Capítulo 13: Os Fugitivos

2620 Palavras
Ao atingirem a cidade de Nápoles, Jeremy já não tinha mais forças para controlar o trem com seu poder, desmaiando assim que as rodas pararam na Estação Central da cidade. Caleb e Rouen apoiaram Jeremy em seus ombros e deixariam o trem, não fosse a patrulha de Filhos que vinha na direção deles. Decidiram aproveitar as habilidades herdade de Caleb para saírem pela linha do trem, tomando todo cuidado possível para não serem ouvidos. Caminharam rápido até o fim da estação, descobrindo que estavam a um muro separados da rua. Caleb abriu um buraco no chão, quase como um túnel por baixo do muro, e passaram para o outro lado, fechando a passagem; Rouen não conseguia acreditar que nenhum Filho os tinha visto, mas não parou de caminhar rapidamente por isso. Viraram qualquer esquina ou entravam dentro de qualquer casa ou loja toda vez que viam Filhos do Abismo patrulhando pelas ruas. Sabiam que era apenas uma questão de tempo de serem encontrados, por isso, precisavam sempre se mover. Apenas pararam quase cinco quilômetros de distância da estação, onde encontraram uma casa pequena. Com apenas três cômodos, o lugar tinha o tamanho perfeito e era incógnito o suficiente para eles se esconderem e decidirem qual seria o próximo passo. Para ser sincero consigo mesmo, Caleb não achou que conseguiriam sair de Roma, muito menos ir tão longe quanto Nápoles – mesmo que ainda estivessem dentro de território inimigo. – Nossa melhor chance é ir até Nova Jerusalém. – Jeremy, que estava deitado em um sofá e bebia um copo grande de água, disse. – Minha conexão com a memória coletiva dos Filhos é uma a**a poderosa. – Não acho que eles vão me aceitar lá. Não com Vizard dentro de mim. – Ele contou rapidamente sobre a última vez em que esteve na cidade dos anjos. Nós podemos nos encontrar com aquele garoto, aquele que tem a Miʻridʻr, Vizard disse na mente de Caleb, ele é aliado dos anjos. Se conseguirmos a confiança dele, também conseguiremos a dos anjos. Caleb repetiu a fala do Ryak para os outros. – É uma boa lógica, mas não temos a menor ideia de onde ele pode estar. – Rouen comentou, sua voz com o mesmo tom sabe-tudo de sempre; Caleb sentiu saudade do tom. – Nosso melhor plano continua sendo Nova Jerusalém, Caleb. Quando os olhos de mel de Rouen caíram sobre ele, Caleb sentiu o coração aquecer. Sentia que podia fazer qualquer coisa se ela estivesse ao seu lado, mesmo que isso significasse correr o risco de ter uma espada de fogo sendo transpassada em seu peito. – Ok. Vamos para Nova Jerusalém. – Ele teve que concordar. – Nossa melhor aposta é ir pelo Mar Mediterrâneo, já que os Filhos não podem atravessá-los diretamente, apenas com a ajuda daqueles malditos Pnamryaks. – Nem nós podemos, Caleb. – Jeremy retrucou. – Pelo menos, acho que não. Você tem um Filho dentro de você, literalmente. Apesar de minha contraparte não existir mais, não acho que conseguiria atravessar o Mar. – m***a. – Rouen falou; até mesmo Caleb foi pego de surpresa, não se lembrava de sua namorada usando tal palavra antes. Ela sempre fora meiga demais. – Se nós vamos por terra, nós viemos várias horas para o lado errado. E pior do que isso, nós estamos presos em uma maldita península, o que significa que, para irmos até Nova Jerusalém, vamos ter que voltar todo o caminho até o topo do mundo. – A não ser que a gente force um Pnamryak a nos levar para onde queremos ir. – Jeremy disse com um sorriso esperto. – Não será fácil, mas acho que consigo fazer um deles nos levar até Nova Jerusalém. – Capturar um Pnamryak? – Caleb disse, cruzando os braços. – Um plano meio doido, não? – Mais do que você imagina. _____________________________ Fazenda Shiroikitsune, Japão Thais e Minato encaravam a estranha mulher que se apresentara como Re'ut. A nenhum dos dois o nome pareceu familiar. Ao ver que nenhum dos dois respondia como ela desejava, a mulher acrescentou: – Desculpe, é que esta é a versão natural do meu nome, e minha favorita. – Ela olhou para Minato. – Não acho que você saiba qualquer versão de meu nome, mas você – virou para Thais – é americana. Para você, sou Ruth. A ficha de Thais, então, caiu. Apesar de que tanto seu pai quanto ela mesma serem magos eslovenos, sua mãe não o era; de fato, ela nem gostava muito que os dois praticassem magia. Católica como era, Emma Walker sempre insistia nas visitas dominicais à igreja, para pedir perdão por suas práticas mágicas – mesmo que no final daquele mesmo dia eles estariam praticando feitiços mais uma vez. As missas, porém, serviram para que Thais aprendesse um bocado sobre a Bíblia e seus personagens. Uma delas era Ruth – ou Rute, como Leo a conheceria. Para ser sincera consigo mesma, Thais não se lembrava com certeza do que ela tinha feito em seu tempo, mas sabia que ela se casara com um rei e que fora bisavó e parte da linhagem de Jesus. – O Criador me disse que você viria, senhorita Walker. Tem alguém aqui comigo que gostaria muito de revê-la. O primeiro pensamento da jovem foi Leonard, mas ele havia partido para China tanto tempo antes; e da última vez que Thais conversara com Týr, eles estavam em Nova Jerusalém, onde uma batalha terrível aconteceu contra um inimigo inesperado: demônios. Como Thais queria ter estado lá, protegendo seu amigo e, até mesmo, lutando, mesmo que esse não fosse exatamente seu forte. Sua mente não teve muito tempo para tentar adivinhar quem viria a seguir, mas logo que viu os mesmos olhos azuis que, muitos e muitos anos antes foram os primeiros a encantar seu coração – um inocente amor de criança que não contava com o fato de eles serem primos. Viu o cabelo castanho-claro, quase loiros, e um sorriso terno. John não era a criança quem ela se lembrava, pelo contrário. Agora ele tinha a aparência de vinte e seis anos, amis ou menos, sua barba era cheia e bem tratada, um pouco mais escura que seus cabelos. Vestindo uma roupa simples e grossa, de jardineiro, ele parecia ter acabado de sair de um labor pesado, como se uma guerra não estivesse acontecendo pelo mundo inteiro. Thais correu para abraçar seu primo. Apesar de ele retribuir, não tão intensamente quanto ela, quase por educação. Quando John expressou-se com palavras, Thais dolorosamente sabia o que viria: – Não me leve a m*l, eu sempre gosto de receber abraços de mulheres bonitas, mas, eu tenho a estranha sensação de que te conheço, só não consigo encaixar o lugar. Diferente dela, de Minato e de Ruth, John não tinha as memórias de sua vida. _____________________________ Caleb caminhava sozinho pela rua sem se importar se era visto ou não – claro que estava a alguns quilômetros de distância do esconderijo, onde Rouen havia ficado, que era um lugar diferente do primeiro que conseguiram encontrar logo quando chegaram a Nápoles dois dias antes. Não é que o rapaz não se importava de não ser visto, pelo contrário, o plano era ser visto e atrair quantos Filhos conseguisse; se tivesse sorte, um Pnamryak estaria entre eles. Com Vizard vivendo sob o punho estreito de Kifo durante algum tempo, ele notou que o Filho da Morte tinha a estranha necessidade de manter os mais fortes perto dele, em outras palavras, Ryaks e, principalmente, a Soulryak – os mais poderosos entre os Filhos do Abismo. Todavia, sabia que ele mandaria alguns desses em missões especiais contra alvos importantes para guerra – como Leonard Ross e o próprio Vizard, neste caso, Caleb. Os primeiros Filhos foram surgindo de maneira crescente, sempre atacando com a lava do Abismo. Caleb usou a terra para se proteger e prender os Filhos, às vezes, o fazendo com cinco ou seis ao mesmo tempo. A facilidade com que fazia o deixava impressionado, quase nem se cansava. Apenas quando derrotara o centésimo adversário que viu o primeiro Ryak surgindo do nada. Vizard, dentro da mente de Caleb, reconheceu Tart – o Pnamryak de sua antiga organização – como aquele que surgiu para trazer outro m****o da Soulryak, Vella. Chegou o momento de agir rápido. Usando toda sua v*****e, Caleb bateu com força o pé no chão, fazendo tremer o solo, quase como um terremoto; porém direcionado aos dois inimigos recém-chegados. Ao mesmo tempo, lançou algumas pedras contra eles, desequilibrando-os de vez. Jeremy, que seguia Caleb de perto, sempre mantendo-o em vista, usou sua eletricidade – uma descarga grandiosa – para nocautear ambos. Vizard, assim como Caleb, jugou uma boa ideia abrir um buraco para engolir Vella, que apesar de ser uma Kayryak, levaria um tempo para acordar e sair de sua prisão. Eles não tinham magia, infelizmente, para amarrá-lo com galhos e plantas – o que o incapacitaria completamente, eles apenas não sabiam se por causa da madeira ou da magia. Usara algumas correntes, uma venda e o colocaram no ombro para caminharem até o esconderijo. Foram atacados algumas vezes pelo caminho, mas nada que Caleb não soube lidar; o único problema foi garantir que eles não estavam sendo vistos há quarteirões do lugar. Jeremy precisou usar sua eletricidade de uma maneira muito especifica para garantir que Tart não revelaria sua posição assim que recuperasse a consciência – mesmo não vendo os arredores, os Manáryaks podiam detectar outros Ryaks através da memória coletiva, apesar de o mesmo ser muito mais difícil com os Filhos tradicionais, cujas vozes na memória eram tantas, que seria como encontrar uma agulha num palheiro. Nem Vizard, muito menos Caleb, conseguia imaginar como Jeremy era capaz de fazer aquilo; sabiam apenas que exigia uma concentração imensa. Jeremy mantinha as pontas de seus dedos de ambas as mãos na cabeça de Tart. Caleb via, de tempo em tempos, uma corrente elétrica passando entre os dedos. Tart levantou a cabeça lentamente, sentindo os pulsos atados à cadeira de ferro que, por sua vez, estava parafusada ao chão. Ele tentou teleportar-se, mas uma descarga elétrica passou agonizantemente por seu corpo, arrepiando seus cabelos castanho escuros. Rouen, que observava tudo em um canto, contorceu-se de angústia. Ele respirou fundo algumas vezes, antes de levantar o rosto sarcasticamente para Caleb; como sabia sua posição, Caleb não tinha ideia. – Como nós pudemos acreditar que Vizard, o Leão, era o mais poderoso e merecia ser o maior Senhor de Guerra do Paraíso. – Bufou entredentes. – Você cedeu seu lugar para um reles humano. – Ele fez para escapar de Kifo e ser livre. – Caleb retrucou, se sentindo estranhamente ofendido; ao mesmo tempo, seu tom era defensivo. – Diferente de você, que serve a um senhor contra sua v*****e. – Pela mesma razão que me ajoelhei para Vizard, eu me ajoelho para Kifo. Ele provou-se o melhor de todos nós quando conseguiu absorver mais almas. – Uma corrente de eletricidade passou por ele; Tart mostrou os dentes, como se mordesse algo para aguentar a dor. – Com ele, Caleb, nós podemos ir para qualquer lugar do mundo. Podemos ir até o garoto... Como é o nome dele mesmo? – Rouen disse. – Bem, não importa. Podemos usá-lo para convencer os anjos. – Não sabemos onde ele está. – O outro retrucou, fitando-a nos olhos e depois olhando para baixo. – Eu sei. – Tart retrucou, estranhamente, ele tinha um tom entre a zombaria e o sarcasmo. – Ele até matou uma de nós. – Da Soulryak? – Caleb disse, surpreso; ao mesmo tempo, em sua mente, Vizard tinha a mesma surpresa quando falou exatamente as mesmas palavras, no entanto, ele tinha certa tristeza. – A cabeça quente da Wurth. – Pelo tom de sua voz, Tart não parecia simpatizar com sua companheira caída. – Nunca foi tão boa quanto o resto de nós, sempre usando sua verdadeira forma em qualquer combate; nunca soube escolher o momento certo para surpreender seu adversário. Era apenas uma questão de tempo. Caleb e Rouen trocaram olhares, sem saber muito bem como reagir a todas as informações que Tart estava jogando neles. Ao mesmo tempo, Vizard perguntava em sua mente: por que ele está falando tanto? Quando era meu subordinado, Tart nunca foi de falar além dos relatórios de suas missões. Algo está errado, Caleb. Todos lembraram de um pequeno detalhe enterrado alguns quilômetros de distância quando o chão tremeu e um prédio há dois quarteirões de distância desabou. Vella estava procurando por eles; a cada frustração de um prédio vazio, ela nivelava-o. Tinham que tomar a decisão imediatamente. – Para onde vamos? – Jeremy disse, pela primeira vez, sem quebrar sua concentração; tanto Caleb quanto Roen viam a dificuldade que ele tinha para falar. Os dois trocaram olharem; nenhum queria tomar a decisão. – Dane-se. – Caleb disse, tocando em Tart; Rouen imitou-o. – Vamos para Nova Jerusalém. As correntes elétricas em Tart aumentaram exponencialmente. Eles praticamente sentiam a dor do Pnamryak, mas não tiveram pena. Antes de desaparecerem, ouviram Vella derrubando um prédio do outro lado da rua. _____________________________ Sentada ao lado de John, em silêncio, e sozinhos em um banco diante de um campo de margaridas, Thais tentava decidir se seria melhor contar ou não sobre a curta vida que os dois compartilharam na Terra; sobre a magia que ele tivera e ela descobrira por causa dele; sobre, até mesmo, sua própria morte – mas com tudo que acontecia no Paraíso, talvez ele até mesmo já tivesse um reflexo de seus últimos momentos, como ela o tinha logo que Leonard chegou. Decidiu começar com esse assunto. Não ficou surpresa quando ele respondeu que não se lembrava de coisa alguma. Thais respirou fundo, tomando a decisão de contar tudo. Primeiro falou sobre a amizade dos dois, sobre como o verão era a época mais esperada do ano por ela, já que era quando recebia as visitas dele. Fez uma lista curta de todos os livros que compartilharam e sobre os quais comentaram vividamente durante toda noite – John abriu um leve sorriso, achando engraçado a ironia em “vividamente”. Então, foi para os quebra-cabeças que ele sempre deixava espalhados pela casa quando partia de volta a Nova York, onde morava com a mãe, que, por sua vez, era irmã do pai de Thais. Focou mais no último, que deixara antes de sua morte, e como ela tinha resolvido e o quão esperto ele fora de colocar sua própria mãe na construção do quebra-cabeça. Fora o melhor de todos, ainda mais considerando o que ela encontrou no final. Por último, ela contou sobre o descarrilamento, sobre a quantidade de pessoas que morreram naquele dia, sobre como ela sentiu depois que ele já não estava mais em sua vida e o quão vazio era. Não entrou no mérito da guerra e sua participação nele – o que ela contara até ali já era demais para uma alma inocente. – O que eu... O que eu coloquei no final? – Foi a primeira coisa que John disse desde o abraço; a confiança que ele demonstrara antes já não exista. Thais tinha certeza que ele acreditou em cada palavra que ela disse. – Isto. Thais levantou-se e pegou uma das flores do jardim. Voltou a sentar-se, pedindo para que John esticasse o braço para ela. Ele o fez, estranhando. Ela colocou a flor em seu antebraço e, com algumas poucas palavras e sem qualquer dor, ela se transformou em uma tatuagem. John começou a ofegar de puro medo. Com a mesma facilidade, ela tirou a flor dele a jogou para longe. Seu primo desmaiou em seguida.
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