Capítulo 16 — A Decisão

912 Palavras
Laura Eu passo a noite inteira acordada, não porque não consigo dormir, mas porque não consigo decidir. O teto do quarto vira um palco silencioso onde tudo se repete: as crianças rindo alto enquanto tentam copiar meus passos no cimento rachado, os pés descalços batendo na quadra improvisada, os olhinhos atentos brilhando quando acertam um giro ou um equilíbrio. Maria Clara com as tranças coloridas pulando para me abraçar no final, Lucas fingindo que não liga, mas sempre voltando para o círculo com um sorriso tímido. E depois, como uma lâmina atravessando o cenário inteiro, a arma na mão dele, Kai. O nome surge sozinho, como se tivesse permissão para entrar na minha cabeça. Eu vi quem ele é, ou pelo menos uma parte. A parte que mata. A parte que ameaça. A parte que manda sem precisar gritar. E mesmo assim… a imagem que mais me persegue não é a arma apontada para o rosto do homem ajoelhado. É o olhar dele quando me viu ali parada na rua lateral. O jeito como os olhos castanhos me reconheceram num segundo, sem surpresa, sem vergonha, sem tentativa de esconder. Como se eu já fosse parte do que ele controla, mesmo sem querer. Como se eu fosse risco que ele registra e guarda para o depois. Viro de lado na cama, puxo o cobertor fino até o queixo, o ventilador girando preguiçoso acima e jogando sombra no teto branco. — Não seja i****a, Laura — digo em voz baixa, como se alguém pudesse ouvir e concordar. Voltar não faz sentido, não é seguro e nem racional. Imagina o que minha mãe falaria se soubesse? Ela ia surtar só de imaginar eu pisando lá de novo depois do que vi. Não é o que qualquer pessoa sensata faria depois de ver um homem apontar arma na cara de outro com a calma de quem pede café. Mas então… lembro da pequena Júlia, que sempre chega antes de todo mundo, mochila pendurada no ombro e sorriso tímido esperando na porta da quadra. Do Lucas, que finge que não gosta de dançar, mas nunca perde uma aula, olhos baixos, mas corpo tentando o giro com vontade. Do jeito como eles seguram minha mão como se eu fosse uma promessa que não pode quebrar. Eles não têm escolha. Eu tenho. E essa diferença pesa no peito como uma pedra pesada. Levanto da cama e caminho até a janela, o piso frio sob os pés descalços. A cidade dorme tranquila lá embaixo, luzes amarelas dos postes, carros passando devagar na avenida, tudo limpo e organizado. O morro não dorme assim. O morro pulsa, mesmo à noite, luzes tortas nas casas empilhadas, moto ronrando em algum beco, alguém gritando nome de filho que ainda não voltou. — Eu disse que voltaria amanhã — murmuro para o vidro embaçado, vendo meu reflexo pálido e olhos cansados me encarando de volta. E eu não sei quando promessas viraram algo tão sério pra mim. Respiro fundo, o ar entrando nos pulmões. É pelas crianças, claro que é, não posso deixar o projeto, assim, não quando tem crianças esperando por mim. É pelo pouco que posso oferecer naquele canto de cimento e poeira. Pelo espaço seguro que aquelas aulas criam no meio do caos. Repito isso como um mantra, tentando acreditar nas minhas próprias palavras, tentando me convencer que é o melhor a se fazer. Mas, no fundo… bem, no fundo… onde a verdade mora sem pedir licença… eu sei que não é só por isso. Porque se fosse apenas pelas crianças, eu não estaria lembrando do jeito como Kai ocupa o espaço. Não estaria sentindo aquele arrepio estranho só de pensar em cruzar com ele de novo. Não estaria curiosa demais para alguém que deveria estar fugindo o mais rápido possível. Ele é perigoso, disso eu tenho certeza. Ele é tudo o que minha mãe me alertaria pra evitar, o homem que manda com arma na mão, que resolve problema com ameaça fria, que não hesita. Tudo o que não combina com o meu mundo organizado, claro, limpo, com ensaios e palcos me cobrando perfeição. E ainda assim… existe algo nele que me puxa. Não como um convite doce. Como um desafio. Como se ele fosse uma porta que eu não deveria abrir… e justamente por isso não consigo parar de encarar. Volto para a cama, pego o celular da mesinha de cabeceira. A tela ilumina o quarto escuro, a mensagem da ONG ainda aberta: “Aula amanhã, mesmo horário?”. Meus dedos pairam sobre o teclado. Um segundo. Dois. Três. Eu poderia dizer que não. Inventar uma desculpa, dizer que meu tornozelo está doendo, ou que minha mãe está doente, qualquer coisa que salve a minha pele ou a minha sanidade. Mas eu digito rápido, antes que a cabeça convença o coração a parar: “Sim. Estarei lá.” O envio acontece rápido demais para eu voltar atrás. O coração dispara de novo, meu estômago se apertando como nó. Fecho o celular e jogo no travesseiro ao lado. — É só pelas crianças — digo em voz alta, tentando convencer o quarto vazio. E eu sei… no instante em que aceito isso… que amanhã, quando eu subir aquele morro de novo, não vai ser só por elas. Vai ser também para descobrir até onde esse perigo chega. E se eu sou forte o bastante para não cruzar a linha, ou louca o bastante para querer chegar ainda mais perto dela.
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