CAPÍTULO 4

1532 Palavras
PEDRO CAVALLARI A insensatez que a juventude traz é passageira, os anos passam para nos fazer enxergar o quanto fomos burros, cegos e ignorantes. O tempo sempre cobra, mesmo que sejamos levados ao erro por nossos egos, adorando e exaltando os momentos efêmeros e a futilidade das aparências. Bolsos cheios e almas vazias. Eu precisei me reinventar seis meses atrás, não foi uma escolha fácil ou a minha escolha, eu apenas tive de fazer. Ponto. Tic Tac. O relógio não parou. Nunca vai parar. Descobri recentemente que o tempo é meu pior inimigo. Eu também ganhei um presente. Encaro a larga porta de madeira que separa meu quarto do quarto da mãe do meu filho e respiro fundo, Tomas dorme junto dela nesses primeiros meses e temo que ele seja afetado quando ela já não estiver aqui, mas não sou capaz de separar os dois, não tenho esse direito. Passo a mão pelo cabelo, depois o rosto e finalmente decido girar a maçaneta. Paro. Dou leves batidas na porta e espero até ouvir sua permissão para entrar, no quarto, meus olhos procuram por Tomas e só param quando o encontram dentro do berço, se agitando todo ao sentir o meu cheiro. Ele me conhece, seu pai. Ainda estou aprendendo a lidar com o peso das responsabilidades que peguei pra mim, contudo, serei forte por Mariah e meu filho. Ele tem cinco meses completos agora, como não pode usufruir do leite materno acabou ficando exposto a infecções e aos três meses teve um início de pneumonia, acabei me tornando mais protetor e dificilmente passo mais de cinco horas longe dele. — Você demorou hoje. — Mariah comenta, se ajeitando até suas costas apoiarem na cabeceira da cama. Sua rosto pálido evidencia o avanço da doença. Pego meu filho nos braços e vou até ela, beijo o topo da sua cabeça e me sento ao seu lado. — Minha mãe estava tentando me convencer a assumir um cargo na empresa. — Falo, evitando olhá-la por muito tempo nos olhos. Me dói vê-la tão frágil, principalmente por todas as memórias que tenho nossas. Ela sempre foi altiva, o tratamento tardio fez suas chances de melhora diminuírem. Eu me odeio por não ter percebido antes. — Hmm... Você deveria aceitar, sabe. — Arqueio a sobrancelha direita. — Você não vai mais voltar para marinha, Pedro. Sua vida agora é aqui e aquela empresa é sua herança. — Eu sei. — Admito a contragosto, dói pra c*****o lembrar que não poderei mais voltar as minhas funções. — As coisas aconteceram tão rápido, eu só... — Libero o ar que prendia. — Você tem razão, aquela empresa é a minha herança e é minha função deixá-la em boas condições para quando Tomas crescer. — Você é tão bom pra gente, P. Eu nunca vou ser capaz de agradecer por cuidar de mim e do meu filho. — Não agradeça, amo vocês dois e nunca te deixaria sozinha. — Pego sua mão e levo até minha boca, marcando sua pele com meus lábios. — Como você está? A pergunta a faz suspirar, a tenho notado triste esses dias. — Às vezes, me sinto bem, mas logo em seguida extremamente cansada. Tenho medo de não conseguir aguentar até os seis meses do Tómas. — Confessa e meu peito aperta. Como se quisesse confortar a mãe, meu garotinho se agita em meu colo, balbuciando sons com a boca e nós dois rimos feito bobos com seu pequeno gesto. Ele tem apenas quatro meses, mas passaria por seis facilmente. — Você é a pessoa mais forte que conheço, Mariah. — Sorrir quando menciono sua frase preferida de quando éramos crianças. —Sua força me inspira, essa maldita doença não é páreo para você. — Concluo e ela está me olhando com um sorriso no rosto e lágrimas nos olhos. — Você conseguiu falar com a família do Nataniel? — Sua voz demonstra um pouco mais de empolgação, então fico em silêncio para fazer suspense e prolongar o resquício de felicidade em seus olhos ao mencionar o nome dele.  — Pedi que Diego fosse até a loja da irmã dele, a tal da Ananda. Estou esperando notícias. — Ela sorrir animada e meu coração aquece. — Sim, estou tão louca para conhecê-la pessoalmente. Nataniel falava tanto dela que sinto como se fossemos íntimas. m*l posso esperar, acha que ela vai aceitar a proposta? — Pedi que Diego não fosse direto ao ponto, mas que preparasse o terreno. A vi no enterro, ela parecia quebrada de uma forma diferente das demais pessoas. — Falo. — Como assim? — Todos estavam chorando, mas ela se mantinha inatingível. — Explico e ela acena, ma não acho que entendeu. — Quando Diego, retornará? — Logo ele termine de falar com ela. — Hum... e a mãe dele? — Precisamos ir com calma, Mariah. Pelo que descobri ela não está lidando muito bem com a morte do filho, teremos de ter paciência.  Acena. — Não sei quando tempo tenho, Pedro. Preciso vê-la e abraçar a mãe do único homem que amei.  — Prometo que terá essa oportunidade, joaninha. Vou levar esse garotão para tomar um pouco de sol.  — Vou junto. — Fala, já se levantando da cama.  — Mariah!  — Nem comece, Pedro Cavallari. Posso até estar morrendo, mas mereço um pouco de sol e só iremos até o jardim, fique tranquilo.  — Eu nunca fico tranquilo. — Murmuro de cara fechada, posicionando meu filho de um lado do meu peito e deixando meu outro braço livre para caso precise ampará-la. Acompanho seus passos lentos com olhos de águia e fico tranquilo quando encontramos Olívia, nossa enfermeira particular, antes chegarmos a escada.  Meia hora depois e com a blusa golfada, subo a escada distraído com o aroma azedo impregnado no meu nariz e não percebo quando Diego surge na minha frente, batendo seu corpo no meu e quase me jogando degraus abaixo.  — Que p***a! — Rosno alto, segurando firme no corrimão.  — Onde você estava, cara? Rodei essa casa toda e não te encontrei.  — E resolveu me m***r por vingança?  — Não exagere, a culpa foi sua por não olhar onde pisa.  — Você jogou seu corpo contra o meu. — Rebato e ele inclina a cabeça para o lado, me dando seu olhar de aristocrata ao dar de ombros. — Você está fedendo.  — É mesmo? Nem percebi.  — Você é tão infantil, Pedrinho. Todo esse tempo fora e não mudou em nada.  — Eu não sei porque ainda somos amigos, de verdade. Você roubava meus brinquedos e colocava a culpa em Mariah. — O i****a gargalha e resolvo que essa conversa é perda de tempo, então volto a subir. — Eu era só um pobre garoto tentando chamar atenção da menina que gostava, tinha ciúmes por ela preferir você.  — Eu era mais bonito. — Falo e ele bufa, me seguindo ao avançar dos degraus.  — Meu olho de trás, todo mundo sabe que nenhuma mulher resiste ao meu charme e olhos verdes. — Fala convencido .  — Por isso, você não pegava ninguém na escola. — Atiço e ele rosna, acelerando seus passos. Nós travamos uma pequena disputa de corrida até meu quarto, assim como fazíamos quando éramos apenas dois garotos e o bastardo acaba vencendo.  — Cresça. — Falo ao passar por ele na porta. Retiro a blusa suja e pego outra no guarda-roupa.  — Como está Mariah?  — Não houve melhora se é isso que espera ouvir, mas tenho certeza que ela ficaria feliz com uma visita sua.— Falo em tom acusador, porque mesmo que ele negue, sei o motivo da sua volta para Duma está relacionado com nossa iga de infância, embora ele negue com veemência. — Ela sente sua falta, Diego. — Completo e ele assente.  — Farei isso.  — Como foi com a tal Ananda?  — Vou direto ao ponto e um sorriso se alarga em sua boca.  — Você está fodido. — É tudo que diz. — O que quer dizer?  — A garota é uma fera indomável e não quer saber de você ou do seu dinheiro.  — Você ofereceu dinheiro para ela, i****a? — Vocifero, me controlando para não enfeitar seu rosto com meu punho.  Droga.  — Não, fiz tudo o que você pediu. O problema é a garota ser espinhenta, cheia de personalidade e juntou dois mais dois, não sei o que falaram para ela sobre sua família, mas pude perceber certa raiva quando mencionei seu nome. — Nunca tive nenhum contato com ela.  — Bom, mas a reação dela indica que a garota não é nenhuma interesseira.  — Talvez, mas preciso ter certeza antes de tomar qualquer atitude. Mariah quer conhecer a família de Nataniel antes de partir e prometi que faria isso, também tenho uma dívida com ele, mas não vou arriscar a segurança e felicidade do meu filho.  — Ela tem o direito de conhecer Tomas.  — Não antes de ter certeza do carácter dela e de sua mãe.  — O que vai fazer?  — Não conte nada a Mariah sobre seu encontro com a tal garota, eu mesmo irei encontrar com ela e tirarei as minhas próprias conclusões. 
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