Capítulo 16 — O Reconhecimento

1183 Palavras
Laura Eu só percebo que estava prendendo a respiração quando ele vai embora. O ar volta de uma vez, enchendo o peito como se tivesse ficado vazio por segundos inteiros. As crianças continuam ali, pedindo atenção, rindo, errando passos, tropeçando e levantando poeira fina que dança na luz do sol, mas alguma coisa mudou. Não nelas. Em mim. Como se eu tivesse acabado de atravessar uma porta que não sabia que existia. Um teste, sem aviso, sem perguntas, e pelo jeito eu… passei, ou pelo menos não falhei. Dou instruções mecânicas, voz saindo automática: “Braços abertos, respiração funda, postura reta como se tivesse uma corda puxando a cabeça pro céu”. Elas obedecem, concentradas, Maria Clara girando com tranças voando, Lucas tentando equilíbrio em uma perna e quase caindo, mas rindo quando eu seguro o braço dele. Mas minha cabeça ainda está na escada, onde ele ficou parado, avaliando cada movimento meu como se estivesse decidindo se eu era risco… ou permanência. Kai não fala muito, mas o silêncio dele diz coisas demais. “Achei que não voltaria.” Ele disse como quem observa estatística. Gente como eu não volta. Gente como eu recua, inventa desculpa, desaparece. Mas eu voltei. Não por bravura. Não por desafio. Voltei porque fugir ia me deixar menor do que o medo. E, de alguma forma, ele entendeu isso. Não aprovou, nem reprovou, apenas… registrou. No intervalo, sento no banco de concreto na beira da quadra, bebendo água da garrafinha enquanto observo o morro ao redor. O som é alto, vivo, desorganizado, crianças correndo entre as pernas das mães, moto ronrando na rua principal, uma mulher gritando nome de filho da porta de casa, cheiro de pastel frito subindo da barraca da esquina. Hoje não me engole. Hoje eu me sinto… incluída. Não pertencente, ainda não, mas tolerada. Aceita em observação, e isso é mais do que eu tinha ontem. Uma das meninas se aproxima, suada, sorrindo com dentes de leite faltando. — Tia, você vem amanhã também, né? — Eu engulo em seco. A pergunta pesa diferente agora. — Venho, sim — respondo, minha voz saindo mais firme do que eu esperava. Ela sorri e corre de volta para o círculo. E eu percebo que a resposta não foi só pra ela. Foi pra mim também. Quando a aula termina e eu arrumo as coisas, dobrando o tapete fino de EVA, sinto aquele olhar outra vez e como sempre um arrepio corre pelo meu corpo. Ele está lá em cima de novo. Não me encarando abertamente, mas atento. Como se o morro inteiro fosse um corpo… e ele fosse o sistema nervoso central. Eu não aceno. Não sorrio. Não provoco. Mas também não abaixo os olhos, sustento seu olhar por um segundo, mas logo me viro. Desço o morro com passos mais firmes do que ontem. O medo ainda existe, mas agora ele não manda. Porque hoje eu aprendi uma coisa importante: O morro não me expulsou. Ele me observou… e deixou que eu ficasse. E, no centro disso tudo, está um homem que carrega perigo no corpo e controle na voz. Kai. Eu não sei o que ele vê quando me olha, mas sei o que senti quando ele foi embora e não foi alívio. Foi… reconhecimento, como se eu tivesse sido medida e não descartada. Isso deveria me assustar e talvez até assuste, mas também acende algo que não sei nomear. Algo que diz que eu não voltei àquele morro apenas para ensinar passos de balé. Voltei porque, pela primeira vez, alguém me olhou sem expectativa… e mesmo assim decidiu me deixar existir ali. E isso é um tipo de aprovação que eu nunca tive, nem da minha mãe, nem do balé e nem de mim mesma. Talvez seja perigoso demais querer isso, mas amanhã… eu volto, e nem é só pelas crianças. No caminho até o Largo, percebo o quanto estou diferente. Ontem desci olhando para os lados, encolhida, tentando não chamar atenção, passos rápidos e cabeça baixa como quem quer sumir na multidão. Hoje meus passos são mais seguros, mesmo que o coração ainda bata rápido demais, como se soubesse que o morro não esquece quem volta duas vezes. Não estou me iludindo, eu sei que o morro não deixou de ser perigoso, que Kai não deixou de ser quem é, nada ficou mais simples, mas deixei de ser uma mera visitante e virei presença, parte de um todo. E isso muda o jeito como as pessoas olham pra mim. Não é acolhimento quente, de abraço e sorriso aberto. É reconhecimento frio, como se eu tivesse atravessado uma fronteira que não aparece nos mapas. Uma senhora varrendo a calçada me cumprimenta com a cabeça, a vassoura parando por um segundo, olhos castanhos me medindo sem hostilidade. Um menino sentado na calçada sai do caminho sem que eu peça, mochila escolar escorregando no ombro enquanto se levanta rápido. A mesma moça do sacolé sorri de canto, entregando um picolé pra uma criança, mas olhando pra mim como quem registra: “ela voltou”. Não é amizade. É leitura. Eles sabem que voltei. E voltar, ali, é um tipo de linguagem que não precisa de palavra. Quando chego ao Largo e peço o Uber, sento no banco de concreto quente e olho para as mãos. Elas não estão tremendo como ontem, isso me assusta um pouco, porque significa que estou me acostumando, ou… que estou escolhendo. O carro chega rápido, entro, coloca a mochila no colo, e encosto a cabeça no vidro frio enquanto o morro desaparece pelo retrovisor, minha cabeça ainda tá lá em cima. Na escada. No silêncio entre mim e ele. Kai não sorri. Não suaviza. Não faz charme. Ele apenas observa… e decide. E hoje, de alguma forma, ele decidiu não me mandar embora. Não disse “vai embora”. Não bloqueou o caminho. Só ficou lá, braços cruzados, olhando enquanto eu continuava a aula como se nada tivesse mudado. Essa constatação me aquece e me apavora ao mesmo tempo. Eu não preciso da aprovação dele. Não quero depender disso, mas é impossível ignorar o que significa sobreviver ao olhar de alguém que controla aquele lugar. É como se eu tivesse sido pesada numa balança invisível e não fui considerada leve demais pra ficar. O Uber entra na minha rua, prédios brancos e árvores podadas aparecendo como outro mundo. Subo as escadas devagar, abrindo a porta com cuidado. A casa está silenciosa, minha mãe ainda no trabalho, ou talvez no quarto evitando me encarar como está fazendo desde que decidi dar essas aulas. Meu quarto me espera como se nada tivesse mudado, com a cama arrumada, o espelho com fotos antigas de audições, as sapatilhas penduradas na parede, mas eu sei que tudo mudou. Porque hoje eu não apenas dei aula, hoje eu atravessei um limite invisível e não fui empurrada de volta. Deito na cama, encarando o teto branco, se isso é um jogo, eu acabei de entrar nele de verdade. E o problema é que, pela primeira vez na vida… eu não quero sair correndo.
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