Capítulo 15 — A Volta

1135 Palavras
Kaique Ela voltou. Dessa vez, o morro não precisou me avisar porque eu senti sua presença antes mesmo de vê-la realmente. Brunão aparece na porta do galpão. — A professora chegou. — Não respondo na hora. — Hoje cedo — ele acrescenta. — Sozinha. Assinto uma vez, ela escolheu voltar por conta própria. E escolha, aqui, sempre cobra um preço. Subo a escada sem pressa. Não porque estou calmo, porque pressa denuncia coisa demais. De cima, vejo a quadra. Ela está lá, com sua postura ereta e movimentos contidos. O tornozelo ainda protegido, mas o corpo inteiro presente. Não há pânico. Não há fuga. Não há aquele jeito de quem viu coisa demais e decidiu desaparecer. Ela fala com as crianças como se o ontem não tivesse existido. Como se não tivesse me visto com uma arma na mão. Como se não tivesse entendido exatamente quem manda naquele território. Isso… me incomoda. Desço, não para causar cena, mas sim para testar. Quero ver o que ela vai fazer quando me vir de perto. Quero saber se voltou por ignorância… ou por algo pior. Quando chego à quadra, o barulho diminui naturalmente. Não porque eu mando, porque o corpo das pessoas reconhece perigo antes da cabeça. Ela percebe. Vira o rosto devagar. Nossos olhos se encontram. Espero o recuo. O passo atrás. A respiração presa. Nada. Ela apenas me observa. Os olhos claros atentos, curiosos demais para alguém que deveria estar assustada. O corpo não fecha, não se encolhe, não foge. Curiosidade. Pura e perigosa. — Bom dia — ela diz. Simples, sem tremor, sem desafio explícito. — Bom — respondo. Fico ali, parado, braços cruzados, avaliando cada detalhe. A forma como ela segura o espaço. Como mantém a aula fluindo mesmo com minha presença. Ela não está fingindo coragem, ela está… escolhendo ficar. — Achei que não voltaria — digo. Ela inclina levemente a cabeça, como se estivesse analisando o peso da frase. — Pensei nisso — responde. — Mas voltei. — Depois do que viu. — Não é pergunta. Ela sustenta meu olhar. — Justamente por isso. — Algo se desloca no meu peito. Pequeno e incômodo. — Aqui não é lugar pra curiosidade — digo. — Eu sei — ela responde. — Mas também não é só isso. O silêncio que cai entre nós não é confortável. As crianças observam de longe, sentindo que algo importante está acontecendo, mesmo sem entender. — Você não parece com medo — comento. Ela solta um ar lentamente. — Estou — admite. — Mas medo não me impede de fazer o que precisa ser feito. Interessante. Perigoso. Dou um passo mais perto, mas não invado, só marco presença. — Pensar demais aqui dá problema. — Fugir também — ela rebate, baixa. Arqueio uma sobrancelha. — Fugir mantém você viva. — Viver não é só fugir. — Essa frase não deveria me atingir, mas atinge. Observo o morro ao redor, o território, as regras que mantêm tudo de pé, as decisões que ninguém de fora entende. — Você não sabe onde está se metendo — digo. — Talvez — ela responde. — Mas estou tentando entender. Curiosa. Não assustada. Não iludida. Apenas curiosa. Dou um passo para trás. — Continue sua aula — digo. — Mas fique atenta. — Sempre fico. — Ela não baixa os olhos, não provoca, não pede nada. Só… fica. Me afasto um pouco, mas continuo por ali, não sei lidar com o que está acontecendo, nunca alguém mexeu tanto comigo quanto essa bailarina mexe. Ela volta a atenção para as crianças como se eu não estivesse mais ali, isso é novo. A maioria das pessoas faz questão de saber se ainda estou olhando, mas ela não. Dá instruções, corrige postura, sorri de canto quando uma das meninas erra e tenta de novo. Age como se tivesse um controle que não tem. E isso me irrita mais do que o medo teria irritado. Fico parado alguns segundos a mais do que deveria, observando. Não ela, o efeito dela. A quadra está mais viva, mais barulhenta, mais… solta. Criança costuma rir aqui, mas hoje ri alto demais. Distraída demais. Distração é risco. Brunão aparece ao meu lado. — Quer que eu mande diminuir o barulho? — Não. — Ele me olha de lado, estranhando. — Vai deixar assim? — Por enquanto. — Ela me lança um olhar rápido. Não de desafio. De verificação. Como se quisesse confirmar se eu ainda estou ali. Estou. E ela sabe. Isso cria uma linha invisível entre nós. Não de ameaça, mas de atenção. Quando a aula entra numa pausa, ela se aproxima do banco, entrega uma garrafa d’água para uma das meninas e então, sem olhar direto, fala comigo. — Aquilo de ontem… — começa. — Não precisa — corto. Ela se vira, finalmente me encarando de frente. — Eu preciso. — Cruzo os braços. — Então fala. — Eu não concordo — diz. — Mas entendo. Minha mandíbula trava. — Não pedi concordância. — Eu sei. — Ela respira fundo. — Mas precisava saber se eu estava segura aqui hoje. Direta. Corajosa demais para alguém naquele lugar. — Está — respondo. — Enquanto fizer exatamente o que está fazendo agora. — E o que é isso? — pergunta. — Não se metendo no que não é seu. — E se algo acontecer com as crianças? — Olho ao redor. Duas mães observam de longe. Um dos meus homens está encostado no muro oposto, discreto. — Não vai acontecer. — Você não controla tudo — ela diz, sem acusação. Dou um meio sorriso frio. — Aqui, controlo o suficiente. — Ela parece aceitar. Não por submissão, mas por leitura correta do ambiente. — Então está bem — diz. — Eu fico. Essa frase ecoa errado dentro de mim. Ela não perguntou, não pediu permissão, apenas… informou. Volto a olhar a quadra, tentando encerrar aquilo. — Não confunda tolerância com a******a — digo. — Esse lugar cobra e cobra caro. — Eu sei — ela responde. — Mas também devolve. — Essa frase fica no ar mais tempo do que deveria. Eu me afasto um passo. — Hoje, tudo bem. Amanhã… a gente vê. — Ela assente, simples. — Amanhã, então. Subo a escada com passos controlados, cada degrau pesa mais do que devia. Não gosto de gente que volta depois de ver demais. Não gosto de curiosidade onde deveria haver medo. E não gosto, principalmente, da sensação incômoda de que estou observando alguém que não vai embora tão cedo. Do alto, olho a quadra mais uma vez. Ela não me procura. Não olha para cima. Não tenta medir reação. Só continua. Ensina. Existe. Ocupa espaço. E isso é um problema. Porque o morro aceita quem aprende rápido, mas cobra caro de quem decide ficar. E ela… acabou de decidir.
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