Pré-visualização gratuita Capítulo 1
Eva
O despertador tocou às cinco e meia.
Não havia necessidade.
Eu já estava acordada havia pelo menos quinze minutos, encarando o teto de madeira do meu quarto enquanto a chuva fina tamborilava sobre as telhas de zinco.
No Morro da Esperança, o silêncio nunca significava tranquilidade.
Significava apenas que o dia ainda não tinha começado a cobrar seu preço.
Soltei o ar devagar e me levantei.
A casa ainda dormia.
Atravessei o corredor estreito na ponta dos pés para não acordar minha tia Marta. Na cozinha, coloquei a chaleira no fogo e observei a fumaça começar a subir. O cheiro do café recém-passado sempre transformava aquela casa simples em um lar.
Era meu momento favorito do dia.
Os poucos minutos em que o mundo ainda não exigia nada de mim.
— Já acordou?
Olhei para a porta.
Minha tia apareceu usando um roupão antigo, o cabelo preso às pressas e o rosto marcado pelo sono.
Sorri.
— Tenho que abrir a padaria.
Ela se aproximou da mesa.
— Você vive trabalhando.
— Alguém precisa.
A resposta saiu leve, mas carregava um peso que nós duas conhecíamos bem.
Ela desviou o olhar para a janela.
Não era preciso explicar.
Meu irmão tinha dinheiro suficiente para mudar completamente nossas vidas.
Mas nenhum centavo dele jamais atravessou aquela porta.
Nem por mim.
Nem pela tia Marta.
Preferíamos uma casa simples, contas apertadas e noites tranquilas a dever qualquer favor ao homem mais poderoso do morro.
Mesmo que esse homem carregasse o nosso sobrenome.
Depois do café, peguei minha mochila.
— Volto antes do jantar.
— Se cuida.
— Sempre.
Ela sabia que era mentira.
No Morro da Esperança, ninguém conseguia se cuidar o tempo todo.
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O ar da manhã tinha cheiro de terra molhada.
As vielas começavam a despertar.
Crianças uniformizadas caminhavam para a escola arrastando mochilas maiores do que elas.
Uma senhora lavava a calçada enquanto conversava com a vizinha.
Seu Antônio já consertava bicicletas na porta da oficina.
Dona Celeste distribuía pães para duas famílias que claramente não tinham dinheiro para comprar o café da manhã.
Era essa comunidade que nunca aparecia na televisão.
As manchetes preferiam as armas.
Nunca mostravam a solidariedade.
Sorri para os vizinhos enquanto passava.
— Bom dia, Eva!
— Vai cedo de novo?
— Como sempre.
Recebi mais alguns acenos antes de dobrar a esquina principal.
Foi ali que os vi.
Dois homens armados observavam o movimento da rua.
Não olhei diretamente para eles.
Também não acelerei os passos.
Era uma regra silenciosa.
Eles fingiam que eu não existia.
Eu fingia que eles também não.
Ser irmã de Caio Borges significava viver protegida por uma sombra que nunca pedi.
Cheguei à padaria poucos minutos depois.
Assim que abri a porta, o cheiro de pão quente e café fresco me envolveu.
Sorri sem perceber.
— Pensei que tivesse desistido de mim. — Seu Joaquim apareceu carregando uma cesta de pães.
— Ainda não encontrou alguém melhor.
Ele riu alto.
— Nem vou encontrar.
A manhã passou depressa.
Atendi clientes antigos.
Embalei sonhos.
Passei cafés.
Ouvi reclamações sobre o preço do gás, sobre o tempo e sobre o futebol.
Gostava daquela rotina.
Ali, por algumas horas, eu deixava de ser "a irmã do Caio".
Era apenas Eva.
E aquilo bastava.
Quase ao meio-dia, porém, a sensação apareceu.
Primeiro discreta.
Depois impossível de ignorar.
A impressão de que alguém me observava.
Levantei os olhos para a vitrine.
Do outro lado da rua, um homem estava encostado em um sedã preto.
Camisa social clara.
Calça escura.
Braços cruzados.
Postura firme.
Ele olhava diretamente para a padaria.
Quando nossos olhares se encontraram...
Ele não desviou.
Um arrepio percorreu minha nuca.
Não parecia morador.
Também não tinha jeito de jornalista.
E definitivamente não estava ali para comprar pão.
Voltei ao trabalho.
Ou tentei.
A cada poucos minutos, meus olhos escapavam para a rua.
Ele permanecia exatamente no mesmo lugar.
Esperando.
Como se tivesse todo o tempo do mundo.
Depois de quase vinte minutos, finalmente atravessou a rua.
O sino acima da porta anunciou sua entrada.
A conversa dentro da padaria diminuiu.
Não completamente.
Mas o suficiente para que eu percebesse que outras pessoas também haviam notado sua presença.
Ele caminhou até o balcão sem pressa.
Era alto.
Os ombros largos preenchiam a camisa social de forma discreta.
A barba por fazer endurecia ainda mais o rosto.
Os olhos castanhos percorriam o ambiente com atenção, como alguém acostumado a observar antes de agir.
Parecia o tipo de homem que dificilmente era pego de surpresa.
— Bom dia. — Mantive a voz firme.
— Bom dia.
A voz era grave.
Controlada.
Sem pressa.
— O que vai querer?
Ele olhou rapidamente para a vitrine de pães.
— Um café.
Peguei uma xícara.
Enquanto preparava o pedido, senti novamente o peso daquele olhar.
Não era um olhar invasivo.
Era... analítico.
Como se estivesse tentando montar um quebra-cabeça.
Empurrei a xícara até ele.
— Aqui está.
Ele agradeceu com um breve aceno.
Tomou o primeiro gole antes de falar.
— Seu nome é Eva?
Meu corpo ficou alerta.
Levantei os olhos lentamente.
— Quem quer saber?
Ele apoiou a xícara no balcão.
— Conrado Almeida.
O nome não despertou lembrança alguma.
Até que ele completou:
— Sou delegado.
O ambiente pareceu esfriar.
Seu Joaquim passou a organizar a mesma bandeja pela terceira vez.
Dois clientes diminuíram o tom da conversa.
Todo mundo fingia não prestar atenção.
Todo mundo estava ouvindo.
Cruzei os braços.
— E por que um delegado está procurando por mim?
— Porque preciso conversar com você.
— Não tenho assunto com a polícia.
Ele sustentou meu olhar.
— Tem certeza?
Assenti.
— Absoluta.
Sem alterar a expressão, ele colocou o dinheiro do café sobre o balcão.
Então disse, em um tom que apenas eu consegui ouvir:
— Você é irmã de Caio Borges.
Meu maxilar travou.
Era sempre assim.
Meu nome nunca vinha sozinho.
Sempre acompanhado pelo dele.
Respirei fundo antes de responder.
— Sou.
— Então temos assuntos em comum.
Inclinei-me sobre o balcão.
— Escute com atenção, delegado.
Minha voz saiu baixa.
Controlada.
— Eu trabalho desde os dezesseis anos.
Pago minhas contas.
Nunca respondi por crime nenhum.
Nunca escondi ninguém.
Nunca fiz favor para organização nenhuma.
Se está procurando o meu irmão...
Procure por ele.
Não por mim.
Por um instante, alguma coisa mudou na expressão dele.
Surpresa.
Foi rápida.
Quase imperceptível.
Logo desapareceu.
— Não estou acusando você.
— Parece.
— Estou tentando evitar um problema.
Soltei uma risada curta.
Sem humor.
— Eu nasci no Morro da Esperança.
Olhei diretamente para ele.
— Problemas sempre fizeram parte da paisagem.
Conrado permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Depois pegou a xícara vazia.
— Ainda vamos conversar, Eva.
Não esperei resposta.
Também não ofereci nenhuma.
Ele caminhou até a porta.
Antes de sair, lançou um último olhar em minha direção.
Não havia ameaça.
Nem hostilidade.
Mas existia uma certeza silenciosa que me deixou desconfortável.
A porta se fechou.
O sino voltou a balançar.
Só então percebi que a padaria inteira havia prendido a respiração.
Seu Joaquim soltou o ar primeiro.
— Esse homem...
Balancei a cabeça.
— É problema.
Olhei pela vitrine.
Conrado entrou no carro preto.
Ligou o motor.
Mas, antes de partir, tornou a olhar para mim.
Foi apenas um instante.
O suficiente para despertar uma sensação incômoda.
A de que aquele encontro não tinha sido uma coincidência.
E que, dali em diante, minha vida jamais voltaria a ser a mesma.