Ser o Don da máfia Camorra não é uma escolha. É um fardo.
As pessoas olham para mim e veem força. Inteligência. Frieza. Poder.
O que elas não veem — ou fingem não ver — é o preço que tudo isso cobra. Ser bonito, influente, temido... só faz de mim um alvo maior.
E não há dor maior do que assistir ao que você ama ser arrancado de você sem poder fazer nada.
Meu pai aprendeu isso da pior forma. Estavam voltando de um jantar romântico quando os inimigos o cercaram. Quiseram atingir a alma dele, e conseguiram. Atiraram na mulher da vida dele — minha mãe — diante dos olhos dele. Fria, cruelmente. E ele nunca mais foi o mesmo.
Eu prometi a mim mesmo que não seguiria esse caminho.
Nunca deixaria ninguém me alcançar pelo coração.
É por isso que não amo. Não me envolvo. Nunca casei. Nunca permiti que ninguém passasse da minha cama para a minha vida. Comigo é prazer. Apenas isso. Corpo por corpo. Uma troca de calor, nada mais.
Eu comando a máfia mais poderosa do sul da Itália. Tudo que respira nessa terra responde a mim — direta ou indiretamente.
O hotel onde estou agora pertence à família Morelli. Nada acontece aqui sem minha autorização.
E ainda assim... a máfia russa achou que poderia me testar.
Informações chegaram pelos nossos olhos infiltrados: russos sondando o território. Uns chamam de avanço, eu chamo de provocação. E provocações têm custo.
Estou neste hotel há cinco dias, fingindo descanso, enquanto minha rede trabalha. Estamos vigiando os portos, os bares, os clubes. Cada maldito rato russo que pisa nesta região será exposto. E eliminado.
Depois de mais um dia exaustivo, entre reuniões e torturas que é uma coisa que amo e ordens dadas, fui para a minha suíte.
E aí estava ela…
Ela estava de costas quando entrei. Usava o uniforme simples de camareira, mas nada nela era simples. Os cabelos loiros estavam presos de qualquer jeito, com fios rebeldes caindo sobre a nuca. A curva da cintura, mesmo sob o tecido modesto, era marcante.
Ela estava parada, olhando para a arma em cima da cômoda.
Eu vi.
Ela viu.
Mas ela não correu.
Nem se fingiu de assustada.
Nem tentou disfarçar.
Apenas continuou ali, como se já soubesse quem eu era.
— Achei que fosse uma camareira, não uma ladra — brinquei, mais por hábito do que por provocação.
Ela virou, um pouco corada, mas firme. Os olhos não desviaram. Fiquei parado, observando o contraste entre a suavidade do rosto e a tensão do corpo. Ela era linda. De tirar o fôlego. Seu rosto tinha traços delicados, mas o que realmente me prendeu foi o olhar — havia fogo ali. E algo mais... algo que me desafiava.
Diferente de todas as outras.
Todas as mulheres se rendem. Algumas fingem resistir, mas no fim, todas querem estar nos braços do Don. Lutam por isso. Mentem. Traem. Imploram.
Mas ela não.
Ela só olhou. E ficou.
Naquele instante, decidi: ela seria minha.
Mas não à força. Nunca.
Sou muitas coisas, mas não toco em mulher que não queira ser tocada. Odeio abusos. Tráfico. Violência contra mulheres ou menores. É por isso que, mesmo sendo quem sou, muitos me respeitam mais do que temem.
Com essa camareira... eu usaria o charme. O olhar. A sedução.
E funcionaria. Eu sabia disso.
— Jante comigo esta noite — disse.
Ela hesitou. Quase sorriu. Tentou resistir. Mas o olhar dela já tinha me entregado tudo.
E ela aceitou.
Hoje à noite, Cecília será minha.
E ela ainda não faz ideia... que essa noite não será apenas uma noite para mim.
Porque, pela primeira vez em muitos anos...
Eu quero uma mulher.