Pré-visualização gratuita Nada sob Controle
Eu sempre achei que tinha tudo sob controle.
Não de uma forma perfeita, mas nunca fui esse tipo de pessoa. A minha vida sempre foi mais… improvisada. Um equilíbrio instável entre o que eu queria ser e o que eu conseguia aguentar.
Mas ainda assim, eu controlava.
Controlava as minhas emoções.
Os meus gastos.
As minhas escolhas.
Ou pelo menos era isso que eu dizia a mim mesma todas as noites, antes de dormir.
Até aquele dia.
O dia em que tudo começou a desmoronar de uma vez só.
Acordei com o som irritante do despertador às seis da manhã, como sempre. O quarto ainda estava mergulhado numa penumbra suave, e por alguns segundos, fiquei ali, deitada, encarando o teto manchado, tentando convencer o meu corpo a obedecer.
O colchão rangia sempre que eu me mexia. O quarto era pequeno — demasiado pequeno para alguém que sonhava tão grande. Uma cama, uma secretária encostada à parede, uma cadeira que parecia prestes a quebrar a qualquer momento e uma janela que dava para um beco cinzento.
Era tudo o que eu podia pagar.
Suspirei, passando a mão pelo rosto, tentando afastar o peso que parecia viver dentro de mim ultimamente.
Cansaço.
Não físico. Isso eu já tinha aprendido a ignorar.
Era um cansaço mais fundo… mais silencioso.
Levantei-me devagar, sentindo o chão frio sob os pés. Fui até ao espelho pequeno pendurado na parede e encarei o meu reflexo.
Olheiras.
Cabelo desarrumado.
E aquele olhar… vazio demais para alguém de vinte e um anos.
— Que ótimo, Helena — murmurei para mim mesma, com um sorriso sem humor. — Exatamente o que o mundo precisa hoje.
Virei-me antes de me analisar mais. Não tinha tempo para isso.
Nunca tinha.
Preparei-me rapidamente. Jeans, uma camisa simples e o casaco que já começava a mostrar sinais claros de desgaste. Prendi o cabelo num r**o de cavalo apressado e peguei na mochila.
Antes de sair, olhei automaticamente para a pequena pilha de papéis sobre a secretária.
Contas.
Sempre contas.
Evitei aproximar-me. Já sabia exatamente o que estava ali, e encarar aquilo às seis da manhã não ia melhorar nada.
Saí do quarto, trancando a porta atrás de mim.
O corredor do prédio cheirava a humidade, como sempre. As paredes estavam descascadas, e a luz piscava de forma irritante. Desci as escadas com passos rápidos, cruzando-me com a senhora do terceiro andar que me lançou um olhar curioso.
Sorri por educação.
Ela nunca sorriu de volta.
Lá fora, o ar da manhã estava frio o suficiente para me despertar completamente. Inspirei fundo, ajustando a mochila nos ombros e começando a caminhar.
A cidade já estava acordada.
Carros, pessoas apressadas, vozes, movimento.
E eu… só mais uma entre centenas.
O caminho até à universidade era sempre o mesmo. Eu já o fazia quase no automático, perdida nos meus próprios pensamentos.
Ou tentando não pensar.
Funcionava na maior parte das vezes.
Mas naquele dia… não.
Porque havia algo que eu estava a evitar há dias.
Algo que eu sabia que não podia adiar mais.
A mensalidade.
O aperto no peito veio de imediato.
Apertei os lábios, acelerando o passo como se pudesse fugir disso.
Ridículo.
Não se foge de dívidas.
Muito menos quando elas estão prestes a destruir tudo o que você construiu.
Quando cheguei ao campus, o movimento era intenso. Grupos de estudantes conversavam, riam, reclamavam da vida… como se tudo fosse simples.
Por um segundo, senti inveja.
Da leveza.
Da despreocupação.
Mas passou rápido.
Sempre passa.
Entrei no edifício principal e fui diretamente ao quadro de avisos.
E lá estava.
O aviso que eu já esperava.
Mas que ainda assim conseguiu fazer o meu estômago revirar.
“Alunos com pagamentos em atraso deverão regularizar a situação no prazo máximo de 5 dias. Caso contrário, estarão sujeitos à suspensão da matrícula.”
Cinco dias.
Cinco.
O número parecia ecoar dentro da minha cabeça.
Engoli em seco, sentindo o chão desaparecer por um segundo.
— Helena?
A voz familiar fez-me piscar algumas vezes antes de me virar.
Beatriz.
Cabelo volumoso, sorriso fácil, energia que parecia inesgotável. Ela caminhava na minha direção com aquela expressão curiosa que ela sempre tinha quando percebia que algo estava errado.
— Ei — disse ela, parando ao meu lado. — Você está com uma cara… o que aconteceu?
Tentei sorrir.
Não funcionou muito bem.
— Nada — respondi, rápido demais.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Você sabe que comigo isso não cola, né?
Suspirei, desviando o olhar para o aviso mais uma vez.
Ela seguiu o meu olhar.
E o sorriso dela desapareceu.
— Ah…
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Quanto tempo? — perguntou ela, mais baixa dessa vez.
— Cinco dias.
Beatriz soltou o ar devagar.
— E você…?
Balancei a cabeça antes mesmo que ela terminasse.
— Não tenho — disse, simples.
Porque não havia outra forma de dizer.
Não tenho.
Não consigo.
Não sei o que fazer.
Ela mordeu o lábio, claramente pensando em algo.
— Helena…
— Não — interrompi, já sabendo o que ela ia dizer.
— Eu nem falei nada ainda.
— Ia oferecer ajuda.
Ela hesitou.
— Talvez.
— Não preciso.
A mentira saiu fácil demais.
Mas eu precisava que fosse verdade.
Beatriz cruzou os braços, me analisando.
— Orgulho vai te meter em problemas sérios um dia.
— Já está — respondi, num tom mais baixo do que pretendia.
Ela suspirou, passando a mão pelo cabelo.
— Então pelo menos me diz o que você vai fazer.
Abri a boca.
Fechei.
Porque a verdade era simples.
Eu não fazia ideia.
E admitir isso em voz alta tornava tudo… real demais.
— Eu vou resolver — acabei por dizer.
Ela não pareceu convencida.
Nem eu estava.
Mas naquele momento, era tudo o que eu tinha.
Uma promessa vazia.
E um prazo que não parava de diminuir.
As aulas passaram num borrão.
Eu estava presente… mas não estava.
Anotava coisas sem realmente processar. Olhava para o professor sem ouvir. Tentava focar… mas a minha mente voltava sempre ao mesmo lugar.
Cinco dias.
Cinco dias.
Cinco dias.
Quando a última aula terminou, eu estava exausta.
Mais mentalmente do que qualquer outra coisa.
Saí do edifício lentamente, ajustando a mochila e tentando decidir o que fazer.
Ir para casa?
Trabalhar mais horas?
Pensar numa solução milagrosa?
Foi então que aconteceu.
Eu não estava a prestar atenção.
E bati contra alguém.
Forte o suficiente para me fazer perder o equilíbrio por um segundo.
— Olha por onde anda — uma voz masculina disse, firme.
Levantei o olhar, já pronta para responder.
Mas as palavras morreram na minha garganta.
Ele.
Alto.
Impecavelmente vestido, como se tivesse saído diretamente de uma reunião importante. O olhar… frio. Calculado.
E irritantemente calmo.
— Desculpa — disse, rapidamente, recuperando-me.
Ele me analisou por um segundo.
Como se estivesse a avaliar algo.
— Deve prestar mais atenção — respondeu, sem qualquer emoção.
Franzi o cenho, sentindo uma pontada de irritação.
— E você devia aprender a não ocupar o caminho todo.
Os olhos dele voltaram para mim.
Desta vez, por um segundo a mais.
Como se estivesse prestes a dizer algo… mas desistisse no último instante.
O silêncio entre nós ficou estranho. Denso.
Desconfortável.
Alguém chamou por ele ao longe.
Ele desviou o olhar.
— Com licença — disse, seco.
E passou por mim sem esperar resposta.
Fiquei parada por alguns segundos, olhando na direção em que ele tinha ido, sem entender exatamente por quê.
Não era nada.
Só um esbarrão.
Uma troca de palavras qualquer.
Mesmo assim… aquela sensação estranha permaneceu.
Como um incômodo leve que eu não conseguia explicar.
Balancei a cabeça, respirando fundo.
Eu estava cansada. Era só isso.
Cansada demais para dar importância a coisas pequenas.
Ajustei a mochila nos ombros e voltei a caminhar.
Porque, no fim das contas, a minha preocupação era outra.
E era grande demais para ser ignorada.
Cinco dias.
Era só isso que eu tinha.