Capítulo 5 — O Toque indesejado

858 Palavras
Kaique O fim da tarde colore o morro de laranja e sombra, com o sol de novembro batendo baixo nas lajes e esticando as vielas como linhas pretas no asfalto rachado. Da minha laje na Vila Alta, vejo o céu se dividindo em faixas quentes que tingem os telhados de zinco, enquanto o ar fica mais fresco, carregado de cheiro de feijão cozinhando nas panelas de pressão e gasolina das motos descendo pra base. O vento leve traz o som de crianças gritando na rua, misturado ao funk baixo tocando em algum rádio na laje vizinha. Eu me encosto na grade de ferro, ainda quente do sol, e acendo um cigarro, a fumaça subindo devagar enquanto olho pra quadra abaixo. A professora — a bailarina, como a galera já chama ela nos sussurros — tá guardando as coisas. Dobra o tapete fino que trouxe, enfia as sapatilhas na mochila de lona, ajeita o coque castanho suado que solta fios na nuca. As crianças correm pra ela em bando, abraçando as pernas magras, vozes altas: “Tchau, tia! Amanhã tem mais!”. Uma menininha de tranças coloridas pula pra um abraço extra, e ela se abaixa, rindo, mão na costas da garota. O riso dela sai claro, leve, sem o peso que a gente carrega por aqui, o tipo que ecoa fácil, como se o cansaço da aula virasse energia. Brunão surge atrás de mim, passos pesados na escada rangente. Para do meu lado, olhando para baixo com o boné abaixado. — Vai descer? — pergunta, voz grave, cruzando os braços tatuados. — Não — respondo, tragando o cigarro, sem virar. — Tem certeza? — insiste, cutucando com o cotovelo, o tom prático de quem sabe que mudo de ideia rápido. Não respondo, só fico olhando. Ela se despede das crianças com abraços rápidos, dá instruções para o dia seguinte. — Tragam elástico pro cabelo, vamos tentar fazer um laço — sorri pra uma mãe que busca a filha, sacola de feira no braço. “A menina adorou, tia, não parava de falar”. Tudo natural, direto, como se ela fizesse isso todo dia. Até o supervisor da ONG aparecer. Ele desce da caminhonete branca, placa do Centro, adesivo torto na porta, camisa social desabotoada, calça suja de poeira na barra, crachá balançando no pescoço. Jeito de quem nunca subiu beco sem mapa, de quem acha favela é parada no currículo. Aproxima rápido, passos apressados na calçada irregular, sorriso largo demais para o fim de tarde. Pelo jeito que inclina o corpo, mão estendendo perto do ombro dela, já sei, tipo que usa cargo para encurtar distância. — Esse aí tá querendo algo que não é dele.— Brunão murmura. Eu percebo. O Supervisor fala animado, gesticulando alto. — Ótimo trabalho, Laura, relatório tá bombando. — Ela sorri educada, mas dá passo para o lado toda vez que ele chega perto demais, vira quadril, ajusta mochila. Esquiva sutil, sem drama, inteligente, mas vulnerável. — A Professora não tá curtindo, não… Tá com o sorriso forçado. O Cara tá colando nela. Ela não curte e o supervisor continua, inclina mais, mão roçando o braço dela, leve, rápido, mas toque é toque. Algo acende em mim e meu peito aperta, se ele tocar nela de novo eu arranco seu braço fora. Não estou com ciúmes, é só meu instinto de proteção. Dou um passo para frente, pronto para descer e Brunão segura meu antebraço. — Kai, não se mete, só vai assustar ela, se o cara avançar demais sem que ela queira a gente interfere. Solto o braço, os olhos fixos neles e o supervisor tenta colocar as mãos no ombro dela, com a desculpa de mostrar algo no celular. Ela recua com um sorriso sem graça. Outro passo meu, Brunão não me para dessa vez, o homem está passando dos limites, na minha favela, ninguém toca uma mulher sem permissão, mas quando estou prestes a descer um voluntário grita. — Felipe! A caixa caiu da caminhonete, me ajuda aqui! O cara vira irritado, resmunga e vai tropeçando ajudar, a calça enroscando num buraco. A bailarina solta o ar, um suspiro longo, e os ombros dela relaxam em claro alívio, porque ele saiu, porque ela não gostou da abordagem dele e estava desconfortável. Ela ajeita mochila, e caminha morro abaixo, com passos firmes, apressados, querendo espaço. O vento bagunça seu coque, o sol toca a pele clara demais, ela está deslocada, mas ombros estão retos, corajosa. — Vai seguir ela? O Sol já tá caindo, a ladeira fica um pouco escura. — Teto fala. — Não. — Por quê? Olho a curva onde ela sumiu. Porque se eu chegar perto demais, mexo na vida dela, é melhor ela não conhecer meu mundo. — Ela não precisa de mim — digo. — Não quero complicar as coisas. — Vai ignorar ela? — Brunão diz com um meio sorriso. — Vou. — Até quando? Olho horizonte, com a noite caindo, e as luzes piscando. — Até eu decidir se ela é só uma professora… ou um problema. — E até lá, é melhor meu mundo não colidir com o dela.
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