Eu vou precisar de um milagre

1638 Palavras
Abri os olhos com dificuldade. A luz intensa do quarto agredia meus sentidos, e minha cabeça parecia prestes a explodir. Pisquei algumas vezes, tentando focar no ambiente ao meu redor, mas nada ali me parecia familiar. Os móveis luxuosos, a televisão enorme e os quadros nas paredes denunciavam que eu estava muito longe de casa. Definitivamente, não era minha cama, muito menos o austero monastério. Tentei me levantar, mas imediatamente percebi que estava completamente nua. Virei a cabeça para o lado e, para minha surpresa, Andréa dormia tranquilamente ao meu lado, ainda segurando minha mão. O pânico subiu pela minha garganta. Tudo que eu queria naquele momento era gritar e empurrá-lo para fora da cama, mas, em vez disso, soltei sua mão com cuidado para não acordá-lo. As lembranças da noite anterior eram um borrão, fragmentadas e confusas, mas uma coisa era certa: eu sabia exatamente o que tinha acontecido. A última coisa que eu queria era criar mais problemas do que já tinha causado. Com a cabeça latejando e o corpo dolorido — uma lembrança vívida das horas passadas naquela cama — comecei a procurar minhas roupas no caos que tomava conta do quarto. Cada movimento me fazia sentir a dor na lombar, mas eu tentava ignorar. Depois de revirar o quarto por um tempo, encontrei o vestido curto que havia usado na noite anterior. Lembrei-me de ter deixado as outras roupas na loja onde compramos aquelas peças. No entanto, minha calcinha e sutiã estavam desaparecidos, sumidos no meio da bagunça. Sem muitas opções, acabei pegando uma cueca dele para usar. O vestido era curto demais para sair sem nada por baixo, e eu não podia arriscar mais humilhações. Quando finalmente terminei de me vestir, me encarei no espelho. Meu cabelo, sempre ondulado, agora parecia um ninho de pássaro. Seria essa a primeira vez que acordava tão desarrumada depois de uma noite intensa? Provavelmente não. Mas pelo menos Andréa ainda estava dormindo. A última coisa que eu precisava era que ele me visse naquele estado lamentável. Uma coisa é a magia acabar, outra é dormir com uma princesa e acordar com uma moradora de rua. Já havia passado vergonha suficiente por um ano inteiro. — Como eu disfarço essa cara? — murmurei para o reflexo no espelho, observando meu estado deplorável. Sem um banho ou um pouco de creme para o cabelo, não havia muita coisa que eu pudesse fazer. Respirei fundo e prendi os cabelos em um coque improvisado. O resultado estava longe de ser ideal, mas pelo menos eu parecia um pouco mais apresentável. Pensei em deixar um bilhete para Andréa antes de sair, mas, sem papel ou caneta à vista, desisti da ideia e me desculpei mentalmente. Caminhei em direção à porta, tentando não fazer barulho, mas tropecei em um dos saltos vermelhos que ele havia escolhido para combinar com o look da noite anterior. Com um suspiro, decidi calçar os sapatos. Melhor do que andar descalça pelas ruas. Enquanto caminhava apressada em direção à igreja, minha mente trabalhava a mil, tentando encontrar uma desculpa para o que estava prestes a enfrentar. Não era apenas a hora em que eu estava voltando, mas também a forma em que me apresentava: abatida, com o rosto exausto, vestida com algo que claramente não condizia com o perfil de uma noviça. Como eu poderia explicar isso? Parei de repente quando um dos saltos prendeu na calçada. Tentei soltá-lo de todas as formas, mas o sapato parecia decidido a me trair. Sem opções, abandonei o salto ali mesmo e continuei a caminhada descalça. Cada passo parecia uma tortura, especialmente no meio da multidão que lotava as ruas, e a ressaca que se instalava no meu corpo fazia questão de lembrar que eu estava completamente fora de controle. Para o meu completo desespero, avistei Camille vindo em minha direção. Ela parecia preocupada, mas havia algo mais em sua expressão... talvez uma irritação crescente. Não consegui identificar com precisão o que ela sentia enquanto corria em minha direção. Meu coração acelerou. Eu ainda não tinha pensado em uma explicação convincente para o que ela estava prestes a presenciar. Como eu explicaria meu desaparecimento da noite anterior? E, pior ainda, como justificaria a roupa que estava usando? Tenho certeza de que aquele vestido curto não era algo que uma noviça usaria. A possibilidade de ser expulsa do programa em menos de vinte e quatro horas se tornou assustadoramente real. — Camille, eu posso explicar... — comecei, mas as palavras me traíram. Não, eu não podia explicar. Que desculpa plausível poderia me tirar dessa situação? No fundo, eu sabia que a única coisa que poderia me salvar agora era um milagre. Para minha total surpresa, Camille reagiu de uma maneira completamente inesperada. O milagre que eu precisava veio de onde menos imaginava. — Graças a Deus, te encontrei! O que aconteceu com você? Está mancando! Alguém te machucou? Você está pálida! — Ela não me deu tempo para responder. — Venha comigo, vou te levar ao médico. Antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo, Camille já me arrastava pelas ruas em direção a um hospital próximo. Nenhuma palavra sobre o meu vestido ou o meu desaparecimento. Enquanto caminhávamos, a culpa latejava na minha cabeça, mas era um alívio temporário não precisar me explicar ainda. No hospital, o médico começou a fazer uma série de perguntas em italiano, das quais eu não entendi uma palavra. Camille, paciente, traduziu tudo com cuidado. Eu precisava responder algo, mas a verdade não era uma opção. Então, cruzei os dedos e menti, costurando uma narrativa que parecia plausível o suficiente. — Eu estava com muita fome — comecei, tentando soar o mais sincera possível. — A viagem foi longa, e a comida do avião não ajudou. Fiquei tão nervosa que nem consegui dormir direito. Depois que você saiu, decidi vestir uma roupa que ganhei da diretora do orfanato para explorar a cidade. Fui procurar algo para comer, mas esqueci que só tinha real, nada de euros. Me perdi tentando voltar. Estava exausta, com fome, sem saber falar italiano... Acabei adormecendo num banco de praça. Sinto muito, fui muito descuidada. Cada palavra era uma mentira cuidadosamente construída a partir de migalhas de verdade. O peso da culpa me atingiu no instante em que terminei de falar. Será que mentir para uma freira era pecado? Mas como eu poderia explicar a verdadeira história? Como dizer que saí para tomar café, conheci um homem irresistível, bebi vinho e... bem, terminei nua na cama dele? Não, a verdade estava fora de cogitação. Camille levou as mãos à cabeça, visivelmente perturbada. — Meu Deus! Minha menina, me desculpa! Eu devia ter te dado algo para comer. Débora também passou m*l na noite passada e teve que ir ao hospital. Quando percebemos que você ainda não tinha voltado, começamos a te procurar. Só te encontramos agora! Tudo isso é culpa minha... Ela traduziu minha versão para o médico, e eu me encolhi sob o peso de mais uma camada de culpa. Camille acreditava em cada palavra, e isso só fazia com que a mentira se tornasse mais insuportável. Enquanto o médico falava, eu m*l conseguia prestar atenção, só conseguia pensar no que eu tinha feito na noite anterior. Eu lembrava de cada detalhe. O vinho tinha libertado uma parte de mim que nem sabia existir. Uma nota mental se formou: nunca mais beber vinho. — O médico disse que deve ter sido uma combinação de jet lag, fome e ansiedade, assim como com Débora — Camille informou, tentando me tranquilizar. — Você vai tomar um soro e deve repousar o dia todo. É melhor que vocês passem o resto da semana se ajustando. Vou falar com a madre sobre isso. Eu já volto, preciso fazer uma ligação. Ela saiu conversando com o médico em italiano, me deixando sozinha no quarto. Uma senhora apareceu logo em seguida, aplicando o soro em mim. O cansaço da noite anterior se abateu sobre mim, e antes que eu percebesse, caí no sono. Quando acordei, já era noite. Camille tinha ficado ao meu lado o tempo todo, me lembrando a diretora do orfanato, que sempre cuidava de mim, mesmo quando eu aprontava. Esse gesto de carinho só aumentava o peso da minha consciência. Após uma última avaliação, o médico me liberou para voltar para casa. A dor tinha diminuído, mas minhas pernas e lombar ainda reclamavam de cada movimento. Um lembrete claro do que eu havia aprontado. — Está se sentindo melhor? — Camille perguntou enquanto chegávamos à porta da casa. — Estou, sim. Acho que só precisava descansar mais. Meu corpo ainda está completamente destruído. — A ressaca, felizmente, já havia passado. Tive mais sorte do que juízo por ter escapado de uma punição ou, pior, da expulsão. Talvez eu devesse agradecer a Débora. — Vou buscar sopa para vocês. Hoje, não precisam jantar no refeitório. Já falei com a madre, vocês só começarão na próxima semana. Descansem e se acostumem ao lugar. Já é quinta-feira, de qualquer forma. Na segunda, começamos a nova rotina. Ah, e sobre as roupas que trouxe, seria melhor usar algo mais simples. São as regras. Não precisa jogar fora o vestido, já que foi um presente, mas guarde-o com carinho. Ela me aconselhou com gentileza antes de se despedir, acenando. Subi as escadas com dificuldade, minhas pernas ainda trêmulas. Ao entrar no quarto, aliviada por ter escapado ilesa daquela situação, encontrei Débora ajoelhada, orando em voz alta com um terço enorme em uma mão e a Bíblia na outra. — Mentirosa — ela disse, sem nem ao menos levantar os olhos. Retiro o que disse. Não devo nada a essa garota. Minha vontade era jogá-la pela janela sem pensar duas vezes, mas acho que já tinha cometido pecados suficientes para o ano todo nas últimas vinte e quatro horas.
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