Mar
Eu já estava presa nesse lugar imundo há horas e não havia parado de chorar um minuto sequer. E o lugar era tão empoeirado e escuro, eu estava com tanto medo, e não tinha ideia de quando me tirariam daqui. Nisso, ouvi um barulho, olhei para o lado e avistei um rato, gritei e me afastei de medo. Chorei mais. Muito mais. E então ouvi uma voz conhecida:
- Mar? Mar?
Corri até a porta e dei duas batidas nela.
- Aqui Gastón, eu estou aqui. - Falei.
- O que você faz aí?
- O Bernardo me castigou. - Respondi. - Estou com medo, tem rato aqui e eu estou louca de fome.
- Espera, vou dar um jeito de te tirar dai.
Ouvi passos se afastar e logo se aproximar. O garoto tentou arrombar a porta e logo conseguiu.
- Gastón! - O abracei aliviada.
- Mar, você está bem?
- Agora estou.
- Vem, vamos sair daqui.
- Mas, e o Bernardo?
- O Bernardo que se… - Olhei assustada para ele. - Que se lasque. Vem, vamos…
Saímos do local e fomos até o meu quarto. Em seguida, Euge e Tato entraram. A loura estava aflita e super preocupada comigo. Me abraçou e não parava de dizer o quão preocupada estava comigo. Achei tão fofa a atitude dela, digna de uma amiga de verdade.
- Você está bem mesmo? - Tato perguntou.
- Aham.
- Por que o Bernardo te castigou? - Gas me questionou.
Eu contei para eles o que havia acontecido e Euge disse que Juan e eu demos mole, mas que isso não justificava a atitude de Bernardo, e com certeza ele havia pegado pesado, fiquei tão assustada, e se dependesse do homem eu não sei quando eu sairia do local.
- Eu… Estou com fome. - Falei.
- Vou pegar algo para você comer. - Disse Gastón.
O garoto se retirou e logo voltou com um prato de comida que havia sobrado do jantar. Comi como se eu não comesse nada há anos. Após isso conversei mais um pouco com meus amigos e logo fui dormir, estava exausta.
(...)
No dia seguinte… Gastón, Tato, Euge e eu estávamos indignados com tudo isso. Os meninos contaram para Nano, que também ficou com raiva e ficou do nosso lado. Tato disse que isso não poderia ficar assim e que deveríamos fazer algo, porém eu não achava uma boa ideia, tinha medo de piorar as coisas.
- O Tato tem razão. Isso não pode ficar assim. - Disse Euge.
- Eu não sei se devemos fazer algo contra eles, mas se vocês fizerem, estou com vocês. - Disse Nano.
Sorri e fiz um leve cafuné no menino.
Foi aí que Gastón pensou em algo. Ele nos contou sua ideia, e eu achei loucura, mas fui voto vencido.
Tato se certificou que não tinha ninguém no escritório do Bernardo e então adentramos o local. Começamos a revirar tudo, pegamos todas as coisas das estantes e jogamos no chão, pegamos uns papéis que tinha na gaveta da mesa do homem e rasgamos tudo, quebramos algumas coisas e pintamos as paredes e chão com tinta, que havia sobrado de quando reformaram o abrigo. Em seguida, saímos do local de fininho, para que ninguém nos visse.
Horas depois, estávamos conversando no meu quarto, quando ouvimos um grito. Era de Bernardo.
- Parece que ele já viu a nossa surpresinha. - Disse Tato.
- Ai, ele vai nos m***r. - Disse Nano.
- Não vai, não. Ele não vai te fazer nada. - Falei, arrancando um sorriso tímido do garoto.
Nisso, Bernardo apareceu, furioso, como era de se esperar.
- O QUE VOCÊS FIZERAM? - Olhou para mim. - E O QUE VOCÊ FAZ AQUI? - Me puxou pelos cabelos, fazendo meus amigos gritarem para ele me soltar. - COMO VOCÊ FUGIU?
- Pela janela. - Menti.
- MENTIRA! FALA A VERDADE! COMO VOCÊ FUGIU? - Puxou os meus cabelos com mais força, fazendo eu grunhir de dor.
- Fui eu. - Disse Gastón.
- E eu. - Mentiu Euge.
- Eu também! - Mentiu Tato.
- E eu também. - Até Nano mentiu.
- Nossa… - Me soltou. - Como vocês estão corajosos. - Começou a andar de um lado para o outro. - Deixa eu adivinhar… Também foram vocês que fizeram aquele auê no meu escritório?
- Sim, porque a Mar podia ter morrido naquele lugar. - Disse Euge.
Bernardo deu uma risada maquiavélica, o que me assustava, odiava quando ele fazia isso.
- EU QUERO TODOS NO MEU ESCRITÓRIO PARA ORGANIZAR TUDO, E DEPOIS A GENTE CONVERSA.
O homem se retirou e nós apenas nos olhamos em silêncio. Acabamos indo até o escritório de Bernardo para organizarmos tudo, o que demorou um pouco para acontecer.
Após terminarmos, já estava na hora do almoço e fomos direto para a cozinha. Nos sentamos à mesa e logo os pequenos também se sentaram. Um silêncio total. Ninguém dizia nada. Bernardo pegou os pratos e começou a nos servir, já que Emilia e Nico ainda não haviam aparecido para almoçar, pois era sempre um dos mais velhos que nos serviam, para não haver tumulto.
O homem começou a distribuir os pratos com um pouco de agressividade. Logo os demais chegaram e se juntaram a nós, e então começamos a jantar.
(...)
Euge voltou do banheiro com as mãos no estômago.
- Vomitou de novo? - Perguntei.
- Aham.
- Já é a segunda vez em quinze minutos. - Falei. - Estou começando a ficar preocupada.
- Eu também!
- Por acaso, você e o Tato já…
- Quê? Claro que não! Você pensou que eu… Cruzes!
Euge foi mais algumas vezes ao banheiro e depois se deitou para dormir.
Eu dormi pouco depois, mas acordei de madrugada, estava suando muito, apesar da temperatura não estar tão alta e acordei com fortes dores abdominais, e de repente… corri para o banheiro. Vomitei tanto, que pensei que eu fosse colocar até os rins e os intestinos pra fora. É, acho que aquela comida estava estragada.