CAPÍTULO 5

1481 Palavras
ANANDA GURGEL O dia passou mais rápido do que previsto, só não foi mais rápido que meu bom humor, porque esse deu adeus logo pela manhã, pouco tempo depois do sol raiar, quando recebi a notícia que a m*l caráter, sonsa, fingida, ordinária e infinitos mais adjetivos da Glória Maria tentou roubar Dona Helena, a melhor costurei da ilha de mim. A demonha sabe como me atingir, vai direto na ferida aberta e enfia o dedo com força, mas o que é dela tá guardado e vingança é um prato que se come com acompanhamento. Quer ser minha concorrente? Por mim, tá tudo bem, só não venha pagar de desentendida logo após tentar me passar a perna ou vai conhecer meu pior lado. — Vamos lá, Ananda. Mude essa cara de quem comeu limão azedo e vem com a gente pro Zé Newton. — Darlãn sugere, envolvendo meu pescoço com seu braço direito, enrolando um dos meus cachos em seu dedo anelar e usando sua voz mansa. Giro a chave na porta da loja e viro pra ele, respirando fundo para não ser grosseira sem querer. — Tenho que ir pra casa e ficar com minha mãe, mas agradeço o convite. — Ele estala a língua, olhando para a irmã gêmea em busca de ajuda. — Pare de bancar o boy carinhoso e arreda daqui, garoto. Não vê que minha amiga é trabalhadora e de família? Vai caçar tuas peguetes em outra freguesia, vai. — Tu é doida, sabia? Vou questionar nossa mãe sobre essa coisa de gêmeo novamente, porque não posso ser teu parente, não.  — Capaz mesmo de tu ter sido trocado na maternidade, essa tua cara de fuinha nada tem como a minha de princesa. Tu é muito feinho, irmãozinho. — Darlene revida, mostrando a língua para o irmão gêmeo no fim de sua fala, apresentando uma idade mental inferior a de uma de cinco anos. — Eu? Tu parece o capiroto depois de um acidente, Darlene. — Ele responde, terminando de armar o circo no meio da rua. — Você, lindinho. — Chega! Tô morrendo de dor nas pernas e vocês parecem duas crianças, então é adeus e bye bye para ambos. — Solto beijinhos no ar, me desvinculo de Darlãn e dou um abraço rápido em sua irmã, nós damos tchau mais uma vez e enquanto eles seguem em linha reta, pego o caminho oposto e dobro na primeira esquina, apressando meus passos no intuito de diminuir o percurso rotineiro. Não sei em que estado vou encontrar Dona Virgínia, então, já entro em casa com meu psicológico preparado para lidar com sua pior versão. Diminuo o som das minhas pegadas ao perceber que as luzes já estão apagadas no andar de cima. Ela já deve estar dormindo, demorei demais hoje na loja. Retiro meu tênis e organizo um par ao lado do outro no canto próximo a porta, jogo minha bolsa no sofá e prendo meu cabelo em um coque frouxo. Fecho meus olhos e aprecio o silêncio. — Perfeito. — Falo em voz alta, curtindo a paz que só um lugar silencioso é capaz de oferecer. Retiro a calça jeans apertada e abro o feche do sutiã, respirando melhor sem o aperto da peça. Pego meu celular na bolsa e coloco na minha playlist especial, seguindo para a cozinha. Acendo a luz, abro a geladeira e sinto meu estômago roncar ao visualizar metade de uma lasanha. Mamãe cozinhou? Pego o alimento, retiro o plástico fino que o cobre e inalo o cheiro gostoso. Sim, este é o cheirinho da comida dela. Abro um sorriso orgulhoso, cheio de esperança pelo seu pequeno avanço, porque este não é qualquer prato, essa era a comida favorita de Nataniel.nCorto dois pedaços e os como frio mesmo, gemendo a cada garfada. Quando termino, levo meu prato até a pia e tenho outra surpresa ao encontrá-la limpa, sem nenhum prato do café da manhã ou almoço que costumam ficar para de noite, quando eu tenho tempo para lavar. — Será que você está melhorando, mamãe? — Acabo reproduzindo meu pensamento em voz alta, deixando a esponja cheia de sabão cair no chão, próxima ao meu pé. Me agacho bem na hora que escuto um palavrão vindo de uma voz masculina. — Que diabos! — O homem diz quando arremesso a esponja na cara dele. — Você... — Ergo meu dedo rente aos seus olhos e pisco sem saber quais palavras usar. — Você jogou sabão no meu olho, Ananda. — Meu nome sai íntimo da sua boca, como se ele já tivesse sido pronunciado várias vezes antes e tudo fica ainda mais surreal quando mamãe entra pela porta dos fundos cantarolando uma música antiga. Fico perdida durante a cena, olhando de um para outro sem ter certeza se não estou tendo algum tipo de pesadelo. — Você... Vocês são reais? — Questiono, cutucando o homem alto, extremamente carrancudo, parado no meio da minha cozinha. — O que aconteceu, meu querido? — Mamãe pergunta toda preocupada, finalmente percebendo o homem esfregar os olhos repetidas vezes. — Joguei sabão no olho dele. — Explico, falando bem mais no automático do que no meu modo racional. Ela arfa, demonstrando espanto com minha atitude e corre para pegar o soro fisiológico no armário de medicamentos. — Eu não estou entendendo nada, tenho quase certeza que estou alucinando, mas vou correr o risco e perguntar mesmo assim. — Puxo um pouco de ar e depois o libero. — Por quê diabos o herdeiro dos Cavallari está na minha casa? — Não gostei do seu tom. — Diz, tendo dificuldade para manter os dois olhos abertos. — Como é? — O herdeiro dos Cavallari. — Imita o meu tom, forçando uma voz feminina que está longe de soar como a minha. — Do jeito que você fala parece que faço parte de uma gangue. — Acrescenta usando sua própria voz. Penso em falar que é exatamente isso o que penso dele e de e sua família. Pra mim, são todos um bando de ladrões organizados e com roupas de grife que exploram os moradores mais humildes da ilha, mas sua luta para manter as pálpebras abertas me deixa agoniada, principalmente quando vejo o quão vermelhas estão seus olhos. — Vem aqui, menino. — Pego sua mão, o puxo para perto da pia e ligo a torneira, pego um pouco da água corrente com as mãos e limpo seus olhos. — Abaixe um pouco a cabeça. — Está molhando minha roupa, Ananda. — Pare de falar meu nome dessa forma. — De que forma? — Como se me conhecesse. Não temos i********e alguma. — Entendo, mas acho que temos um pouco de i********e sim.  — Não temos. — Você está de blusa e calcinha, lavando meu rosto após me agredir. — Meus pés travam no lugar, afasto minhas mãos dele e a ficha caia. Puxo o tecido de algodão pela bainha, esticando a peça de roupa o máximo possível. — Não olhe! — Grito, desejando cavar um buraco no chão e me enterrar. Isso não está acontecendo. Percorro o pequeno cômodo com meus olhos buscando uma fuga, cogitando a possibilidade de sair correndo, mas não querendo mostrar minha b***a pra ele. — Tarde demais, gracinha. — O i****a diz, piscando já recuperado. Meu sangue ferve e se não estivesse com as mãos ocupadas cobrindo minha parte mais graciosa, eu daria na cara dele. Descarado. — Você não é casado? — Eu não pedi para te ver nua. — Eu não estou nua! — Seminua. — Corrige, dando de ombros logo após cruzar os braços na frente do corpo, erguendo o canto da boca como um verdadeiro cafajeste. Argh! Infeliz. Cachorro. — Não sei o que está fazendo na minha casa, mas quero que saia agora! — Explodo, alcançando o meu limite. — Achei o soro. — Mamãe anuncia, nos pegando em um clima tenso. — Ele não precisa mais, não é? — Na verdade, tá ardendo um pouco. — Dramatiza, adotando uma expressão de vítima que só Dona Virgínia pra cair, porque o cara é péssimo em atuação. Nota zero. — Filha, vista uma roupa. Temos visita.— Ela fala como se eu não soubesse disso, sorrindo do mesmo jeito que Darlene sorrir após o décimo copo de caipirinha. Será que esse infeliz drogou minha mãe ou algo do tipo? — A senhor teria um remédio para dor de cabeça? — Ele a pergunta, adotando um tom exageradamente gentil. — Claro, querido. Me dê um minuto que busco rapidinho. — Eu vou. — Digo, corrigindo minha postura e batendo contra seu ombro de propósito. Dane-se se ele vai ver minha b***a, ela é bonita e a calcinha é nova. — Obrigado, Ananda. — Sussurra baixo só pra mim ouvir, dando ênfase no meu nome só por pirraça. Eu também não vou buscar remédio nenhum. Que morra de dor.
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