Capitulo 4

643 Palavras
Jorge permaneceu em um silêncio de chumbo por alguns segundos, batendo a cinza de um cigarro imaginário e observando o horizonte com uma cautela que me dava gastrite e me intrigava na mesma medida. Eu tava ligado naquele silêncio. Era o tipo de quietação que antecede o pipoco, aquela calmaria de merda antes do caveirão subir a ladeira. Era o prelúdio de um papo torto que ninguém ali queria ter, mas que era necessário igual arrancar bala do couro sem anestesia. Miguel, menorzinho puro, totalmente alheio à escuridão e ao banho de sangue que manchava nosso chão, continuava no piso rústico da varanda. Ele transformava o concreto frio em um campo de manobras para o carrinho de plástico, fazendo curvas imaginárias com a boca e uma concentração invejável de quem não faz ideia do que é a guerra de verdade. Enquanto ele sorria para si mesmo no seu mundo intocável, eu encarava o morro lá embaixo, buscando no pulsar frenético do Complexo Nova Esperança uma distração que não veio. Tentei cortar o assunto com um gesto vago, balançando a mão para afastar a neurose, mas o Jorge não era vapor novato pra deixar a isca cair. O maluco era cria antiga, macaco velho da pista. — Pega a visão, chefe. Só toma cuidado. O mundo não é feito só de fechamento não. Muito aliado teu tá só esperando tu tropeçar pra cobrar a fatura. Fechei os olhos por um instante, sentindo o sol da manhã estralar nas pálpebras, fritando o resto de paciência que eu ainda tinha. — Jorge, na moral. Para. Já deu dessa fita. — O papo é reto, Benjamin. É sobre o Lucas. O bagulho tá esquisito. — Eu já sei qual é a tua visão sobre ele. Tu acha que ele vai meter o pé na minha porta. — Então escuta o que eu tenho pra cuspir. Presta atenção no que tá rolando nas tuas costas. Virei-me devagar, apoiando as costas no corrimão metálico que já tava esquentando, sentindo o vento bater e balançar minha camisa. Jorge tava com a lataria fechada, aquela máscara de luto e preocupação que ele só sacava quando a bronca era pesada e envolvia o alto escalão do bonde. — Tu lembra do Adriano? — ele mandou, com a voz raspando, baixa pra não assustar o moleque. Meu maxilar travou na hora, com tanta força que eu jurei que ia trincar um dente. Aquele nome desgraçado. O nome que era como uma faca enferrujada cravada no estômago da história desse morro. O vacilão do Adriano não era apenas um caô antigo; ele era a ferida aberta, a infecção que nunca cicatrizava, o fantasma que assombrava a fundação do que eu construí. — Isso tem cota pra c*****o, Jorge. O maluco já virou adubo. Esquece essa p***a. — Eu tô ligado que faz tempo. Mas tu sabe como é o crime, Benjamin. Certas paradas nunca ficam enterradas de verdade. O bagulho apodrece debaixo da terra, mas o cheiro de carniça acaba subindo e invadindo a boca. Miguel soltou uma gargalhada alta quando o carrinho capotou feio e bateu na parede descascada. Ele olhou pra mim, com os olhos grandes e brilhantes, limpos de qualquer maldade. — Pai, olha! O carro voou! Peguei o brinquedo do chão, senti o plástico barato raspando nos dedos calejados e devolvi pra mão do meu moleque, forçando o melhor sorriso que um bandido fodido como eu conseguia dar. — Valeu, pai! — ele gritou, já deitando no chão de novo pra voltar a fazer o motor do carrinho roncar. O sorriso daquele pivete foi uma facada bem dada no meio do meu peito. Uma lembrança de tudo que eu precisava blindar. Voltei a atenção de pedra pro meu braço direito, cuja seriedade tornava aquela manhã de sol num clima de velório. — Desembucha logo. Fala a fita toda sem curva.
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