França, Terra
1940
A família nos braços de Ezra não se mexia, muito menos reagia ao homem diante deles. Tentou chacoalhá-los, mas não conseguiu movê-los. Era como se estivessem paralisados, presos no tempo de alguma forma. Olhou rapidamente para janela e viu que uma bomba que vinha direto para seu apartamento. De alguma forma, apenas os dois estavam livres.
– Quem é... Quem é você? – Ezra gaguejou, sentindo um medo que não sentia desde que era apenas uma criança.
– Eu sou a Morte. – Respondeu de forma simples, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo; Ezra deu uma segunda olhada nele, considerou que sim, era meio óbvio. – Estou aqui para te propor algo, oferecer um trabalho de fato, uma troca.
– Por que deveria acreditar em você?
– Olhe a sua volta – a Morte esticou os braços para os lados, apesar de que sua expressão estava imutável – sou no mínimo um ser sobrenatural muito poderoso, capaz de parar o tempo. – Ezra jurou que seu lábio sorriu de leve no canto esquerdo. – Vou colocar em palavras que você possa entender: depois de morrer, você atenderá meu chamado, me obedecerá em qualquer coisa que eu solicitar até o dia em que eu te liberar dos meus serviços. Em troca, eu levo você e sua família para outro lugar, onde terão uma vida nova sem qualquer memória das coisas terríveis daqui, exceto por você, é claro. Novos nomes, novas memórias; será como se tivessem vivido ali a vida inteira.
– Não. – Ezra retrucou, levantando-se devagar, tomando cuidado para não deixar sua família cair; apesar de que eles não se mexeriam mesmo assim. – Meu Criador jamais me perdoaria se eu vendesse minha alma para um demônio como você.
– Eu não sou um demônio. – O judeu percebeu uma raiva nascer na Morte. – Tais criaturas inferiores tremem aos meus pés. Não há nada que eles temam mais do que a Morte. Diga seu preço, então?
– Não apenas minha família, mas meus sogros, primos, todos que eu conheço. Meus amigos que agora estão sofrendo por não terem conseguido escapar da Áustria. Coloque-nos em uma mesma comunidade. – Seu tom era quase de ordem, o que deixou a Morte ainda mais irritado. – Como você disse, novos nomes, novas memórias, novas vidas.
A Morte levantou a mão direita, com o dedão e o médio encostados um ao outro: – Acordo feito. – Então, estalou os dedos.
Um homem surgiu de repente na porta menos de um segundo depois da família Bassevi desaparecer no ar, sem deixar qualquer rastro – Sephiroth, mais uma vez, cumprira com sua parte do plano perfeitamente. O homem em questão tinha a pele quase tão cinza quanto a da própria Morte. Seus olhos rosados pareciam ver muito além do que o resto dos mortais. De fato, ele era capaz de ver a conexão entre Paraíso e Terra, ver entre o Reino dos Vivos e dos Mortos, afinal, ele mesmo caminhava entre os dois Reinos.
– Não! – Ele vociferou. – Para onde os mandou?
– Se fosse para você saber, eu não teria chegado aqui primeiro. – A Morte caminhou na direção dele; seus passos não faziam qualquer barulho. – Eu posso não ser capaz de levá-lo ainda, Karmesin – a Morte usou essa última palavra como um insulto com propósito de inferiorizar o homem –, mas quando for a sua vez, o Inferno terá uma punição especial para você.
– Quando eu conseguir aquele menino, eu não terei que me preocupar com você.
– Mais cedo ou mais tarde, que abraço todos, inclusive necromantes. – Não havia ameaça em sua voz, mas o Karmesin sentiu seus cabelos ralos arrepiarem.
Antes de abrir os olhos, Ezra sentia a dor das novas memórias invadindo sua mente. Não haviam acontecido, mas os sentimentos, felizes ou tristes, que carregavam doíam tanto quanto se fossem reais. O novo lugar em que crescera era muito diferente. Não crescera na pobreza da Áustria, mas na riqueza californiana. Não passara os dias caçando e treinando em uma floresta, mas nadando entre as ondas do Pacífico. Ele definitivamente gostava mais dessas memórias, exceto pelo novo nome.
Dean Brown. Ele nunca tinha falado tal nome, mas o achava h******l.
Quando finalmente abriu os olhos, descobriu-se em uma cama extremamente confortável, provavelmente feita de penas de algum pássaro nobre. Ao seu lado, sua Mazal – ou melhor, Helen Brown – dormia um sono profundo, sem qualquer preocupação no mundo. A guerra, o medo, o trem escuro há milhares de quilômetros de distância.
O quarto, então, era cinco vezes maior do que qualquer outro que tivera durante toda sua vida original. Todas as paredes eram brancas, as quinas eram enfeitadas por colunas gregas, uma varanda dava direto para o mar. Havia três portas, uma para um banheiro recém-redecorado, uma para um closet – este sim tinha o mesmo tamanho dos quartos antigos – e uma se abria ao resto da casa.
Agora acionista de uma gigantesca companhia de refrigerantes e dono de sua própria franquia de restaurantes – com cinco na Califórnia e outros doze espalhados pela costa oeste – Ezra, ou melhor, Dean tinha mais dinheiro do que poderia gastar em uma vida inteira. Seus filhos estudavam na melhor escola do estado, e uma das top cindo do país, e o futuro não poderia ter uma perspectiva melhor para os Brown.
Sua esposa, porém, tinha ganhado uma vida exponencialmente mais interessante do que a de Dean. Helen era curadora do museu da Academia de Ciências da Califórnia, e recebia os objetos mais interessantes do mundo, fósseis, cerâmicas e um ou outro quadro de passagem. Uma peça em particular que chegara no dia anterior tinha chamado sua atenção: La Dame Blouche.
O quadro havia sido pintado por Clément Bellerose, um obscuro pintor francês cujo trabalho havia sido descoberto apenas séculos depois de sua morte. Helen simplesmente não sabia explicar o que exatamente o objeto tinha de diferente de todos os outros quadros que ela já tinha visto.
Ele saiu da cama, indo até a varanda para aproveitar a vista por alguns minutos antes de começar o dia. Tinha uma reunião em algumas horas que poderia significar uma mudança drástica em sua nova vida. Enquanto estava ali, viu seus sogros caminhando pela praia, curtindo a aposentadoria – Dean sorriu ao perceber que a Morte havia cumprido com sua parte no acordo. Logo atrás dele, vinha um amigo de infância – em ambas as vidas – correndo de sunga, deixando seu abdome sarado a mostra.
– Alguém caiu da cama hoje. – Helen sussurrou em seu ouvido enquanto abraçava-o por trás, inclinando-se para beijá-lo.
– Eu tenho uma reunião agora de manhã. – Explicou.
– Em pleno domingo? – Ela estranhou; Dean fez as contas dos dias na cabeça, percebendo que as memórias antigas o confundiram.
– Confundi os dias. – Ambos riram. – Estou precisando de uma folga. Hey, hoje é o dia, baby. – Ele a puxou com força para seu colo; ela soltou um leve grito de surpresa, mas não negou o beijo que ele ofereceu.
Não demorou muito para que as crianças entrassem correndo no quarto, indo pular na cama imediatamente. Os gêmeos, não mais Eber e Elazar, agora eram Brian e Jonas, respectivamente; Ester agora era Lily – não era diminutivo de Lilian. Dean não poderia deixar-se pegar errando estes nomes. Os pais fizeram o possível para tirá-los da cama, mas logo a bronca tornou-se uma brincadeira de pega-pega.
Quando as controlaram, mandaram que tomassem banho e se arrumassem para irem ao parque – viver perto da praia logo deixou tal passeio entediante, por isso, costumavam ir ao Parque de Golden Gate ou algo parecido. Dean achou estranho como levava tal situação de maneira tão rotineira, afinal, ele nunca tinha ao menos colocado os pés nos Estados Unidos.
Precisaram descer apenas algumas ruas a pé para chegarem ao Parque. As crianças queriam ir ao Strawberry Hill, ver a cachoeira – era a parte favorita deles. Eles foram caminhando até lá, atravessaram o Lago Stow em uma pequena canoa remada pelos adultos, parando em um píer ainda menor. Eles, então, passaram a caminhar.
O dia passou rápido depois de eles almoçaram em um pequeno restaurante chinês que havia ali. As crianças brincaram em um gramado durante toda a tarde – depois de verem a cachoeira, é claro. Ao pôr-do-sol, eles voltaram para o barco e de volta ao parque. No entanto, Dean parou no meio do lago para observarem o laranja se tornar vermelho e a lua dominar o céu em seguida.
Naquela nova vida, o primeiro encontro entre Dean e Helen terminou naquele lugar, com o primeiro beijo entre os dois acontecendo quando luz se tornava vermelha. Desde então, quase quinze anos depois, eles sempre paravam ali quando podiam para relembrar aquele momento tão importante.
Dean suspirou uma vez. A Morte havia feito um ótimo trabalho com as memórias dele – e com certeza com a do resto também –, mas ainda assim, não era aquilo que havia acontecido de verdade. Eram memórias vazias. Deixou esse pensamento de lado, agradecendo ao Criador que sua família estava a salvo e bem longe da maldita guerra que acontecia na Europa.
– Você pareceu triste no lago, Dean. – Helen comentou, enquanto caminhavam de mãos dadas e as crianças corriam alguns metros à frente.
– Triste? – Ele sorriu. – Não, nostálgico. Me sentindo velho também.
Ao voltarem para casa descobriram que os pais de Helen, agora John e Mary, estavam esperando por eles na porta de casa. O casal havia esquecido que tinham marcado de jantar com eles. Depois de vários e vários pedidos de desculpas, foram as crianças que os convenceram a ficar e comer a pizza que pediriam em minutos.
– E como está indo as padarias, John? – Dean disse, enquanto colocava queijo ralado em seu pedaço, o que era um hábito apenas de sua nova vida; mas pelo menos, os sogros mantiveram a profissão de antes.
– Indo bem, mas Geller está tendo dificuldades para compreender todos os pormenores do negócio. – Dean estranhou ou nome.
Na nova vida, Helen tinha um irmão chamado Geller, mas não conseguia se lembrar de tê-lo na vida anterior, na Áustria. Tentou recordar-se de tudo que sabia sobre ele de agora: fora adotado ainda bebê, quando Helen na época tinha apenas três anos, pois Grethel não podia mais ter filhos. Não havia algo de semelhante na vida anterior, então, como ele poderia ter sido incluso na mudança que a Morte tinha causado.
Claramente, ele era parte da família, o que só poderia significar que na outra vida ele também o era, mas ninguém o sabia. Apenas uma conclusão pairava na mente de Dean: Geller, seja lá quem fora, tinha uma conexão de sangue com eles, mais especificamente, com o sogro – afinal, por que criar uma história de adoção se o bebê tivesse saído do útero de sua esposa.
Conversaram por horas a fio, até que Helen resolveu levar as crianças para dormir acompanhada de Grethel, que estava morrendo de v*****e de ler uma história para as crianças. Assim que ficaram sozinhos, Dean disse, incapaz de conter sua língua:
– Geller é seu filho.
– Mas é claro. – O velho soltou uma risada. – Eu o criei desde que era bebê.
– Não. – Dean, que antes fitava o copo de refrigerante em sua mão, voltou o olhar para o sogro. – Ele é seu filho biológico. Você...
Antes que ele pudesse continuar a frase, o sogro levantou-se num pulo, derrubando a cadeira na qual sentava-se. Ele encarava Dean como se fosse o próprio d***o. Este também se levantou, um pouco assustado e na defensiva, pronto para usar suas habilidades de outra vida para lutar.
– Tome muito cuidado com o que está insinuando, garoto. – Seu tom era de pura ameaça; mas por alguma razão, Dean não sentia medo. Entretanto, levantou as duas mãos em sinal de rendição.
– Retiro minhas palavras.
Até o momento em que as mulheres voltaram, o silêncio foi rei entre os dois. Logo depois, os dois mais velhos deixaram o casal; estava ficando tarde para permanecerem na rua. Deixaram a casa pela varanda que dava para praia e seguiram caminhando a luz da lua com o som do quebrar do mar ao fundo.
O passar dos dias, das semanas, e as preocupações diárias – em r*****o a sua franquia e ações – não foram capazes de tirar sua descoberta da cabeça. Estava feliz de ter salvo um judeu da perseguição, é claro, mas o fato de que havia sido sem querer porque seu sogro tivera um relacionamento extraconjugal não saía de sua mente. Ele queria muito saber quem fora a mãe e se ela havia sido trazida para a América.
Depois da morte de seus pais, um velho amigo da família assumira esse papel paternal, ajudando Ezra em seus momentos de necessidade; algo semelhante havia acontecido quando Ezra tornou-se Dean. Este homem chamou-se Aryeih e, nesta nova vida, era chamado Christopher.
Sua secretária bateu a sua porta, anunciando que os participantes da reunião daquele dia haviam chegado. Ele suspirou uma vez, deixando a sala em seguida.
Como havia acordado com a Morte, todos os seus amigos e família viviam em uma mesma comunidade. Christopher não era exceção, vivendo há três quarteirões de Dean. Sua casa era menor, um pouco mais modesta, mas luxuosa da mesma maneira. Assim que bateu na porta, um mordomo abriu-a; Geoffrey o reconheceu imediatamente, já que Dean costumava fazer visitas semanais a ele.
Encontrou-o em sua sala de estudo, onde lia um exemplar de Os Filhos do Capitão Grant, de Júlio Verne, pela terceira ou quarta vez. Nesta vida nova, Christopher era uma traça literária – na antiga, ele também lia muitos livros, mas a maioria de autores austríacos ou alemães, mas em menor quantidade. O velho precisou apenas cruzar os olhos com Dean para saber que algo estava errado.
Dean narrou suas descobertas, tomando cuidado para não revelar a vida que tiveram antes da América. Ele absorveu cada palavra com seriedade, mas sem qualquer sinal de surpresa.
– Não foi algo rotineiro, sabe. – Christopher explicou, enquanto acendia um cachimbo que pegou de uma gaveta na mesa, voltando a sentar-se na poltrona que estava antes, a frente de Dean. – Durante a guerra, a primeira no caso, nós dois servimos. Fora um dia particularmente difícil, tínhamos perdido quase metade de nosso batalhão para aquele maldito gás mostarda. Recuamos para uma cidade pequena cujo único estabelecimento ainda funcionando era um bordel. Depois de algumas bebidas, todos nós nos deitamos com mulheres. Uma delas acabou engravidando. Sinceramente, não sei como a mulher chegou até aqui.
– Sabe o nome da mulher?
Christopher ficou pensativo por longos minutos. De repente, seus dedos amoleceram e deixaram o fumo ir ao chão; seus olhos viraram-se para trás enquanto ele recostava-se brutalmente na cadeira, quase derrubando-a para trás. Ele começou a tremer e espumar pela boca, como se estivesse possuído por um demônio.
Desesperado, Dean tentou ajudá-lo, mas não tinha ideia do que estava acontecendo. Ele se aproximou, tentou segurá-lo, mas parecia que sua força aumentara quando empurrou o homem contra uma mesa de centro, quebrando-a imediatamente com seu peso. Dean levantou-se outra vez para tentar ajudar, mas tomou um susto quando, subitamente, os olhos de Christopher voltaram-se para frente, mas ao invés do castanho escuro e gentil de antes, eles eram vermelho-rosados. Sua boca mexeu-se nas palavras, mas a voz que saiu não pertencia a ele.
– Te encontrei!