Laura
Chego em casa sem lembrar direito do caminho.
As pernas me trouxeram no piloto automático, ruas passando em um borrão, o barulho da cidade abafado como se eu estivesse debaixo d'água. A porta bate atrás de mim. A mochila cai no chão com um som oco, elásticos e giz rolando pra debaixo da cama. E eu… fico parada ali, no meio do quarto.
Sem ar.
Sem voz.
Sem chão.
Meu coração ainda tá correndo morro acima, tentando alcançar o resto de mim que ficou lá, congelado na frente do galpão. A cena não sai da cabeça, rodando em um loop c***l, a arma na mão dele, o cano encostado na cara do cara ajoelhado, o homem tremendo como vara verde, a frieza absoluta no rosto do Kai. A força contida demais naquele corpo, ombros largos sob a camiseta preta, tatuagens aparecendo no braço quando ele segurava o ferro firme, sem tremor. A ameaça explícita na mão que não vacilava, no olhar que não piscava.
E os olhos dele…
Meu Deus!
Não eram os mesmos de antes.
Não tinha proteção, nem vigilância, nem aquela mistura de sombra e luz que eu senti nas outras vezes.
Só tinha o rei.
O verdadeiro.
Cruel.
Perigoso.
Inabalável.
E eu vi.
Eu o vi de verdade, sem filtro, sem explicação bonitinha depois.
Sento na cama sem sentir as pernas, o colchão afundando devagar sob o peso. Os dedos tremem quando passo as mãos no rosto, tentando afastar o suor frio que ainda gruda na pele. O estômago vira um nó duro, quase doloroso, como se eu tivesse engolido pedra.
— O que você tá fazendo, Laura? — sussurro pra mim mesma, minha voz saindo rouca e baixa no quarto silencioso.
Olho para o teto, para as paredes brancas com os quadros de bailarinas que parecem me julgar agora, para qualquer canto que não seja a memória dele apontando aquela arma. E falho. Porque a imagem de Kai em pé, firme, perigoso como predador que decide se mata ou poupa, o cano encostado na cara do homem que quase chorava. E ele nem se abalou quando me viu ali parada na rua lateral. Nenhum músculo do rosto tremeu, nenhum olhar de surpresa ou vergonha. Apenas… me reconheceu. Um segundo de olho no olho, como se registrasse “ela viu”, e voltou para o que tava fazendo. Como se aquilo fosse normal. Rotina. Costume.
Quem eu estou tentando enganar? Com certeza essa é a rotina dele.
No quarto, minha respiração ecoa alta e curta no silêncio da casa. Minha mãe ainda não voltou do trabalho — graças a Deus —, a cidade lá fora parece muito longe do morro agora, como se eu tivesse cruzado um portal e voltado diferente. Cubro o rosto com as mãos, dedos frios na pele quente, tentando respirar fundo pra acalmar o peito que sobe e desce rápido demais.
— Você não pertence àquele lugar, Laura — digo, repito, tento acreditar, voz mais firme agora.
Mas a verdade lateja, c***l e simples, eu não tenho medo do morro em si, das ladeiras, da poeira, das crianças correndo descalças. Tenho medo dele. Do que ele representa. Do que ele pode fazer com aquela calma toda. Do que eu não deveria sentir olhando pra ele.
E, mais do que tudo… tenho medo do quanto parte de mim não conseguiu desviar o olhar rápido o bastante. Porque mesmo com a arma na mão, mesmo com a ameaça escancarada, mesmo no pior momento para pensar nisso… ele ainda era bonito. Bonito de um jeito errado. Perigoso. Fatal. Corpo forte que segura o mundo nos ombros, olhar que pesa sem precisar de palavra. O tipo de beleza que faz o corpo reagir antes da cabeça mandar parar, calor subindo, um arrepio que não é só medo.
Levanto da cama de repente e vou até o espelho do guarda-roupa, encarando o reflexo, pálida, olhos arregalados, ainda chocados, boca seca como se tivesse corrido quilômetro.
Pareço que vi um fantasma, mas não vi fantasma. Vi um homem real. Um homem que leva o perigo no corpo e a ordem no olhar. E vi esse homem quase matar alguém com a calma de quem toma café.
— Você precisa parar, Laura — digo firme para o reflexo, voz saindo mais alta no quarto vazio, apontando o dedo pra mim mesma como minha mãe faria. — Precisa. Amanhã você liga pra ONG, desiste do projeto, volta para os ensaios na companhia. Fim.
Mas a voz sai mais fraca do que deveria, tremendo no final como se duvidasse. Fecho os olhos com força, tentando apagar tudo.
Só que no silêncio do quarto, a verdade se instala de um jeito teimoso, eu deveria nunca mais voltar ao morro. Deveria nunca mais olhar na direção dele, nem pensar no nome Kai. Deveria correr o mais rápido possível para longe daquele lugar e daquele homem, ligar para minha mãe e pedir desculpa, voltar para o mundo seguro de sapatilhas e espelhos.
Mas… mesmo tremendo, mesmo assustada com a imagem da arma que não sai da retina, mesmo sabendo que é errado e perigoso pra c*****o… uma parte minha, a mais i****a, a mais humana, a que sentiu o corpo reagir quando ele tava perto, quer olhar de novo. Quer entender por que ele parou a briga dos moleques ontem, mas resolve corte de carga com ferro na cara hoje. Quer confrontar, perguntar, sentir aquele arrepio estranho de novo que mistura medo e algo que não nomeio.
E isso… isso é o que mais me apavora. Porque amanhã eu deveria ficar em casa, ligar para Sandra da ONG e inventar uma desculpa qualquer, tornozelo doendo, mãe doente, qualquer coisa.
Mas a imagem das crianças esperando, das tranças coloridas e do menino tímido tentando girar, pesa mais que o medo da arma. E a imagem dele pesa mais ainda, de um jeito que odeio admitir.
Deito de novo, puxando o lençol fino para o peito, o ventilador girando acima como se tentasse afastar o calor que não é só do dia.
Eu não vou voltar.
Não posso.
Não depois do que vi.
Mas quando apago a luz e fecho os olhos, a última coisa que penso é no olhar dele me reconhecendo, não assustado, não arrependido. Só registrando.
E isso me deixa acordada por horas, com o coração ainda martelando forte no peito.