Pré-visualização gratuita PRÓLOGO
O DIA EM QUE O REI MORREU
A chuva caía pesada sobre a estrada. Não era apenas água lavando o asfalto, era uma tempestade violenta, espessa e gelada, como se o próprio céu estivesse desabando para engolir o mundo.
O céu estava completamente escuro.
Sem estrelas.
Sem lua.
Um breu absoluto que asfixiava a visão. Como se a própria noite soubesse que algo terrível, algo irreversível e banhado a sangue, estava prestes a acontecer.
Benjamin Navarro dirigia em silêncio. A mente dele, sempre acostumada a calcular guerras e comandar um império de medo, estava em pausa. Dentro daquela caminhonete blindada, a violência não existia.
Uma das mãos segurava o volante com a firmeza de quem é dono do próprio destino.
A outra estava apoiada sobre a perna da esposa. Um toque suave. Um gesto de rendição que ninguém no submundo acreditaria ver o Rei fazer.
Larissa sorriu.
— Você sabe que eu consigo dirigir sozinha, né? — a voz dela soou macia, cortando o barulho monótono da chuva batendo no metal.
— Eu sei. — Benjamin respondeu, o olhar fixo na estrada n***a.
— Então por que insiste em vir me buscar?
Benjamin deu de ombros, um movimento quase imperceptível.
— Porque eu gosto.
Ela riu.
Aquela risada.
Aquela maldita e luminosa risada que conseguia fazer o homem mais temido do Complexo Nova Esperança esquecer, por alguns segundos cruciais, quem ele era. O carrasco sumia. O monstro recuava. Sobrava apenas o homem apaixonado.
No banco traseiro, alheio à escuridão lá fora e ao império de sangue do pai, Miguel dormia abraçado a um carrinho de brinquedo com a tinta descascada.
Seis anos.
A coisa mais preciosa que Benjamin tinha no mundo.
Por ele, Benjamin matava sem hesitar.
Por ele, Benjamin morria sorrindo.
Por ele, Benjamin colocaria fogo no Rio de Janeiro inteiro e caminharia pelas cinzas sem olhar para trás.
O menino se mexeu durante o sono, soltando um suspiro baixo.
Larissa virou o corpo para trás, o olhar transbordando ternura.
Sorriu.
— Parece um anjinho.
Benjamin soltou uma risada grave que vibrou no peito.
— Esse aí puxou a mãe.
— Graças a Deus. — Ela provocou.
— Tá dizendo que sou r**m? — Ele arqueou a sobrancelha no escuro.
— Você é traficante.
— Empresário.
— Criminoso.
— Empresário.
— Bandido.
— Empresário.
Ela caiu na gargalhada. Uma risada pura, alta e verdadeira.
E por alguns segundos...
Tudo parecia perfeito. A ilusão de uma família normal, blindada contra o veneno do mundo.
Mas a perfeição não dura. Na vida que Benjamin escolheu, ela é apenas um erro de cálculo.
Nunca dura.
O celular de Benjamin vibrou no console. Uma única vez.
Uma mensagem.
Número desconhecido.
Uma única frase, letal como o corte de uma navalha:
"Tem um traidor ao seu lado."
O sorriso desapareceu.
Instantaneamente. O ar dentro da caminhonete pareceu congelar. Os músculos das costas dele travaram.
Larissa percebeu no mesmo milésimo de segundo.
— O que foi? — A voz dela vacilou, o medo já rastejando nas palavras.
— Nada.
Mas era mentira.
Porque Benjamin sentiu. O estômago afundou.
Sentiu aquele arrepio.
Aquela sensação r**m. O gosto metálico na boca.
A mesma sensação maldita que sempre surgia antes de uma guerra estourar no morro.
Antes de uma invasão.
Antes de uma morte.
Instinto. O radar de um predador que sabe que virou caça.
E o instinto dele raramente errava.
Quinze minutos depois.
A estrada estava deserta.
Nenhum carro.
Nenhuma luz.
Nenhum movimento nas margens. O silêncio fora do carro era ensurdecedor.
Estranho.
Muito estranho.
Benjamin diminuiu a velocidade. O pé pairou sobre o freio. A mão desceu milímetros, pronta para puxar a arma.
Seus olhos analisavam tudo com uma precisão cirúrgica.
Cada curva.
Cada sombra projetada no mato.
Cada metro da pista molhada.
— Tá tudo bem? — Larissa perguntou, apertando o cinto de segurança, os olhos arregalados de pânico.
Benjamin não respondeu.
Estava concentrado.
Atento.
Pronto para o impacto.
E foi exatamente nesse momento que o inferno abriu o chão.
Uma explosão sacudiu o mundo.
BOOOOOOM!
O asfalto explodiu debaixo da caminhonete. Uma carga de dinamite colossal. O veículo de toneladas foi lançado para o lado como se não pesasse nada.
Miguel acordou gritando, um berro de puro terror.
Larissa gritou desesperada.
Vidros, feitos para resistir a balas, estilhaçaram em milhares de lâminas microscópicas.
A caminhonete girou violentamente no ar.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Até parar atravessada na pista, destruída e em chamas.
Tudo aconteceu em segundos.
Mas para Benjamin, imerso numa adrenalina que queimava os nervos, pareceu uma eternidade torturante.
O gosto de sangue invadiu sua boca na mesma hora.
Sua cabeça bateu brutalmente contra a coluna da janela.
A visão ficou embaçada, o mundo girando num borrão escuro e vermelho.
E então vieram os tiros.
Centenas deles.
O som dos fuzis rasgou a madrugada. A blindagem, o que sobrou dela, absorveu parte dos disparos com baques surdos e pesados.
Mas não todos. A estrutura estava arruinada.
Os vidros começaram a rachar em teias de aranha e desabar.
O carro inteiro tremia sob a força esmagadora do chumbo.
Larissa gritava sem parar.
Miguel chorava desesperado.
E Benjamin percebeu a verdade incontestável.
Aquilo não era assalto. Não era operação da polícia.
Era execução. A eliminação do Rei.
— ABAIXA!
Ele puxou Larissa para baixo com uma força brutal, cobrindo o corpo dela com o seu.
Sacou a pistola.
Abriu a porta amassada parcialmente com um chute. O cheiro de pólvora queimou seus pulmões.
Disparou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Quatro.
Mandando fogo na direção dos clarões no meio do mato.
Mas havia homens demais. Uma tropa tática.
Sombras surgiam de todos os lados.
Armados.
Encapuzados.
Treinados. Matadores de elite marchando para fechar o cerco.
Aquilo tinha sido planejado.
Detalhadamente.
Alguém sabia exatamente por onde ele passaria, a velocidade e o segundo exato.
Alguém tinha vendido sua localização.
Alguém muito próximo.
Então, no meio da tempestade de tiros, ele ouviu.
A voz.
Uma voz conhecida. O homem em quem ele mais confiava no império.
Uma voz impossível.
— Acabem com ele.
Benjamin congelou.
O coração falhou uma batida. A traição doeu mais do que a explosão.
Não.
Não podia ser.
Mas antes que conseguisse enxergar quem falava na escuridão...
Um disparo pesado, um traçante de fuzil, atravessou o vidro lateral estilhaçado.
Larissa arquejou. Um som úmido e asfixiado.
Benjamin virou o rosto em câmera lenta, o pânico absoluto devorando suas entranhas.
E viu.
O sangue.
Muito sangue. Uma torrente quente e escura descendo pela roupa clara dela, pulsando forte pelo pescoço. O tiro foi fatal.
— Larissa... — Benjamin tentou estancar a ferida com as próprias mãos, mas a vida jorrava pelos seus dedos.
Ela tentou sorrir. Tentou achar forças onde não havia mais nada.
Tentou.
Mas não conseguiu. O foco desapareceu.
— Ben...
A voz saiu fraca.
Quase inexistente.
— Não. — Ele implorou.
Não.
Não.
Fica comigo.
Por favor, meu amor.
— Eu te amo...
Foi a última coisa que ela disse. O último suspiro.
A última.
Seu corpo ficou imóvel. Pesado e frio sob as mãos dele.
Os olhos perderam o brilho, virando vidro.
E naquele instante minúsculo...
O mundo de Benjamin acabou. A sanidade virou pó.
— LARISSA!
O grito foi tão absurdamente alto, rasgando o fundo da sua alma, que sua garganta sangrou.
Mas ela não respondeu.
Nunca mais responderia.
E então veio outra voz. Do banco de trás.
Pequena.
Frágil.
Assustada.
— Pai...
Miguel.
Benjamin virou o corpo desesperado, ignorando os tiros que arrancavam pedaços do banco.
O menino estava ferido gravemente.
Sangue escuro cobria sua camiseta de criança.
Suas pequenas mãos, sujas de pólvora e vidro, tremiam.
— Filho... meu Deus...
— Tá doendo... tá doendo, pai...
Benjamin sentiu o coração partir ao meio. Um estalo físico no peito.
Porque ele podia enfrentar exércitos inteiros.
Podia enfrentar a polícia e a corrupção do estado.
Podia enfrentar o próprio inferno e voltar ileso.
Mas não podia salvar o próprio filho. Seu império e seu dinheiro não serviam para nada.
— Vai ficar tudo bem. O pai tá aqui.
— Promete?
As lágrimas escorreram pelo rosto sujo de fuligem do homem de gelo.
Sem controle.
Sem vergonha.
Sem orgulho.
— Prometo.
Miguel sorriu. Um sorriso pequeno, cansado.
Triste.
E fechou os olhos.
Benjamin esperou, sem conseguir respirar.
Um segundo.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Mas Miguel não voltou a abrir os olhos. O peitinho parou de se mover.
Nunca mais.
O silêncio dentro da cabine destruída foi pior do que os tiros.
Pior do que a explosão.
Pior do que a morte.
Porque naquele instante maldito, Benjamin percebeu que estava sozinho.
Completamente e miseravelmente sozinho.
A mulher que amava estava morta.
O filho que era seu mundo estava morto.
E ele continuava respirando. O coração continuava batendo.
O que parecia a maior das crueldades cósmicas.
Passos cercaram a caminhonete no asfalto.
Lentos.
Calmos.
Confiantes.
Como caçadores se aproximando da carcaça do predador abatido.
Benjamin ergueu a arma. A mão tremendo, pesada de ódio.
Mesmo ferido gravemente.
Mesmo sangrando por um corte profundo na cabeça.
Mesmo destruído por dentro, sem alma.
Ainda era o Rei.
Ainda era a criatura mais perigosa que respirava naquele asfalto.
Mas sua visão estava falhando rápido.
O sangue escorria pela testa, cegando um olho.
A respiração estava pesada, os ossos do peito estalando a cada puxada de ar.
E então, com uma alavanca de aço, a porta foi arrancada de vez.
Mãos brutais o puxaram pelo colarinho.
Com violência extrema.
Benjamin caiu no asfalto molhado. O impacto tirou seu ar.
Sentiu os ossos gritarem.
Sentiu os joelhos rasgarem na brita solta.
Sentiu o gosto da chuva misturado ao próprio sangue espesso.
Tentou levantar num rosnado, mas não tinha base.
Recebeu um chute forte de coturno nas costelas.
Depois outro, no rosto.
E mais outro, afundando seu corpo na lama.
Os homens o cercaram. Um círculo da morte.
Armas apontadas direto para sua nuca.
Prontos para executar o traficante mais poderoso do Rio de Janeiro e tomar a coroa.
— Terminem logo com isso.
A mesma voz.
A voz da traição. O homem que queria o trono do Complexo Nova Esperança.
Mas antes que o tiro de misericórdia fosse disparado...
Sirenes ecoaram pela estrada, rasgando o som da chuva.
Luzes vermelhas e azuis surgiram piscando velozes à distância. O batalhão pesado estava chegando.
Gritos de alerta entre os encapuzados.
Correria.
Confusão. Os assassinos não iriam enfrentar dezenas de viaturas no aberto.
Os homens começaram a se dispersar, embrenhando-se no mato espesso para fugir.
E Benjamin aproveitou a brecha. Movido apenas pelo instinto mais primitivo.
Mesmo sem forças.
Mesmo quase inconsciente e perdendo sangue demais.
Ele se arrastou pelo asfalto de bruços.
Metro por metro. Centímetro por centímetro.
Até a lateral da estrada.
A chuva transformava a terra da ribanceira em lama escorregadia.
Seu corpo estava quebrado.
Cada respiração doía como agulhas no peito.
Cada movimento parecia impossível.
Mas ele continuou.
Porque já não lutava por si mesmo. Ele já estava morto por dentro.
Lutava por vingança.
Então o chão desapareceu de repente. A terra cedeu.
Benjamin não viu o abismo n***o da ribanceira.
Seu corpo escorregou no vácuo.
E caiu.
Rolando morro abaixo com uma fúria descontrolada, jogado contra as pedras.
Galhos rasgavam sua pele.
Terra enchia sua boca.
Espinhos mutilavam sua carne.
O impacto foi brutal, quebrando suas resistências finais.
Sua cabeça bateu violentamente contra uma rocha maciça.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Até tudo ficar completamente escuro.
Até a dor sumir.
Até o mundo desaparecer.
Até Benjamin Navarro deixar de existir no plano consciente.
.....
Quando abriu os olhos novamente, o mundo era um borrão claro e sem sentido.
A luz doía. O cheiro de café passado e sabão barato invadia o ar, substituindo o cheiro da pólvora.
Ele tentou se mover. Os músculos repuxaram, travados. Uma dor aguda cruzou seu crânio.
— Ei... não se mexe muito.
A voz era suave. Feminina. Diferente de tudo o que conhecia.
Benjamin piscou, forçando a visão turva a encontrar o foco.
Havia uma garota sentada em um banco de madeira ao lado da cama simples.
Cabelos escuros e cacheados, amarrados no alto da cabeça. Olhos castanhos, observadores e calmos.
Ela não vestia jaleco, nem branco hospitalar. Não tinha cara de médica ou de enfermeira. Era apenas uma moradora local, uma garota simples da comunidade, com roupas desgastadas e mãos de quem trabalhava duro para sobreviver.
Ele a encarou, confuso.
— Quem... — a voz dele saiu como o som de vidro quebrando. Seca. Áspera.
Ele tentou engolir a saliva para aliviar a garganta e tentou de novo.
— Quem é você?
A garota se inclinou um pouco para frente, sem medo, apenas com uma compaixão silenciosa.
— Meu nome é Serena. Eu encontrei você caído no final da ribanceira, perto da mata da estrada. Fazem semanas. Você tava quase morto.
Benjamin tentou processar a informação. Semanas? Ribanceira?
Ele fechou os olhos, apertando a testa, tentando puxar as imagens. Tentando achar uma resposta. Mas a mente dele era um cofre que havia sido implodido.
— E quem... — a respiração dele acelerou. O pânico de um homem cego ganhando força. — Quem sou eu?
O silêncio que se abateu sobre o quarto foi pesado, carregado de uma tensão densa.
Serena o observou, analisando os traços duros e marcados daquele estranho.
— Você não sabe? — ela perguntou, a voz baixando o tom.
Ele negou com a cabeça lentamente, sentindo o mundo girar.
Não. Ele não sabia.
Não sabia quem era.
Não sabia seu nome.
Não sabia quem havia amado com tanta força naquela noite chuvosa.
Não sabia que era um rei do crime.
Não sabia que era o monstro mais temido do estado.
Não sabia que o Complexo Nova Esperança estava afundado em uma guerra sanguinária por causa do seu desaparecimento.
E, principalmente...
Ele não fazia a menor ideia de que a garota que limpou seu sangue e salvou sua vida...
Serena Duarte. A mulher de olhar calmo sentada à sua frente...
Era a filha de um homem que ele próprio havia mandado executar anos atrás.
A ironia do destino não era apenas c***l. Ela era destrutiva.
A única pessoa capaz de salvá-lo era também a única pessoa que tinha todos os motivos do mundo para destruí-lo.
E a história deles estava apenas começando.
E aí, meninas, o que acharam desse impacto inicial? O peito até aperta, né? Já deu para sentir que a história não veio para brincadeira e que a trajetória do Benjamin e da Serena vai ser intensa, crua e cheia de reviravoltas que vão deixar vocês sem fôlego. O passado não perdoa e o bicho vai pegar de verdade!
Gostaram do prólogo? Então me deem aquela força gigante: adicionem logo o livro na biblioteca de vocês para não perderem nenhuma notificação de atualização. E, por favor, comentem muito! Quero ver o surto e as teorias de vocês em cada parágrafo. O engajamento, os votos e cada comentário que vocês deixam são extremamente importantes para o crescimento do livro e são o combustível que a autora aqui precisa para escrever cada vez mais rápido e trazer mais fogo para vocês.
Segurem a ansiedade e apertem os cintos, porque muito em breve eu volto com o primeiro capítulo de degustação para vocês sentirem ainda mais a pressão do que vem por aí.
Preparadas para embarcar nesse submundo comigo? Deixem o fogo nos comentários e bora pra guerra! 🔥🖤👑