Conrado
O café estava r**m.
Ou talvez fosse apenas a investigação.
Empurrei a xícara para o lado e voltei a encarar o mural preso à parede da sala da delegacia.
Fotografias.
Relatórios.
Mapas.
Linhas vermelhas ligando nomes, endereços e datas.
No centro de tudo, um único rosto.
Caio Borges.
Cinco anos.
Era esse o tempo que eu passava tentando derrubar aquele homem.
Cinco anos acumulando operações frustradas.
Informantes executados antes de depor.
Denúncias que desapareciam.
Mandados cumpridos em casas vazias.
Sempre um passo atrás.
Caio nunca estava onde deveria.
Nunca deixava provas suficientes.
E, de alguma forma, parecia descobrir nossas operações antes mesmo de elas começarem.
— Ainda brigando com esse mural?
Ergui os olhos.
Henrique entrou na sala carregando duas pastas.
Era o investigador mais antigo da equipe e o único que tinha coragem de interromper meus silêncios.
— Ainda esperando ele errar.
Henrique soltou um riso discreto.
— Apostar que bandido vai cometer um erro é fácil.
Deixou as pastas sobre a mesa.
— Difícil é descobrir qual deles.
Não respondi.
Continuei observando as fotografias.
Quase todas mostravam apreensões, locais de confronto ou integrantes da organização criminosa.
Apenas uma destoava das demais.
Uma mulher saindo de uma padaria, mochila nas costas e os cabelos presos em um coque simples.
Eva Borges.
Vinte e quatro anos.
Solteira.
Sem antecedentes criminais.
Emprego registrado.
Universitária.
Nenhuma movimentação financeira incompatível.
Nenhum registro em investigações.
Nenhuma interceptação telefônica.
Nada.
Uma ficha limpa demais para alguém tão próxima de Caio Borges.
Henrique acompanhou meu olhar.
— Ainda acha que ela sabe alguma coisa?
— Acho.
— Baseado em quê?
Cruzei os braços.
— Ela é a única família que ele mantém por perto.
Ele permaneceu em silêncio.
Continuei:
— Homens como Caio afastam qualquer pessoa que possa ser usada contra eles.
Parei por um instante.
— Se ela continua perto, existe um motivo.
Henrique suspirou.
— Isso não significa que participe dos negócios.
— Também não prova que seja inocente.
Ele assentiu devagar.
Não era a primeira vez que discutíamos aquilo.
Na equipe, quase todos acreditavam que Eva era apenas uma irmã tentando levar uma vida comum.
Eu já tinha visto pessoas comuns esconderem monstros.
E monstros esconderem pessoas comuns.
Meu celular vibrou sobre a mesa.
Mensagem do setor de inteligência.
Movimentação incomum no Morro da Esperança durante a madrugada. Possível reunião de lideranças.
Possível.
Sempre possível.
Nunca confirmada.
Passei a mão pelo rosto.
A investigação havia entrado em um ponto morto.
Os informantes tinham desaparecido.
As escutas não produziam nada.
As operações chegavam tarde demais.
Ou alguém dentro da organização era muito eficiente...
...ou alguém dentro da polícia continuava vazando informações.
Essa segunda hipótese era a que mais me incomodava.
Porque significava que o problema podia estar sentado na sala ao lado.
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Pouco depois do almoço, voltei ao Morro da Esperança.
Não pretendia interrogar Eva.
Ainda não.
Queria observar.
A maioria das pessoas revelava muito quando acreditava não estar sendo analisada.
Estacionei do outro lado da rua.
A padaria estava cheia.
Pela vitrine, vi Eva atrás do balcão.
Sorria enquanto colocava pães em uma sacola de papel para uma senhora idosa.
Movimentos rápidos.
Naturais.
Sem qualquer sinal de tensão.
Uma menina entrou correndo no estabelecimento.
Devia ter uns sete anos.
Eva sorriu imediatamente.
Abaixou-se até ficar da altura dela.
Não consegui ouvir o que disse.
Mas a criança respondeu com entusiasmo.
Poucos segundos depois, Eva colocou um doce dentro da sacola e piscou discretamente.
A menina saiu dali abraçando o pacote como se tivesse ganhado um tesouro.
Observei a cena em silêncio.
Nada nela lembrava a irmã de um dos criminosos mais procurados do estado.
Ela conhecia todos os clientes.
Chamava muitos pelo nome.
Ajudava idosos.
Conversava com crianças.
Ria com facilidade.
Era difícil conciliar aquela imagem com a mulher que aparecia no meu mural de investigação.
Difícil.
Mas não impossível.
A experiência já havia me ensinado que aparência era uma das armas mais eficientes de qualquer organização criminosa.
Saí do carro.
Assim que entrei na padaria, ela levantou os olhos.
Reconheceu-me imediatamente.
O sorriso desapareceu.
Não por medo.
Por precaução.
— Delegado.
Assenti.
— Senhorita Borges.
Ela cruzou os braços.
— Achei que já tivesse conseguido o café que queria.
Quase sorri.
Quase.
— Hoje não vim pelo café.
— Imaginei.
Havia firmeza em sua voz.
Nenhuma hostilidade exagerada.
Apenas cansaço.
Como se estivesse acostumada a responder por escolhas que nunca fez.
Aproximei-me do balcão.
— Seu irmão entrou em contato com você nos últimos dias?
Ela respondeu sem pensar.
— Não.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Observei seu rosto.
A respiração.
Os olhos.
O ritmo da fala.
Nada mudou.
— Costuma repetir todas as perguntas?
— Quando preciso.
Ela sustentou meu olhar.
— Então minha resposta continua sendo a mesma.
Fiz uma anotação mental.
Nenhum desvio de olhar.
Nenhuma pausa incomum.
Nenhum sinal evidente de mentira.
Aquilo me incomodava.
Ou ela dizia a verdade...
...ou era muito boa em escondê-la.
Antes que eu pudesse continuar, um carro passou lentamente pela rua.
Sedã preto.
Vidros escuros.
Sem placa dianteira.
Meu instinto reagiu antes da razão.
Olhei para o veículo.
No mesmo instante, percebi Eva acompanhando sua passagem pelo reflexo da vitrine.
Foi um movimento mínimo.
Quase imperceptível.
Mas existiu.
Quando o carro desapareceu na esquina, voltei a encará-la.
— Conhece aquele veículo?
Ela franziu levemente a testa.
— Não.
Mentiu.
Dessa vez eu tinha certeza.
Não por causa da resposta.
Mas porque seus dedos apertaram discretamente a borda do balcão.
Um gesto pequeno.
Involuntário.
Suficiente para denunciar que alguma coisa havia mudado.
Mantive a expressão neutra.
Não adiantava pressioná-la.
Ainda não.
Afastei-me do balcão.
— Tenha uma boa tarde, senhorita Borges.
Ela não respondeu.
Apenas me acompanhou com os olhos até a porta.
Entrei novamente no carro.
Antes de ligar o motor, olhei uma última vez para a padaria.
Eva permanecia atrás da vitrine.
Imóvel.
Pensativa.
Ela escondia alguma coisa.
A questão já não era se escondia.
Era o quê.
E, principalmente...
Se aquele segredo existia para proteger Caio Borges.
Ou para proteger a própria vida.