Kaique
O dia estava indo bem demais.
E no morro, isso sempre significa que uma merda vai acontecer, como se o equilíbrio frágil que mantenho com unhas e dentes estivesse esperando só o momento pra desabar.
O sol do fim da tarde já tá caindo laranja nas lajes, o calor diminuindo devagar, mas o ar ainda pesado.
Estou na parte de trás do galpão, onde ninguém curioso costuma aparecer porque sabe que ali é território de resolução, não de conversa fiada. É onde chegam as cargas pela viela estreita, onde descarregamos sem plateia, onde resolvo problemas antes que virem histórias que correm de boca em boca e chegam nos rivais.
A caixa tá aberta no chão, pacotes espalhados, mas a contagem não fecha, falta peso, falta volume, falta o que calculei na cabeça antes mesmo de abrir. Eu me agacho devagar, pegando um dos pacotes com a mão, sentindo o embrulho frouxo onde deveria estar apertado.
— Falta coisa — digo, sem levantar a voz.
O responsável pela entrega, um sujeito magro demais para o tamanho da arrogância que carrega, olhos nervosos piscando rápido, camiseta de time, sua testa começa a escorrer na hora.
— Não, chefe, juro que veio assim — gagueja, voz saindo fina e apressada, mãos levantadas num gesto de inocência que não convence ninguém, especialmente eu que conto isso há anos.
— Mentira do c*****o — corto, levantando devagar com o pacote na mão, apertando o embrulho frouxo pra mostrar o espaço vazio onde deveria ter mais. — Você acha que eu sou i****a, seu filho da p**a? Que não peso na entrada, não conto na hora, seu cuzão?
Brunão e Teto estão atrás de mim, silenciosos como sempre nessas horas, o tipo de silêncio que pesa mais que palavra, que faz o ar ficar denso e o outro suar mais.
Brunão cruza os braços grossos, olhos fixos no cara sem piscar. Teto coça a barba rala, boné virado pra trás, mas não ri dessa vez, ele sabe que hora de contagem errada não é hora de piada.
Levanto o pacote para o nível dos olhos dele, balançando devagar para ele ver o erro claro.
— Você cortou dois — digo. — Um pra você, outro pro seu parceiro. Achou que eu não sacar, seu arrombando?
O cara empalidece na hora, a cor sumindo do rosto como se eu tivesse sugado o sangue, olhos arregalados piscando rápido demais.
— Chefe… eu… posso explicar, eu…
Puxo a arma da cinta num movimento rápido, sem grito ou cena desnecessária que atrai curioso. Encosto o cano no rosto dele mais rápido do que o ar entre nós permite reação e pressiono sua bochecha, suficiente pra ele sentir o peso.
— Explica — digo, olhos fixos nos dele sem piscar.
Ele começa a tremer, as pernas magras balançando como se fossem ceder, mãos levantadas alto com palmas abertas em rendição, o olhar perdido procurando saída que não tem.
— Eu… eu… não fiz por m*l… é que… me ameaçaram lá embaixo na entrega… eu…
— Mentira — respondo, pressionando o cano um pouco mais pra ele sentir o lembrete. — Se tivessem te ameaçado de verdade, você teria vindo falar comigo na hora, pedido proteção ou divisão justa, mas você quis fazer sozinho, cortar pro bolso e pro comparsa. Erro burro.
A arma não treme na minha mão, anos de prática mantêm firme, o peso é familiar como extensão do braço. Ele treme por mim, o corpo inteiro vibrando, suor pingando no chão.
Brunão dá um passo à frente ao meu lado, voz grave cortando o silêncio.
— É pra resolver agora, Kai? Enterrar o erro?
Penso rápido, vendo o pânico crescendo no rosto do cara. Vejo o erro dele claro como sol, corte amador, arrogância de quem acha que pode roubar do chefe sem pagar um preço.
— Ainda não — digo, mantendo o cano firme. — Ele tem chance de abrir a boca direito. A arma continua apontada, o silêncio pesando mais que o metal. — Você tem uma chance pra abrir a boca e me dizer quem é o outro lado dessa p***a, quero o nome do comparsa, o mandante, a p***a toda. Se mentir de novo, eu te enterro aqui mesmo, atrás do galpão, sem nome na lápide.
Ele engole seco, abre a boca pra falar algo que talvez salve a pele…
E então vejo ela.
Laura.
No limite da rua lateral que dá para o galpão, mochila no ombro como sempre, quase indo embora depois da aula, parada com o corpo tenso como se tivesse batido numa parede invisível, olhos azuis arregalados fixos na cena, na arma apontada, no meu rosto tenso sem máscara, no homem quase chorando de joelhos diante de mim.
A expressão dela muda como se tivesse levado um soco no estômago, a cor sumindo do rosto, boca abrindo levemente em choque, a mão apertando a alça da mochila como se precisasse de uma âncora.
O morro inteiro parece parar com ela, o vento sumindo, o barulho distante das crianças na quadra morrendo, até o chiado de uma moto na rua principal pausando como se sentisse o peso.
Ela vê tudo, e entende, num piscar de olhos, quem eu sou de verdade, sem filtro ou versão educada. Entende como esse lugar funciona, regra com bala, resolução sem polícia, equilíbrio mantido no cano da arma.
Entende que a versão que viu antes, o cara que desceu para parar briga de moleque, que explicou regra sem gritar, era só uma fração, a parte que mostro para as crianças e para as mães.
Ela recua um passo automático, depois outro, virando o corpo devagar como se o instinto gritasse fuga. E, sem dizer nada, sem gritar ou falar nada, vira e sai andando rápido, quase correndo, a mochila balançando no ombro, passos ecoando na viela lateral até sumir na curva.
Algo dentro de mim se agita, desconfortável como pedra no sapato que não sai. Raiva dela por ver e julgar sem conhecer o todo? Culpa por não ter fechado a porta do galpão melhor? Indiferença que finjo, mas não sinto? Não sei nomear, mas não gosto, aperta o peito como um nó.
O homem ainda está na minha mira, tremendo mais agora com o silêncio que caiu, mas minha cabeça não está mais nele, olhos seguindo o vazio onde ela sumiu. Brunão percebe rápido, e diz baixo ao meu lado.
— Ela viu tudo, chefe.
— Eu sei — respondo, baixando a arma devagar, o metal frio voltando para o coldre na cintura.
— Isso é r**m? — pergunta, cruzando os braços de novo, olhando para o mesmo vazio da rua lateral.
Não respondo de imediato, guardando a arma e chegando mais perto do entregador, que ainda está de joelhos, respirando rápido como se esperasse o tiro que não veio.
Talvez tenha sido bom, agora ela conhece a verdade crua e talvez desista de subir, volta para o asfalto seguro onde gente como ela pertence, sem risco de bala perdida ou briga que escala. Talvez seja r**m, as crianças que esperam ela vão perder, perder o riso que ela traz para quadra. E eu? Perco… o quê? O incômodo que ela causa só de existir aqui.
Chego mais perto do cara, agachando para ficar no nível dos olhos dele perdidos.
— Amanhã, às sete da manhã — digo, com o dedo apontando para o rosto dele. — Quero você aqui com a história toda. Se tentar meter o pé ou mentir mais uma vez… — Dou um leve sorriso sem humor. — Vou atrás, e te acho mais rápido do que pode imaginar.
Ele assente no mesmo instante, quase batendo a cabeça no chão, sai mancando para fora do galpão, tropeçando na porta entreaberta e sumindo na viela sem olhar para trás.
Brunão se aproxima quando o cara some, voz baixa e prática.
— Vai atrás dela agora? Explicar, ou mandar recado?
— Não — respondo, levantando devagar, passando a mão no rosto pra limpar o suor que escorre.
— Tem certeza? — insiste ele, olhando para o vazio da rua lateral onde ela sumiu minutos atrás.
Solto o ar devagar, sentindo o peito apertar com o incômodo que não nomeio.
— Deixa ela ir. Se viu e correu, é porque entendeu o que precisava.
— E se ela não voltar amanhã? As crianças vão perguntar, as mães vão comentar.
Dou de ombros, virando para fechar a caixa no chão com o pé, o pacote frouxo rolando para o canto.
— Talvez seja melhor assim. Ela fica no mundo dela, seguro, sem risco de ver mais que isso. — Brunão me olha de lado, o meio sorriso irônico voltando devagar.
— Não parece que você acha isso de verdade, chefe. Tá com cara de quem perdeu algo. — Reviro os olhos, irritado comigo mesmo por deixar transparecer o que não devia, começando a andar para longe do galpão.
— Se ela ficou com medo, é porque viu certo — digo, dando de ombros — Melhor assim do que achar que esse lugar é seguro, que dá pra dançar sem olhar pros cantos.
Mesmo dizendo isso, há um incômodo preso no fundo do peito, um fio de algo que não sei nomear, raiva dela por correr sem perguntar, raiva de mim por não ter fechado melhor a porta do galpão, ou só irritação por me importar com o olhar dela mudando, com o recuo que doeu como se fosse em mim. A resposta não importa agora, o dia acabou, a carga está errada, e amanhã tem mais.
Ela viu a verdade nua, a arma na mão, o medo no rosto do outro, o controle que exerço sem piedade. E a verdade assusta, principalmente pessoas como ela, onde problema se resolve com conversa ou polícia. E talvez eu prefira que ela tenha medo, que desista e volte para seu lugar, com coque perfeito e sapatilhas limpas.
Talvez seja mais fácil assim, para ela e para mim também.