"Ainda bem que sempre existe outro dia.
E outros sonhos.
E outros risos.
E outras pessoas.
E outras coisas"
Clarisse Lispector
❤Continuação Draco Pov❤
E eu não fazia ideia que era ai que tudo terminou, ou será que começou?
Quer saber? Não ligo.
Não me leve m*l, estou estressado e ainda me ocorre essa?!
Sai do veículo ainda respirando com dificuldade por causa do susto e batendo a porta com força. Caminhei até a pessoa.
Se for uma criança, mulher ou alguém de alma pura (eu tenho esse dom de conseguir ver a alma das pessoas quando eu quero, o que é bem útil para o meu ramo de trabalho), já planejo levar para o hospital mais perto e pagar as despesas.
Já se eu perceber que é alguém que não merece a minha benevolência, vou deixar no chão mesmo, pelo menos não irá sujar o banco do meu carro de sangue.
Sangue humano é difícil de tirar do estofado.
Mas quando me ajoelhei perto do ser no chão, me surpreendi com suas nuances.
Era um garoto que devia ter por volta dos 19, 20 anos...
Lindo.
Seus cabelos pretos desgrenhados estão sujos por causa da poeira da rua, mesmo assim lhe davam um charme estranho.
Sua pele tinha um tom moreno que lembrava chocolate.
E todos amam chocolate.
Ele usava um moletom grande azul escuro que em conjunto com a saia rosa, dava pra ele uma aparência fofa.
O garoto não parecia estar ferido, na verdade, parecia estar apenas dormindo em um sono pacífico e tranquilo.
No meio da rua. Quase de madrugada. Em um sábado a noite...
Minha curiosidade atiçou para saber o que o rapaz de saia estava fazendo ali, mas, mais do que isso, para saber quem ele era.
O desconhecido parecia mais um anjo em meus braços... no entanto, sua alma com certeza era humana.
Todavia, o mais incrível era que eu só conseguia ler pureza na alma do mundano. Normalmente bebês e criancinhas que tem almas assim, mas com o passar dos anos, por mais que tentem, todos sujam suas almas com algum tipo de pecado.
Menos esse jovem que está na minha frente.
E isso com certeza me deixou confuso e ainda mais curioso.
Olha que pouca coisa vale o esforço da minha grandiosa curiosidade.
O peguei no colo estilo noiva e levei até o meu carro me perguntando o que fazer.
"Ele é incrivelmente leve. E quente" pensei.
Depois de deixa-lo deitado confortavelmente no banco de trás, fui para o lugar do motorista, abaixei o volume do som e comecei a dirigir novamente, com o dobro de cuidado para não balançar de mais o carro.
No entanto uma dúvida não saia da minha mente: "eu o levo para o hospital ou não?"
Normalmente a resposta seria sim, mas ele não aparenta ter ferimento nenhum e estou com medo de o deixar o hospital sem nem saber pra quem ligar para avisar, ou seu nome que seja.
Ainda mais vestido assim.
Depois de trabalhar no inferno, não confio mais em homens não importa se são médicos, enfermeiros etc. Para serem uns abusadores de merda não custa nada.
Algo que me deixa ainda mais puto.
As pessoas tinham que poder vestir o que quiser sem terem medo de serem assediadas ou abusadas. Pessoas como esse menino tinham que poder se sentir seguros de serem quem são na sociedade, mas isso não é a realidade infelizmente.
Irônico né, eu e o povo do INFERNO, somos mais humanos quanto a isso que alguns mundanos...
Se bem que monstros como esse não deveriam se chamar de humanos. Como Jess Draven disse: "Os verdadeiros monstros se chamam seres humanos".
E o menor pode ter medo de mim ao acordar, mas é melhor ele ter medo mas estar seguro comigo, do que se sentir "seguro" em algum hospital, e acabar sofrendo as consequências por isso.
Afinal, quem era aquele moreno com alma pura?
E porquê eu ligava tanto para ele estar seguro?
Obvio que eu faria isso por qualquer um, mas porquê sinto que isso é diferente?
Então no meio de tantas dúvidas, resolvi o levar para o meu apartamento mesmo. Lá tem quartos de sobra para o pequeno descansar e se recuperar, além de uma equipe médica de prontidão da Slytherin no andar de baixo que pode fazer um checape nele.
Sempre achei melhor morarmos todos juntos para casos de emergências ser melhor de organizar alguma operação, ou para quando eu estou com preguiça de sair de casa pra trabalhar, ai eles podem ir lá no apartamento falar comigo enquanto eu fico deitado na cama ou jogando video game.
Obvio que temos sedes nos quatro distritos, esconderijos, cais, galpões, casas seguras... Mas nada se compara ao nosso prédio na frente do Central Park.
Cheguei na garagem do aranha céu ainda com o moreno dormindo, então o peguei novamente no colo e subi para a cobertura.
O porteiro nem se deu o trabalho de falar comigo, apenas abriu a porta do elevador para nós.
Gosto do senhor Firmino, ele é um senhorzinho maneiro, e tem um filho que é um pedaço dmalal caminho...
O desconhecido no meu colo começou a tremer um pouco por causa do frio me fazendo sair de meus devaneios, então tratei de o segurar firme contra o meu peito para esquenta-lo enquanto controlava um pouco do meu poder para sair em forma de calor pelos meus braços.
O bom de ter o fogo do inferno dentro de si é que você nunca esta com frio.
Entrei no apartamento e fui direto para a parte superior onde fica os quartos de hóspede. Porquê sim, eu moro no cobertura, e o lugar tem dois andares só para mim.
No de baixo fica as salas de estar e jantar, a cozinha, o meu escritório, banheiros, despensa, adega, um mini cinema e sala de jogos. Já no de cima a mina suíte com varanda que da a vista para o central Park, a sala de treinamento, o arsenal de armas e 5 quartos de hóspedes.
Coloquei o menor no maior dentre os 5 que tinha uma decoração mais rústica e acolhedora, antes de descer novamente para a sala e mandar mensagem para a médica da Slytherin, Astoria Greengrass. Tivemos um caso conturbado a uns 3 anos atrás, mas ela é uma excelente médica.
Em menos de cinco minutos a campainha tocou indicando que a doida, quer dizer, a médica chegou. Eu sempre me abismava o quão rápido ela conseguia vir sempre que eu chamava. Isso não é se mostrar de prontidão, é obsessão.
- Olá Astória - Disse bem a contragosto e deixando isso bem explícito na minha cara de cu.
- Boa noite Draco - Cumprimentou com aquele sorriso que me da ânsia de vômito hoje em dia - Em que posso ajudar?
Quase que eu respondi: "Se jogando da minha sacada e ficando bem longe de mim quando eu voltar para o inferno", mas respirei fundo e a guiei até o andar de cima.
Abri a porta do quarto e vi que o moreno continua enrolado nas cobertas que nem uma bolinha de lã do mesmo jeito que o deixei.
Poucas coisas me deixam boiola, mas ver aquele serzinho fofo dormindo com certeza é uma delas.
- Quem é ele Draco? - Astória perguntou um pouco rude, pois sabe que eu não costumo deixar ninguém dormir aqui em casa por causa das armas e os documentos da Slytherin.
- Não é da sua conta. Apenas faça o seu trabalho e me diga as condições dele.
A mulher me olhou com uma cara que daria medo a qualquer um. Mas já nasci recebendo caras como essa no inferno, não me abalo fácil.
Astória mexeu em sua maleta e tirou os equipamentos para avaliar o menino-que-eu-ainda-não-sei-o-nome. Mediu sua temperatura, sua pressão, respiração, pulsação e todas essas coisas de médico.
Quando pequeno tive que aprender o básico de anatomia (muito útil para minhas noites de sexo hoje em dia). Aprendi os pontos fracos do corpo humano, onde apertar para causar o máximo de dor (cof um prazer cof) e prolongar a morte (ou sofrimento no caso de ser alguma alma já morta do inferno) o máximo possível... Mas causar dor é diferente de curar.
Isso é só pra quem sabe mesmo.
- Ok, o garoto está bem, sem sinais de traumas ou danos externos ou internos, talvez uma convulsão leve, mas nada que descanso e uma boa alimentação não resolva. Mas caso ele volte a desmaiar ou a ter muita dor de cabeça e tontura recomendo fazer uma radiografia no hospital. No geral ele está bem fisicamente, mas não posso dizer o mesmo mentalmente. Ele está a baixo do peso, e em conjunto com as olheiras profundas e os cortes meio cicatrizados no pulso... esse moleque com certeza está sofrendo com algo.
Astória disse tudo isso com o mesmo tom de voz cansado e indiferente, como se não se importasse que o garoto deitado está provavelmente com depressão ou algo do tipo.
Mas isso me atingiu.
Sabe quando você fica comovido e incomodado e sente que tem que fazer algo para mudar isso?
As vezes penso que deveríamos nos importar mais uns com os outros. Com o sofrimento alheio...
Empatia.
Não importa se você é humano, anjo, demônio ou monstro, a empatia gere o equilíbrio do Universo.
- Melhor deixarmos ele descansar. E eu já cansei de olhar para a sua cara, pode sair da minha casa Greengrass.
Disse apontando para a porta e suspirando de alívio quando ouvi os passos dela ecoando pelas escadas logo antes da porta de entrada bater.
Olhei mais uma vez para o jovem que ressonava baixinho antes de apagar a luz e ir até o meu quarto, tomar um bom banho.
Depois capotei na cama e me deixei vagar pelo mundo dos sonhos o qual eu estava tão necessitado de ir.
É raro seres como eu dormirem (tipo uma vez por quinzena ou até mesmo por mês) pois nosso corpo está habituado a um outro tipo de passagem de tempo (a infernal), mas quando o fazemos desligamos completamente da realidade. Ficamos completamente vulneráveis, e se usado até mesmo a arma certa...
Podemos morrer.
Mas vale a pena pelo descanso e pelos possíveis sonhos.
E eu sou muito criativo para sonhos...
Só que as vezes, infelizmente, sonhos não passam de utopias.
❤❤Harry Pov❤❤
Odeio acordar. O que custava continuar dormindo? dormir é tão bom.
Mas infelizmente despertei sentindo que um caminhão havia me atropelado. Cada músculo do meu corpo doía pra c*****o, mas nada se comparava a minha cabeça.
E a dor só piorou quando quando fleches do que aconteceu invadiram minha mente.
E olha que noite passada teve muito potencial para tragédia.
Meu pai gritando comigo depois de ver uma mensagem no meu celular do meu ficante e descobrir que sou gay...
Eu ligando desesperado para o Ron porquê eu precisava conversar, e o ruivo atendendo e falando para mim parar de drama e que já era de se esperar que meu pai fosse reagir assim...
Eu correndo pelas ruas de Nova York sentindo as lágrimas quase ofuscarem a minha visão e talvez quase sendo atropelado algumas vezes...
Eu subindo nas vigas de um prédio abandonado até o trigésimo quinto andar...
Eu pulando...
E eu flutuando sem nenhum arranhão... eita!
Sentei abruptamente na cama sentindo minha pressão cair e a visão ficar turva, mas depois de alguns instantes eu estava bem, mesmo sentindo um zumbido estranho no ouvido.
Eu estava... em um quarto de luxo com janela para o centro da cidade?
Que merda é essa? Como vim parar aqui?
O desespero começou a me atingir em ondas.
Não saber onde você está, que horas são, como chegou ali, o que aconteceu noite passada e o c*****o a quatro é perturbador.
Meu coração apertou quando os piores cenários do que pode ter acontecido vieram na minha mente.
Será que... Não. Eu ainda estou vestido e não sinto dor... então acho que não.
Rezo para que não...
Mas só essa possibilidade já me fez chorar.
Odeio ter o psicológico tão vulnerável, odeio ser uma bomba relógio emocional e odeio o fato de ter desmaiado depois de uma tentativa falha de suicídio e não saber o que aconteceu...
Fisicamente eu já vou fazer 20 anos de idade, mas mentalmente, nessas horas chuvosas eu me sinto tão vulnerável como se ainda fosse uma criança pedindo por proteção.
Senti uma crise de ansiedade vindo, o que só me apavorou ainda mais.
Apertei os joelhos contra o meu peito e deitei a cabeça neles deixando as lágrimas rolarem. Me concentrei em respirar mesmo sentindo que iria morrer.
Ontem eu queria isso, mas a sensação é a pior que existe.
Estar quebrado.
Na maioria das vezes não tem ninguém que me ajuda com as crises. Quando eu estou na Inglaterra Luara sempre me da a mão e fica falando de coisas aleatórias, pedindo a minha opinião para me distrair. Sirius costumava me abraçar e falar que eu era o garotinho corajoso dele, enquanto Remus punha as mãos em meu peito e me pedia para imitar a sua respiração.
Uma vez tive uma na frente do Ron e da Mione. Ambos me ajudaram muito na hora, mas depois Ron ficou jogando indiretas falando que eu tinha que ir para o culto porquê só assim me curaria da minha ansiedade.
E Mione apenas ficou quieta.
Mas normalmente prefiro passar os Harry's stormy days, de madrugada sozinho de preferência escutando música.
Olivia Rodrigo e afins né.
Mas eu não estou em casa.
Nem sei onde está o meu celular.
Por Deus, onde estou?
Não sei quanto tempo passou até eu conseguir me acalmar minimamente.
Quer dizer, ninguém no meu lugar conseguiria ficar calmo, mas digamos que eu só estava tendo um surto interno em vez de uma crise de ansiedade.
E noventa por cento do meu dia eu passo tendo surtos internos, então com isso posso lidar. Nenhuma explosão a vista... não gosto das minhas explosões.
Respirei fundo e me levantei (ainda sentindo minha cabeça latejar) rodeando o quarto para me localizar melhor.
Um dos meus dons é ser observador e dedutivo. Mesmo que as vezes me finjo de lerdo pra não ter dor de cabeça.
As vezes é melhor fingir não entender do que encarar as merdas que as pessoas falam e fazem.
Andei por todo o cômodo avaliando cada centímetro.
A mini sacada me mostrou que estou provavelmente em uma cobertura de um dos prédios mais altos de Nova York, além de que já é dia, por volta das 10 horas da manhã já que deve estar fazendo uns 22°C, e o sol ainda está mais pra leste.
Já a total falta de pertences pessoais no quarto me fez supor que ele é provavelmente para visitas, e não o quarto principal de alguém.
Mesmo assim, tudo no recinto exalava luxo.
Os móveis eram esculpidos em madeira de uma maneira bem rústica, e apesar das paredes serem pintadas em um tom bege sem graça, o quarto tinha um ar de poder que só me fez acreditar que o dono ou dona disso tudo tem bom gosto e deve ser podre de rico. Tipo nível meu pai.
Só havia duas portas, uma que deduzi levar até um banheiro, e outra até a saída.
Realmente não sabendo qual dos possíveis lugares era o melhor para mim agora (estou sujo e fedendo então um banheiro seria legal, mas a saída de um lugar desconhecido sempre é bem vinda), abri qualquer uma das duas me deparando com um banheiro trabalhado em tons de preto.
Me olhei no esmalho m*l reconhecendo o garoto que me olhava de volta.
Sabe, eu nem sempre fui esse fodido mentalmente como sou hoje. Até os meus 12, 13 anos eu realmente era feliz. As vezes via coisas que ninguém mais via, mas todos achavam fofo e diziam que eu era criativo e poderia ter até um futuro ciando romances de fantasia ou ficção científica.
Mas eu estava crescendo, e ser criativo não era mais fofo, e sim maluco ou noiado. Meus surtos começaram a ficar mais frequente e eu já os via para todos os lados.
Como se eles quisessem que eu os visse... mesmo eu não sabendo o porquê.
Contei para o meu pai, mas essa também foi a época que ele começou a ficar mais estranho com todos, e até dissolveu a parceria das empresas com os meus padrinhos.
Eu lembro que quando tinha 14 pedi pela primeira vez para ele me deixar buscar ajuda em um psicólogo talvez, mas James se recusou totalmente a isso. Para ele era só eu parar de querer ver coisas que eu pararia...
Mas elas não pararam.
Não que isso seja de tudo r**m. Quer dizer, lá no fundo, eu amo ver o que vejo. É como se fosse certo, e toda vez que vejo um ser supostamente sobrenatural eu sinto que estou conectado com algo maior.
O sentimento de estar em um lar que nunca estive.
E apesar de algumas coisas que vejo serem monstruosas e me darem medo... também me dão esperança de que, só talvez, o mundo seja mais do que ir pra faculdade, ouvir seu pai reclamar de você e ler fanfic sozinho a noite pra se lembrar como é sorrir...
E isso seria incrível, se não fosse o fato de isso me tornar diferente dos outros. A sociedade trata as diferenças como se fosse um mau a ser extinguido. Desde que nascemos somos induzidos a seguir um padrão, a pensar e agir como a maioria acha certo.
Prego que se destaca é martelado.
E mesmo quando você gosta do que te torna único, você se vê com muito medo de aceitar isso e ser o próximo a ser martelado.
Eu amo usar as roupas que uso... mas tenho medo de ser assediado ou ser vítima linchamento por ser homem e gostar de me vestir assim.
Eu gosto de conseguir ver algo que ninguém mais vê... mas tenho medo de isso significar que sou doido e anormal.
Eu amo ter me descobrindo gay... mas a vida já é difícil de mais por mim ser como sou sem ter que enfrentar a homofobia que, infelizmente, vem quando nos assumimos socialmente.
E é por isso que não reconheço o menino que me olha de volta no espelho. Sei que ele é uma mera fachada do meu verdadeiro eu. Uma máscara que uso...
Só tenho medo de não saber mais tirar a máscara e acabar me perdendo no próprio papel que criei para sofrer menos na sociedade... Mas isso me faz sofrer internamente, e as vezes isso é de mais para aguentar sem querer colocar tudo para fora como ontem.
Mas enfim, desviei o olhar do meu reflexo e liguei a torneira, deixando a água escorrer entre minhas mãos antes de lavar o rosto e tentar dar um jeito no meu cabelo sem ter sucesso.
Com as minhas roupas não tinha nada o que poderia fazer, então apenas tentei desamassar o moletom e descer a saia até os joelhos com medo de quem encontraria ao cruzar a outra porta.
Criei coragem e abri a segunda porta do recinto, essa que dava para um corredor longo com vários quadros estranhos pendurados nas paredes.
A curiosidade foi maior que eu, então fui até o primeiro dentre deles e quase que tive um dejà vú.
Pintado cuidadosamente em tinta a olho, estava uma sala ampla que nem aquelas salas do trono que vemos em filmes de realeza. Sete seres estavam lá sentados em cadeiras feitas de crâneos e ossos, tendo ao seus lados crianças que eu diria serem seus filhos.
No entanto, o que me fez ter uma sensação de reconhecimento pela figura foi as faces desses sete "reis". Completamente obscuras, refletindo toda a angustia do mundo. Olhos vagos que afugentam toda a beleza e cativam as feras, ao mesmo tempo que crepitam emanando ódio e poder.
Luxuria, ira, inveja, gula, preguiça, soberba, avareza... tudo irradiava de um simples quadro pintado em tons escuros e quentes.
E apesar de não ter visto expressões assim todas juntas e potencializadas, tenho certeza que é exatamente isso que vejo nos rostos de alguns dos monstros que já vi na rua.
Passei para o próximo quadro a esquerda, sentindo que estava diante de um quebra cabeças que não era capaz de resolver.
E eu odeio coisas sem soluções.
O próximo quadro parecia ter sido pintado pela mesma pessoa do primeiro. Os traços quase que esteticamente perfeitos mostravam dessa vez uma família de pai, mãe um filho e uma filha.
Reconheci os dois homens e a menina menor do quadro anterior. O mais velho era o que estava sentado bem ao centro, tendo os dois filhos em pé lado a lado. Mas dessa vez eles pareciam quase que humanos, sem a áurea tão pesada em volta deles.
Todavia o pai tinha asas. Não essas fofinhas que vemos em filmes ou desenhos, e sim grandiosas assas que parecem refletir a própria lua, mesmo sendo em um quadro.
Desviei a atenção das asas e voltei para o garoto mais novo. Seus cabelos eram loiros quase que platinados, com uma feição dura mas que se punha a sorrir.
Isso me chamou atenção. Quem sorriria no meio de um cenário tão caótico como aquele?
Mas ai percebi que parecia estar fazendo cócegas na jovem que parecia de mais com ele, e que sorria como se o mundo dependesse disso.
Achei a cena fofa, mas quando fui para o próximo quadro, tive medo.
Era o mesmo garoto que estava a sorrir antes, mas agora ele, um cara moreno alto e uma menina com cabelo chanel curtinho estavam sobre uma pilha de corpos, todos sujos de sangue e com armas esquisitas nas mãos...
Quem tem quadros de chacinas pendurados no corredor de casa?
Depois eu que sou o pirado da história.
E foi isso que me fez lembrar onde eu estava.
"Para de fazer cosplay de visitante de galeria de artes e vai da um jeito de sair daí Harry Potter" briguei mentalmente comigo mesmo.
Ok, estou em um corredor e tenho várias portas... Ou eu saio abrindo todas até achar a que me tira daqui, ou eu abro uma e entro e vejo onde da e se possui outras portas lá dentro...
Mas que porre em! Pra que morar em um apartamento com tantas portas? Imagina chegar bêbado nessa bagaça.
Bufei caminhando até a primeira que vi, abrindo-a e entrando de uma vez.
Não poderia ter me arrependido mais.
A sala poderia se passar por qualquer outra sala se não fosse as CENTENAS DE ARMAS estranhas organizadas em várias prateleiras iluminadas por luzes de led vermelhas e verdes.
Se eu já estava surtando de medo antes, agora meu cu não passa nem sinal de Waifai.
Engoli em seco antes de começar a caminhar pela grande sala. A minha direita diversos modelos de facas, adagas e punhais, desde os mais simples e pequenos, até os maiores e com cabos que brilhavam tanto quanto o sol se faziam presentes. Um eu até acho que estava cravejado de diamantes.
DIAMANTES CARA.
Depois vieram as armas de fogo. Uma mais potente que a outra, fazendo o meu cérebro de faniqueiro viajar bem longe com a chance de estar em um arsenal de uma Máfia perigosa.
"Para de viajar Harry Potter e foca na vida real" briguei normalmente comigo mesmo.
É, talvez Mione esteja certa e eu seja esquizofrênico no final das contas... Não ligo, isso me torna uma pessoa excêntrica e complexa.
Em outro armário vieram as armas brancas, como arco e flecha, machadinhos, cerrotes e uns bagulhos que eu juro que imaginava só existirem em filmes.
Mas na real? O medo passou um pouco quando vi os estilos de arco e flecha, aljavas e materiais para arqueiros. Isso era tão fascinante.
Quando eu tinha cinco anos de idade, Sirius e Remus me levaram nas férias para um vilarejozinho indígena perto de Cansas, e lá todos sabiam arco e flecha.
E eu cismei que iria aprender também.
Obvio que isso resultou eu um mini Harry desajeitado correndo pelos quatro cantos com um arco e flecha que era o dobro do seu tamanho em nãos, acertando em tudo conter lugar, menos no alvo.
Sirius não se importou nem um pouco, na verdade, nos divertíamos muito juntos. Mas ai um dia naquele verão eu sem querer acertei uma flecha na perna do padrinho Remus fazendo com que ele fosse para o hospital muito puto com o Sirius por me deixar com um arco e flecha na mão sem supervisão.
Quando Remus teve alta e voltamos para Nova York, o homem logo tratou de me colocar em um grupo escoteiro.
Fui escoteiro até que umas coisas bem sérias aconteceram e meu pai me proibiu de voltar. Mas eu amava. Aprendi realmente arco e flecha, técnicas de sobrevivência, primeiros socorros, o que fazer quando ficar perdido na mata...
O bom é que as outras crianças de lá nunca ligaram muito para o meu jeito estranho de ser. É certo que as vezes eles riam quando viajávamos eu ficava passando gloss labial no meio da floresta, mas o que eu posso fazer, eu tinha que continuar lindo baby.
Peguei um arco composto dentre os muitos no armário. E vi que ele se encaixou perfeitamente na minha mão. Nem leve de mais, nem pesado de mais.
Sempre me atraí por arcos compostos pois eles tem duas polias em cada ponta que a corda passa diminuindo a força da tração do elástico da mesma, e consequentemente, diminuindo a força (que eu não tenho muita) que eu tenho que fazer ao atirar, me fazendo ter uma mira melhor no meu alvo.
O empuxo da corda, mas meus reflexos e concentração são o suficiente para superar o meu problema de vista me fazendo um arqueiro até que razoável.
Com o arco em mãos e uma flecha já preparada, voltei a sair em direção ao corredor e as outras portas.
A pessoa abençoada que me sequestrou vai levar uma flechada no cu se depender de mim.