Capítulo 11

886 Palavras
Conrado Eu sempre acreditei que meu trabalho exigia distância. Era uma regra simples. Investigadores observavam. Delegados analisavam. Sentimentos atrapalhavam. Durante anos, eu segui isso sem questionar. Até Eva Borges. O problema não era apenas ela. Era o que acontecia quando eu estava perto dela. Eu esquecia que ela era uma peça dentro de uma investigação. Porque Eva não parecia uma peça. Parecia uma pessoa. E isso era exatamente o que tornava tudo mais complicado. --- Depois da tentativa de sequestro, eu deveria ter feito o procedimento padrão. Aumentar a proteção. Colocar uma equipe acompanhando cada passo dela. Registrar oficialmente a ameaça. Mas eu sabia que aquilo teria consequências. Eva fugiria. Ela não aceitava ser tratada como alguém indefesa. E, pior, alguém dentro da polícia poderia estar passando informações. Eu não confiava mais em todos ao meu redor. E essa era uma sensação que eu odiava. Passei anos acreditando que o problema estava do outro lado. Nos criminosos. Nos homens que eu perseguia. Mas, dessa vez, a ameaça parecia estar mais perto. --- No fim da tarde, fui até a padaria. Ou o que restava dela. Eva estava sentada em uma mesa improvisada, analisando contas e papéis. Ela tinha perdido quase tudo. E ainda assim sua primeira preocupação parecia ser manter o lugar funcionando. — Você sabe que deveria descansar, não sabe? Ela levantou os olhos. — Você sabe que deveria cuidar da própria vida, não sabe? Quase sorri. Quase. — Estamos começando bem. Ela voltou a olhar os papéis. — Eu tenho que resolver isso. — Você acabou de sofrer um ataque. — E o ataque não vai pagar as contas. Essa era Eva. Sempre encontrando uma forma de continuar. Mesmo quando qualquer outra pessoa teria parado. Coloquei uma sacola sobre a mesa. Ela olhou desconfiada. — O que é isso? — Comida. Ela franziu a testa. — Eu não pedi. — Eu sei. — Então por que trouxe? Olhei para os papéis. Depois para o café vazio ao lado dela. — Porque você está aqui há horas e não comeu nada. Ela ficou em silêncio. Por alguns segundos, pareceu surpresa. — Você reparou? A pergunta saiu baixa. Dei de ombros. — É meu trabalho observar. Ela abriu a sacola. — Você sempre tem uma resposta pronta? — Quase sempre. Um pequeno sorriso apareceu no rosto dela. Pequeno. Mas real. E eu percebi que estava começando a procurar por aqueles momentos. --- Criamos um acordo. Não foi uma promessa. Nem uma declaração de confiança. Foi apenas uma conversa. Ela precisava continuar vivendo. Eu precisava saber que ela estava segura. Então estabelecemos regras. Eu não iria segui-la. Não iria aparecer em todos os lugares. Não iria transformar a vida dela em uma prisão. Mas ela me avisaria quando algo acontecesse. Qualquer ameaça. Qualquer movimento estranho. Qualquer coisa fora do normal. — Isso não significa que eu confio em você — ela disse. Assenti. — Claro. — Estou falando sério. — Eu também. Ela estreitou os olhos. — Você é irritante. — Já ouvi isso antes. Mas nós dois sabíamos. Aquilo era confiança. Mesmo que nenhum dos dois tivesse coragem de admitir. --- Com o passar dos dias, pequenas coisas começaram a acontecer. Coisas que não faziam parte de uma investigação. Coisas que eu não deveria notar. Mas notava. Descobri que Eva sempre comprava café para os funcionários da faculdade antes de comprar um para ela. Descobri que ela guardava parte do salário para ajudar uma vizinha idosa. Descobri que ela sabia o nome de todas as crianças da comunidade. E percebi algo que me incomodou. Eva passava a vida cuidando de todos. Menos dela. — Você faz isso sempre? Ela me olhou enquanto organizava alguns documentos. — Isso o quê? — Se colocar por último. Ela ficou quieta. Depois deu um sorriso fraco. — Alguém precisa fazer. Balancei a cabeça. — Não deveria ser sempre você. Ela não respondeu. Mas o olhar dela mudou. --- Em uma dessas tardes, ela fez uma descoberta sobre mim. — Você nunca tira férias? Levantei os olhos do relatório. — Não. Ela franziu a testa. — Nunca? — Não tenho tempo. Ela cruzou os braços. — Isso é absurdo. — É minha escolha. Ela riu sem humor. — Engraçado. — O quê? — Você acabou de falar exatamente como eu. Fiquei em silêncio. Porque ela estava certa. Nós éramos mais parecidos do que eu gostaria de admitir. Nós dois achávamos que carregar tudo sozinho era uma forma de proteger os outros. Nós dois confundíamos força com resistência. Talvez por isso eu entendesse Eva melhor do que deveria. --- Naquela noite, fiquei olhando para os arquivos na minha mesa. Borges ainda era meu alvo. Ainda existia uma ameaça. A investigação continuava. Mas havia uma nova variável. Eva. Ela não era apenas a irmã de um criminoso. Não era uma fraqueza. Não era uma ferramenta. Era uma mulher que tinha passado a vida tentando provar que era mais do que o sobrenome que carregava. E, contra minha própria vontade, eu comecei a querer que ela acreditasse nisso. O problema era que quanto mais eu conhecia Eva... Mais difícil ficava lembrar que eu estava ali apenas para investigar e descobrir aonde Borges estava. Porque, pela primeira vez em muitos anos, eu não estava preocupado apenas em resolver um caso. Eu estava preocupado com alguém.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR