Capítulo 12 — O Despertar do Desejo

1258 Palavras
Laura Jogo a mochila no chão do quarto com um baque surdo que ecoa no piso de madeira polida, o zíper abrindo um pouco e deixando escapar um elástico colorido que rola até a parede. Me deixo cair na cama como se meus ossos tivessem derretido depois de um dia inteiro em pé no cimento quente, o colchão macio afundando sob o peso do corpo exausto, o ventilador de teto girando preguiçoso e soprando ar fresco que não chega a refrescar de verdade. O quarto tá escuro agora, só a luz fraca do abajur de canto iluminando as paredes brancas com quadros de bailarinas clássicas que minha mãe pendurou anos atrás, sombras dançando devagar como fantasmas de ensaios antigos. O corpo ainda está tenso, músculos das pernas latejando do esforço da subida e descida, tornozelo com uma fisgada surda que lembra o gesso recente. O coração ainda está acelerado, batendo num ritmo que não explica só pelo cansaço ou pela briga na quadra. E tudo por causa dele. Kai. Repito o nome baixinho, só pra sentir como ele ecoa dentro de mim, a palavra saindo rouca na garganta seca. Kai. Curto, direto, afiado como o olhar dele. Combina perfeitamente com o que vi, alto, forte, feito de linhas duras que não pedem licença. Passo as mãos no rosto, esfregando os olhos cansados pra tentar acalmar a respiração que sai curta, mas toda vez que fecho os olhos por um segundo, vejo a cena de novo, clara como se estivesse acontecendo agora: o empurrão dos moleques perto do portão, a confusão subindo rápido, meu corpo se metendo no meio sem pensar duas vezes, mãos erguidas tentando separar braços agitados. E ele aparecendo do nada, descendo a escadaria como se fosse parte do próprio chão do morro, voz grave cortando o ar e parando tudo, os moleques congelando, o tempo parando, o perigo recuando sem tiro ou grito. A forma como a presença dele ocupou o espaço inteiro, sem esforço, como se o morro respirasse por ele. A pele morena marcada por tatuagens que serpenteiam no braço visível, não decorativas, mas histórias escritas à força, linhas pretas grossas que contam brigas ou perdas que eu nem quero imaginar. O corpo forte, ombros largos sob a camiseta preta colada no suor, postura dominante que não precisa erguer a voz pra mandar. E o olhar… o olhar castanho fundo que pesou em mim por um segundo a mais, não como se eu fosse frágil ou fascinante, mas como se estivesse catalogando risco, me encaixando na equação dele de território e equilíbrio. Solto um suspiro longo e frustrado, virando de lado na cama e puxando o travesseiro para o peito, o tecido fresco contra a bochecha quente. Droga. Ele é bonito. Muito bonito, do jeito que não se encontra em lugar nenhum da Zona Sul, não escultural de academia com dieta perfeita, não delicado de modelo de revista. É uma beleza selvagem, bruta, animal, barba por fazer, músculos que vêm de vida real e não de halteres, tatuagens que parecem significar algo pesado, olhar que prende sem sorrir. O tipo de beleza que não pede permissão pra existir, que ocupa espaço e faz o ar mudar ao redor. E isso me desestabiliza, faz meu estômago dar um nó que sobe para o peito, calor subindo para o rosto apesar do quarto fresco. Quando ele se aproximou, perto o suficiente para eu sentir o cheiro de suor misturado a terra quente e algo masculino que não identifico, meu corpo reagiu sem autorização, um calor súbito entre as pernas, uma umidade traidora que me pegou de surpresa, como se o perigo dele tivesse ligado um interruptor que eu nem sabia que existia. Fiquei molhada. Só com a presença, com a voz grave dizendo “você não pode se meter”, com o olhar que não invadia mas segurava. Molhada como se o corpo soubesse antes da cabeça que ele é risco puro, mas risco que atrai. Viro de barriga pra cima, encarando o teto branco que eu já conheço de cor, tentando organizar pensamentos que giram como as crianças na quadra hoje, desajeitados, mas insistentes. “Já deve a mim por estar aqui”, ele disse, tom prático sem arrogância extra, mas com o peso de quem sabe que o morro ouve. Arrogante, sim. Prepotente, talvez. E, de alguma forma ridícula, certo, eu não sei as regras daquele lugar, as linhas invisíveis de território que um empurrão cruza, as divisões que uma palavra errada acende. Eu não faço ideia das pessoas que se respeitam ou se odeiam nos becos, das histórias que as cicatrizes escondem. E ele… ele vê tudo. Enxerga antes de todo mundo, inclusive e principalmente, antes de mim, o desconforto com o supervisor ontem, o risco da briga hoje, o limite que eu quase cruzei sem mapa. E isso me irrita, porque eu sempre fui a que calcula o passo, a que sabe o equilíbrio no palco ou no estúdio. Mas também me deixa… inquieta, um formigamento na pele que não é medo mas algo quente, súbito, proibido. Porque quando ele disse “presta atenção”, não foi aviso hostil de chefe mandando; foi quase proteção, voz baixa explicando regra pra eu não cair no buraco seguinte. Quase. A palavra me queima por dentro, como se eu estivesse romantizando o que não devo. Me sento na cama de repente, encostando o queixo no joelho dobrado. Kai é problema, um problema que anda com passos firmes, fala baixo mas corta ar, provavelmente atira se precisar. Um problema lindo de morrer, com músculos esculpidos pela vida dura. E isso é o tipo de combinação que leva uma mulher à ruína, adrenalina confundida com desejo, proteção virando atração que não controla, umidade traidora entre as pernas só com a proximidade dele. Seguro o travesseiro com força, apertando o tecido macio contra o peito como se pudesse espremer o pensamento pra fora. — Laura… você não vai se meter com ele — murmuro pra mim mesma, voz baixa no quarto vazio. Eu sei disso que ele é o risco que minha mãe sempre avisou, com notícias de jornal e “fica longe de favela, filha”. Meu corpo… nem tanto. Ele reage sozinho: calor nas bochechas lembrando o olhar dele, respiração curta revivendo a presença que ocupou o espaço, o latejar na i********e só de lembrar o cheiro de suor e terra quente dele perto. E o pior, a forma como ele ficou perto sem invadir, como se soubesse exatamente onde parar, a fronteira exata entre segurança que protege e tentação que queima. Não forçou conversa, não sorriu falso, não tocou. Só explicou regra e saiu, deixando o ar mais pesado que antes. Deito de novo, virando de lado e puxando o lençol fino para o peito, o ventilador girando como se tentasse refrescar pensamentos quentes. Eu não posso sentir isso, não posso sentir desejo por um homem perigoso que manda no morro, não posso confundir adrenalina com algo mais profundo. Eu não devo me deixar levar por rosto bonito, músculos reais ou olhar que pesa sem palavra. Eu não vou. Mas quando fecho os olhos pra tentar dormir, o último pensamento que tenho é o que mais odeio admitir, eu não quero ver ele amanhã na quadra ou na descida, mas sei que vou procurar sem perceber, olhos varrendo a escadaria ou as sombras, corpo reagindo se ele aparecer de novo, acelerado, quente, molhado. E isso é o começo de uma queda. Literalmente, no equilíbrio que eu achava que tinha reconquistado.
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