Eva
Esperei o carro dele desaparecer na esquina antes de voltar a respirar direito.
Era ridículo.
Conrado Almeida m*l tinha levantado a voz durante a conversa.
Não me ameaçou.
Não tentou me intimidar.
Mesmo assim, bastava sua presença para deixar meus nervos em alerta.
Porque ele fazia perguntas olhando nos meus olhos.
Como se enxergasse tudo o que eu tentava esconder.
— Eva?
A voz de dona Célia me trouxe de volta.
— O pão francês acabou.
Piscar foi suficiente para afastar os pensamentos.
— Já vou buscar mais.
Peguei as bandejas ainda quentes e voltei para o balcão.
O restante da tarde seguiu como qualquer outro dia.
Clientes entrando e saindo.
O cheiro de café fresco.
Crianças escolhendo doces.
Idosos conversando sobre futebol e política.
Por fora, tudo parecia normal.
Mas eu não conseguia esquecer o sedã preto.
Nem o olhar do delegado quando percebeu minha reação.
Ele tinha visto.
Eu tinha certeza.
Tentara disfarçar.
Falhara.
Pouco depois das cinco da tarde, tirei o avental.
— Boa aula, menina — disse dona Célia.
Sorri de leve.
— Obrigada.
Coloquei a mochila nas costas e saí da padaria.
O caminho até o ponto de ônibus era curto.
Cinco minutos.
Conhecia cada casa, cada comércio e cada rosto daquele trajeto.
Mesmo assim, alguma coisa parecia diferente.
As pessoas falavam mais baixo.
Dois rapazes encostados em uma motocicleta interromperam a conversa quando passei.
Uma senhora atravessou a rua segurando o neto pela mão.
O clima estava pesado.
Como se toda a comunidade esperasse alguma coisa acontecer.
Continuei andando.
Foi então que ouvi meu nome.
— Eva.
Olhei para trás.
Luan vinha em minha direção.
Era um dos homens que trabalhavam para Caio desde muito antes de eu terminar o ensino médio.
Devia ter pouco mais de trinta anos.
Sempre educado comigo.
Sempre sério.
— O que foi? — perguntei.
Ele olhou discretamente para os lados antes de diminuir a voz.
— Preciso falar com você.
Meu estômago se apertou.
— Aqui?
— Não.
Apontou para uma rua lateral.
— Dois minutos.
Hesitei.
Não gostava quando alguém ligado ao meu irmão aparecia de surpresa.
Nunca significava coisa boa.
Ainda assim, acompanhei Luan até um beco estreito, longe do movimento.
Ele passou a mão na nuca.
Parecia nervoso.
Muito nervoso.
— Você precisa tomar cuidado.
Franzi a testa.
— Com o quê?
— Tem gente de fora rondando o morro.
— Isso não é novidade.
— Dessa vez é diferente.
Meu coração acelerou.
— Diferente como?
Ele respirou fundo.
— O pessoal do Morro do Cruzeiro está procurando uma forma de atingir o Caio.
Senti um frio subir pela espinha.
— E?
Os olhos dele encontraram os meus.
— Você.
Demorei alguns segundos para entender.
Quando entendi, ri sem humor.
— Não seja ridículo.
— Eu queria estar sendo.
A expressão dele não mudou.
— Ouvi uma conversa hoje cedo.
Estão levantando seus horários.
Sabem onde você trabalha.
Sabem onde estuda.
Sabem o ônibus que você pega.
Meu corpo inteiro ficou gelado.
— O Caio sabe disso?
— Ainda não.
— Então avisa.
Luan permaneceu imóvel.
— Ele está desaparecido desde ontem.
Engoli em seco.
Meu irmão fazia aquilo às vezes.
Passava dias sem dar notícias.
Mas seus homens quase sempre sabiam onde encontrá-lo.
Se Luan dizia que não sabia...
Era porque realmente não sabia.
— Você acha que é verdade?
— Acho.
A sinceridade na resposta me assustou mais do que qualquer outra coisa.
Olhei para a rua.
As pessoas continuavam vivendo suas rotinas.
Como se o mundo não tivesse acabado de mudar.
— O que eu faço?
Luan pensou por um instante.
— Vai para casa.
Não anda sozinha à noite.
Se puder, falta à faculdade por alguns dias.
Balancei a cabeça imediatamente.
— Não.
Ele me encarou.
— Eva...
— Eu não vou abandonar minha vida toda vez que alguém resolver brigar com meu irmão.
Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
— Eu já faço isso há anos.
Já deixei amizades para trás.
Já perdi oportunidades de emprego.
Já escondi meu sobrenome em entrevistas.
Não vou desistir da faculdade também.
Luan fechou os olhos por um segundo.
— Você continua teimosa.
— E você continua aparecendo só para dar notícia r**m.
Pela primeira vez, ele sorriu de leve.
Durou menos de um segundo.
— Só... presta atenção em quem estiver olhando demais para você.
Assenti.
Ele saiu primeiro.
Esperei alguns instantes antes de voltar para a rua principal.
Meu peito continuava apertado.
A vontade era ligar para Caio.
Perguntar onde estava.
Mandar que resolvesse aquela situação.
Mas eu nem sequer tinha um número para encontrá-lo.
Meu irmão sempre aparecia quando queria.
Nunca quando eu precisava.
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O campus estava mais cheio do que de costume.
Respirei fundo antes de entrar.
Ali dentro, por algumas horas, eu conseguia fingir que era apenas uma universitária.
Não a irmã de um criminoso.
Nem alguém que acabara de descobrir que podia estar sendo caçada.
Encontrei Júlia na porta da sala.
— Achei que você fosse faltar.
Sorri.
— E perder a prova?
Ela fez uma careta.
— Eu tentei esquecer que ela existe.
Entramos juntas.
Durante a aula, forcei minha atenção nas explicações do professor.
Funcionou por quase vinte minutos.
Depois minha mente voltou para o sedã preto.
Para as palavras de Luan.
Para o delegado.
Conrado também havia percebido aquele carro.
Será que ele sabia de alguma coisa?
Afastei o pensamento imediatamente.
Confiar na polícia nunca tinha feito parte da minha realidade.
Muito menos naquele delegado obstinado.
Quando a aula terminou, já passava das dez da noite.
Os corredores começaram a esvaziar.
Júlia recebeu uma ligação da mãe e saiu apressada.
— Amanhã a gente conversa!
Acenei e fiquei sozinha.
Coloquei os fones de ouvido.
Comecei a caminhar em direção ao portão.
O estacionamento estava estranhamente silencioso.
Foi então que ouvi o barulho de um motor.
Um sedã preto entrou lentamente pelo acesso lateral da faculdade.
Meu coração falhou uma batida.
Era o mesmo carro.
Os vidros continuavam completamente escuros.
Ele não estacionou.
Continuou andando... na minha direção.
Instintivamente, tirei um dos fones.
Olhei ao redor.
Havia poucos estudantes.
Um segurança conversava com um entregador do outro lado do pátio.
Ninguém parecia notar o veículo.
Aumentei o passo.
O carro também acelerou.
Um arrepio percorreu minha nuca.
Luan estava certo.
Sem pensar, comecei a correr.