Capítulo 11 — O Problema

1900 Palavras
Kaique Estou no alto da escadaria lateral que leva à laje, encostado no corrimão. O ar está úmido e pesado, o morro segue normal: mães chamando nomes das portas entreabertas, um vendedor de sacolé gritando “um real, gelado!” Mas o zumbido muda de repente, um alerta que eu sinto na espinha antes de ver, o tipo de som que o morro faz quando algo sai do roteiro, quando brincadeira vira faísca pronta para acender. Levanto a cabeça na mesma hora, instinto subindo como sempre, coração dando um pulo prático que não é pânico, mas cálculo rápido. O barulho vem do portão lateral da quadra, onde duas figuras pequenas discutem alto, empurrões, grito, o tipo de briga que começa com palavra errada e termina com punho. Uma das mães na porta da quadra já tá de pé, mão na boca, sussurrando “não, meninos, para com isso…”, e eu sinto o ar denso como antes de chuva pesada. Brunão já está comigo antes de eu piscar de novo, ele surge da curva da escadaria como sombra que se materializa do nada, passos pesados, mas silenciosos, o corpo grande bloqueando parte do sol. Seus olhos castanhos varrem a cena rápido. — Que foi isso? — pergunta, inclinando a cabeça para o portão sem elevar o tom. — Movimento errado — respondo, já me mexendo para o lado da quadra. Descemos juntos para o portão, não correndo, aqui, quem corre mostra medo ou culpa, e medo atrai mais problema como sangue na água. Passos firmes, eu na frente abrindo caminho com o ombro, Brunão atrás cobrindo as costas. As crianças na quadra param o que fazem, cabeças virando curiosas para o portão. Quando chegamos mais perto, a cena se desenha nítida: dois moleques discutindo feio perto do portão lateral, um deles é da rua de baixo, território que não é nosso, pele clara e camiseta do Flamengo rasgada na manga, uns 13 anos, olhos nervosos, mas bravos inchados de raiva, o outro é daqui da Vila, magrinho com boné virado pra trás e short de futebol puído nos joelhos, respondendo com grito que ecoa na quadra vazia e faz as mães na porta se mexerem inquietas. E no meio… ela. A bailarina, a professora que voltou hoje sem pestanejar. Tentando separar os dois com palavras calmas que não funcionam nesse dialeto cru de rua, corpo magro enfiado entre os braços agitados dos garotos, mãos erguidas como escudo frágil, voz suave cortando o ar: “Chega, chega, isso não resolve nada. Respirem, olhem um pro outro”. Porra. Ela não sabe o jogo completo ainda, não sabe que empurrão vira ameaça num piscar de olhos, que território é linha invisível traçada em poeira e memória que não perdoa pisada errada de forasteiro. — Laura, sai daí — diz uma das mães na porta, voz nervosa e rouca cortando o ar. Tarde demais, o garoto de fora empurra o outro, o daqui reage e o empurrão vira ameaça. E ameaça, no morro, vira convite. — Se um dos dois encostar nela, vai se ver comigo — digo, voz grave, ecoando na quadra vazia e fazendo o tempo parar no lugar, os dois moleques congelando no meio do movimento como estátuas. Os punhos param no ar, olhos arregalados virando pra mim como se eu fosse o juiz final que ninguém quer enfrentar. Ela vira para mim na hora, e os olhos dela me encontram, arregalando um pouco não de medo, mas de reconhecimento misturado a alívio, o peito subindo rápido. — Eu só estava tentando ajudar — diz ela rápido, voz saindo mais alta que o normal no calor do momento, mãos erguidas como se ainda separasse os garotos. — Eu sei — respondo, voz baixa, mas clara ecoando na quadra, dando um passo para o lado pra bloquear a linha dos moleques com o ombro, ocupando espaço sem esforço enquanto cruzo os braços. — Mas aqui não é lugar pra isso. Sai daí, Laura, deixa a gente resolver. Faço um gesto curto com a mão, apontando para o garoto de fora primeiro, pele clara corando de raiva e medo. — Você. Quem te deixou subir até aqui sem aviso ou olheiro? — pergunto, voz sem grito, mas pesada o suficiente pra fazer o outro engolir seco. — Ninguém, não… eu só vim ver o jogo na quadra, aí o moleque… — Desce — corto, sem elevar o tom, inclinando a cabeça para o caminho da rua principal que desce a ladeira, o sol batendo nos olhos dele e fazendo piscar. — Agora. E não sobe de novo sem falar com alguém daqui primeiro. Vai. Ele hesita por um segundo, olhando para os lados nervosos e se depara com Brunão que surge atrás dele como sombra grande e silenciosa. Decide certo rápido, vira o corpo magro e vai embora. O outro garoto fica parado onde tá, respirando rápido pelo nariz dilatado, punho ainda cerrado. — Vai pra casa — digo pra ele, voz calma, mas final como ordem que não precisa repetir, gesticulando com o queixo para o portão da quadra. — Depois a gente conversa direito. Primeiro vou falar com seu pai. O moleque assente mudo, e some correndo pela porta lateral da quadra. O barulho ao redor diminui devagar como onda recuando, crianças soltando o fôlego em sussurros curiosos e baixos, mães relaxando as mãos na porta e voltando para os filhos com acenos nervosos. Ela está parada onde ficou no meio da confusão, mãos fechadas ao lado do corpo pra parar o tremor, peito subindo e descendo rápido. Sinto os olhos dela em mim agora, atento, e viro devagar, encontrando o rosto dela. — Você se machucou? — pergunto, com a voz baixa, dando um passo para o lado, olhando rápido para o braço dela, onde o empurrão quase pegou. — Não — responde rápido, voz saindo firme, esfregando o braço de leve, olhando para os lados pra ver se as crianças estão bem. — Vem comigo — digo, gesticulando curto com a cabeça pra escada lateral que leva para os cantos mais afastados da quadra, voz sem ordem, mas com o peso prático de quem sabe que conversa assim não rola na frente de plateia. Ela franze a testa, cruzando os braços instintivo sobre o peito. — Pra onde? A aula não acabou, as crianças… — Pra longe daqui. Dois minutos — respondo, sem elevar o tom, olhos fixos nos dela por um segundo que pesa o suficiente pra mostrar que não é convite, mas necessidade. — Pra eu explicar direito como funciona as coisas por aqui. Ela hesita, olhando para as mães na porta que acenam “vai, Laura, a gente cuida delas por enquanto”. Só um segundo de dúvida clara no rosto dela, o risco de ir comigo para um canto afastado da quadra, o instinto que grita cuidado pra forasteira, depois ela concorda com a cabeça, os pés se mexendo na minha direção. — Certo, mas rápido, as meninas tão esperando o próximo passo. Caminhamos até um canto mais afastado da quadra, perto da escada lateral que sobe para as lajes altas e isoladas, fora do campo de visão direto das crianças e mães que voltam ao burburinho normal. O ar tá mais quieto aqui, o barulho da quadra sumindo atrás da parede de tijolo, só o vento leve balançando um varal de roupa próxima. Eu paro, braços soltos nos lados, me mexendo prático como se soubesse que perto demais assusta mais que ajuda. — Você não pode se meter no meio de briga aqui — digo, olhando pra ela de frente pra ver se entende. — Mesmo quando acha que tá fazendo o certo, tipo separar dois moleques com conversa calma. Aqui, isso deixa você no meio do fogo cruzado. — Eu não podia deixar aquilo escalar — rebate ela, cruzando os braços sobre o peito. Os olhos azuis, lindos demais para o próprio bem dela, fixos nos meus, contrariados, mas não bravos. — São crianças, o que eu poderia fazer? Fingir que não estou vendo e deixar eles se machucarem? — Não são só crianças — respondo, inclinando a cabeça de leve pra enfatizar. — São parte de um território maior. Um empurrão vira ameaça porque território não se resolve com conversa bonita ou boa intenção. Aqui, quem se mete sem saber o lado vira alvo no rebote, e rebote sempre machuca ps mais fracos. Ela me encara, contrariada o suficiente pra franzir a testa, não é sermão de chefe, é fato prático, como o sol que queima a pele ou o chão irregular que faz tropeçar. — Então o que eu faço na próxima? Fico parada olhando enquanto eles se machucam? Chamo você toda vez que algo sai do roteiro da aula? — Você chama alguém daqui — digo, gesticulando. — Chama a mim, ou qualquer um dos meus homens que você vir por perto. A gente resolve sem você virar parte da briga, do nosso jeito, o jeito que a comunidade entende. Ela cruza os braços mais firme agora, defensiva, mas sem recuar um passo. — E se eu não quiser dever nada a você? Virar dependente de quem manda no morro pra uma aula de dança não virar caos? Eu dou um meio sorriso sem humor, o canto da boca subindo torto por um segundo e balanço a cabeça leve. — Você já deve, bailarina, pelo simples fato de pisar aqui e mexer no equilíbrio do dia. O que eu te falei é regra pra você não virar um problema maior pra todo mundo, incluindo as crianças que você veio ensinar. O silêncio pesa entre nós. Ela respira fundo de novo, a raiva virando algo prático que aceita. — Eu não quero causar problemas — diz, mais baixo agora, olhando para o chão, a voz saindo honesta apesar do cansaço visível nos ombros. — Só quero dar aula, ver elas girarem sem cair ou brigar por besteira. — Então aprenda as regras — respondo, endireitando o corpo e gesticulando para o caminho da quadra com o queixo. — Ou isso vai virar problema pra todo mundo. Não é ameaça vazia; é o morro, simples assim. Ela me observa como se tentasse entender o que sou. — Certo — murmura. — Vou prestar atenção da próxima. — A aula acabou por hoje — digo. — Elas tão bem, as mães cuidam do resto. Desce com calma, sem pressa. — Eu sei — responde, dando um passo para o lado pra voltar. Antes de ir de vez, para um segundo, me olhando. — Qual é o seu nome, afinal? Pra eu saber quem chamar, se precisar de verdade. Penso por meio segundo curto, o vento batendo no boné e bagunçando o ar entre nós. — Kai. — Ela assente devagar, guardando o nome como se fosse algo útil. — Laura. — Eu já sabia, mas assinto sem surpresa, sentindo o peito apertar um pouco quando percebo que ela escolheu me falar seu nome. Ela se afasta devagar depois. E enquanto observo o morro ao redor, sei apenas disso: ela não é imprudente de todo; só não entende o jogo completo ainda, as linhas invisíveis que traçam território. Agora que entendeu um pouco mais, com a explicação curta e o nome trocado… vai precisar decidir se continua jogando, se sobe de novo amanhã ou fica na segurança da sua casa.
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