele já não olha para Cecília como antes. Por que se tornou distante, fechado, quase frio quando o nome dela surge em conversas velhas demais. Por que parece ter enterrado aquilo como quem vira a página de um capítulo que prefere não reler. Chelsey é o presente. Cecília, o passado. E o passado, claramente, não o interessa mais. O pensamento me irrita mais do que deveria. Porque, se for verdade… então talvez eu tenha entendido errado o tipo de homem que Mikhail é — ou talvez tenha entendido exatamente certo. Mulheres como Chelsey sabem ocupar espaço. Não pedem. Tomam. Não se explicam. Impõem. Elas não têm doçura sobrando nem ingenuidade nos gestos. Têm postura, controle e um olhar que não abaixa. Talvez seja isso que ele gosta agora. Mulheres que não precisam ser protegidas. Mulheres que sabem jogar. Mulheres que caminham por corredores de poder como se fossem extensão do próprio corpo. Meu reflexo aparece no vidro mais à frente. Vestida de forma impecável. Postura correta. Expressão calculada. Será que eu pareço esse tipo de mulher… ou ainda pareço alguém que pode ser dobrada? O pensamento arde. Talvez seja por isso que aquela mão nas costas dela me intimidou tanto. Não foi ciúme — foi comparação. Foi a súbita consciência de que eu ainda estou aprendendo as regras de um jogo que Chelsey domina há muito tempo. E Mikhail? Ele não é o prêmio. É o campo minado. Um homem que finge moral enquanto escolhe com cuidado quem pode tocá-lo. Que abandona o passado sem olhar para trás e segue em frente como se nunca tivesse deixado rastros. Talvez eu não seja o tipo dele. Ou talvez… eu ainda não tenha mostrado que posso ser. E isso, admito em silêncio, só torna tudo mais perigoso — e infinitamente mais tentador.
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