Capítulo 15: Lições

2622 Palavras
Alexandria, Paraíso Ofegante, eu usei toda a força que restava em mim para empurrar o último golem para sua posição em frente a coluna. Com um brilho, ele paralisou-se no lugar. Em seguida, Týr pousou em meu ombro e nós ouvimos o som de pedras sendo movidas. Olhei para a entrada – naquela altura, depois de um intenso jogo de gato e rato, eu já não tinha certeza por onde eu tinha entrado – que estava a minha esquerda; a pedra que me separava de Lana, Miguel e Lael movia-se para o lado. Sentei-me no chão, ofegante e suado, como se tivesse combatido a Batalha dos Heartless outra vez. Lana sorria, não pelo meu estado, é claro, mas por estar feliz de ver que eu estava vivo. Aparentemente, eles ouviram uma batida de martelo, pedra movendo-se e meus gritos de frustação cada vez que um golem quase ia para seu lugar e dava meia volta. Lana trouxe minha espada até mim, mas pedi que a segurasse por enquanto – eu não tinha forças nem mesmo para levantá-la. Ela me ajudou a ficar de pé quando a pedra anterior se fechou e um novo caminho abriu-se a nossa frente; este descia por incontáveis metros, talvez até quilômetros. Miguel, tomando pena de mim, colocou dois dedos sobre minha testa e disse uma única palavra na Língua de Prata: – Slàna. Não foi difícil deduzir que a palavra significava restauração, pois todo o cansaço que sentia em meu corpo desapareceu completamente. Eu me sentia tão bem quanto no primeiro dia que entrei no Paraíso. Agradeci, sabendo que a sensação não duraria muito tempo. Depois de respirar fundo, segui Lana para dentro do novo caminho, com Lael logo atrás de mim. Essa escadaria parecia ter cinco vezes o tamanho da anterior, mas não teria como saber, pois não contamos os degraus da primeira, muito menos da segunda. Eu fiquei curioso para saber quanto tempo levamos para descer; se era dia ou noite do lado de fora, apesar saberia quando fizéssemos o caminho de volta. Apenas então minha ficha caiu de que teríamos que subir todos aqueles degraus de volta. Senti que ia chorar. Nós chegamos a um pequeno corredor parecido com o primeiro, mas este era mais gelado e as tochas que o iluminavam era de um intenso azul. Peguei-me fitando as chamas por longos minutos. Todos nós parecíamos hipnotizados por elas. Miguel, então, estalou os dedos, trazendo todos nós de volta ao presente. _____________________________ O pequeno g***o seguiu o arcanjo até o final do corredor, onde outra pedra redonda os separava dos objetivos. Nela, as mesmas palavras em Ciphari, Urshistaniano, Atlantiano, Kandom e Lumurai: Filhos de Adão darão o primeiro passo. Filhos do Criador, o segundo. Juntos, o terceiro. Sabia que era chegada a hora de ele próprio enfrentar qualquer desafio que estivesse do outro lado. – Eu irei – ele disse, formalmente, virando-se para os companheiros e encarando cada um nos olhos; os humanos ficaram um pouco desconfortáveis – pois é o momento do Filho do Criador. Miguel já esperava que não houvesse discussão – Lael jamais contrariaria seu general e os humanos sabiam que nenhum deles poderia entrar; nem mesmo a fada invisível, cuja presença ele sentia, pareceu se manifestar ou pelo menos, Leonard Ross não deu qualquer sinal de que ela falava. Deu as costas para ele e tocou na pedra, vendo a luz prateada surgir sob seus dedos, como aconteceu com Leonard. Alguns passos mais, ele estava do outro lado. A arena diante de si era parecida com aquela dos golens, mas ao invés de treze colunas, havia sete; também não havia golens ali. Contudo, o que encontrou do outro lado foi muito pior que os seres de barro. De acordo com o lore do universo que havia nos livros da Cidade de Prata, aquelas criaturas eram haeḍa, uma espécie capaz de mudar de forma, mais especificamente, na forma de sua fraqueza. Suas habilidades, porém, também permitiam usar essa fraqueza contra o inimigo – caso sua fraqueza fosse uma faca, por exemplo, você se sentiria propenso a usá-la para tirar sua própria vida. Naturalmente, os haeḍa não tinham forma, ou pelo menos, ninguém jamais as viu – nem mesmo o Criador, já que tais criaturas não provêm dEle. Assim que qualquer um colocasse os olhos sobre eles, suas formas já eram a da fraqueza. Diante de Miguel estavam as suas: Rafael e Lúcifer, mais especificamente, a culpa que ele sentia por não ter sido capaz de impedir seus terríveis destinos. Um deles foi sujeito a experimentos terríveis que acabaram com sua sanidade e o levaram ao óbito; o outro havia se tornado o Rei do Inferno, Inimigo do Criador e de tudo que Ele representa. Daquela geração de querubins, apenas Miguel sobrara – e este falhava a cada momento naquela maldita guerra. Eles todos eram defeitos na Criação. Miguel via seus irmãos como eram antes da guerra e, no caso de Lúcifer, antes da Rebelião. Sentiu seus olhos marejarem de saudade daqueles dias mais simples, quando a maior preocupação que tinham era guardar os portões da Cidade de Prata – antes da Ascenção aos céus do Paraíso, da criação do Éden e dos humanos. De repente, seus olhos se tornaram vermelhos e eles sacaram suas espadas. Não houve Fogo Celestial, afinal, eram apenas haeḍas na forma de Rafael e Lúcifer. Miguel sacou a sua própria para se defender. Enquanto trocavam golpes, imagens do passado insistiam em vir a sua mente, de quando treinavam juntos, cada um descobrindo uma nova forma de suas asas não entrarem no caminho de um combate. Valentine os supervisionava naquele dia – os três querubins mais velhos revezavam, principalmente por que cada um tinha uma coisa diferente a ensinar. Ah, se Miguel tivesse reparado os sinais naquela época, poderia ter evitado a Rebelião. Lúcifer sempre usava de truques ou trapaças para vencer os combates, usando de golpes sujos. Naquele dia não foi diferente; ele conseguiu vencer tanto Rafael quanto Miguel. Ao fim do treino, quando Valentine ficou sozinho com Miguel, ele disse algo que ficaria para sempre na mente do querubim: – Nem todas as batalhas são vencidas com espadas. De volta ao presente, Miguel teve absoluta certeza que as lembranças que surgiram naquele momento foram enviadas pelo Criador. Não importava o quão eficaz Miguel fosse para derrotar as cópias de seus irmãos, jamais venceria, pois aquele não era um combate de força. A resposta estava na própria natureza dos haeḍas. Num movimento certeiro de pulso, ele conseguiu desarmar Rafael. Girou para desviar de um golpe de Lúcifer; agarrou seu pulso com força em seguida e o fez bater no chão com a espada. Estava desarmado. Antes que pudessem fugir, Miguel agarrou a ambos, abraçando-os um em cada braço. Ele deixou que as lágrimas escorressem livres em seu rosto, sem se importar. Por tanto tempo ele carregou a culpa da traição de Lúcifer – a culpa de que não pudera salvá-lo, impedi-lo de levantar sua espada contra seus iguais – e nas últimas semanas, o remorso de ter sido incapaz de salvar a vida de Rafael. Incapaz de trazer de volta o irmão com quem lutou por mais de quatorze mil anos. – Eu sinto muito. Eu falhei com ambos. Deixei que a escuridão levasse os dois. Deixei que vocês se tornassem minha fraqueza, quando sei deveriam ser minha força. – Miguel nunca imaginou que um dia estaria naquela situação tão... Humana. Afastou os dois, para olhar nos olhos, que agora tinham seus tons originais. – Mas eu tenho milhões de anjos espalhados pelo Paraíso neste exato momento, tentando vencer uma guerra que pode destruir a todos nós. Eu não posso falhar com eles também. Rafael e Lúcifer sorriam, concordando com a cabeça. Então, os haeḍas desapareceram sem deixar qualquer vestígio. Enquanto a pedra pela qual entrara abria-se, Miguel chegou à conclusão que estava enganado – não eram haeḍas. Olhou para o teto, mais especificamente, para o Criador, sabendo muito bem as lições que tinha de aprender naquela caverna se quisesse seguir em frente para encontrar o Primeiro Fogo Celestial. _____________________________ Quando a pedra diante de nós começou a abrir, eu estranhei, pois nenhum de nós, nem mesmo Lael, ouviu qualquer sinal de combate do outro lado. Lael até mesmo notou que sentiu muito pouco do Fogo Celestial da lâmina de Miguel. O anjo foi o único a ter coragem de perguntar o que havia acontecido; Miguel narrou enquanto descíamos mais um lance gigantesco de escada que descia muitos e muitos metros. Um terceiro corredor fechado por uma pedra redonda nos aguardava. Nele, as mesmas palavras estranhas de antes, e pela tradução de antes, eu sabia que Miguel e eu éramos os únicos que poderiam entrar – Lana não tinha um corpo, mas talvez fosse possível que Lael fosse no lugar de Miguel, ou talvez não, pois fora o querubim a passar no último teste. O querubim e eu paramos diante da pedra e depositamos nossas mãos sobre ela. O brilho surgiu sob nossa palma e, sincronizados, demos passos à frente, atravessando a pedra como se fossemos Kitty Pryde dos X-Men. No entanto, do outro lado, não havia um ringue para um teste qualquer. Depois de quase dois mil anos, alguém colocava os pés em Alexandria – a verdadeira Alexandria. Nós saímos no topo de uma escadaria que estava acima de quase tudo na cidade, exceto por um castelo que estava no centro da cidade, em meio a densa floresta vermelha. Entre as árvores, víamos vários prédios, todos vazios e parcialmente tomados pelas plantas e musgo; todos tinham um estranho formato piramidal, com degraus grandes formando um terço de andar. Pareciam ter saído de algum lugar do Peru. O castelo, que era mais alto que nós, ficava no centro da cidade, no mesmo formato dos outros prédios, mas as pedras pareciam tomar um andar inteiro; como era por dentro, eu não tinha ideia – nunca havia entrado em uma pirâmide. Ele era tão alto que chegava a tocar no teto da gigantesca caverna na qual a cidade se encontrava. Olhei para meu improvável companheiro de jornada e passamos a descer as escadas. Týr saiu de bolso e pousou em meu ombro. Ela perguntava – mais para si mesma do que para mim – como toda aquela cidade poderia existir no Paraíso, mas não na Terra; e como a própria Morte o desconhecia, pois não estava na lista das diferenças entre a Terra e o Paraíso. Ao mesmo tempo, ela podia ver que muitas histórias existiram naquele lugar e estava curiosa para saber o que acontecia. Enquanto ela falava, fiquei de olho em Miguel para tentar descobrir se ele tomava ciência dela. Chegamos à beira da floresta, que silenciosa como era, parecia não conter qualquer tipo de animal. Não vi nada passando de um lado para outro, caçando ou fugindo, ou fazendo qualquer coisa que seja; ainda, eu olhava para os lados, procurando. Miguel não tinha a mesma preocupação. – Essa estrutura é Urshistaniana. – O querubim disse quando paramos entre as duas colunas que separavam a floresta da entrada do castelo; não havia porta. – Uma das línguas de antes? – Estranhei, lembrando-me da estranha palavras que ele e Lael leram nas pedras redondas. – Sim. – Miguel acrescentou quando perguntei: – Urshistan fora um reino que existiu no Saara, antes deste ser um deserto. Urshistan não existia mais antes mesmo do diluvio, mas não existe registros na Cidade de Prata sobre o que aconteceu com eles. O Conselho diz que é uma parte da História que deveria ser esquecida. – Deve haver alguma informação sobre eles aqui, não? – Não. – Miguel respondeu rapidamente. – Esse prédio foi reconstruído por Alexandre, o Grande. Não é o original. – Estranhei, mas tomei por verdadeiras suas palavras. Porém, ele tinha algo mais a falar do lugar. – Eu sinto uma poderosa magia aqui muito parecida com a que existe no Triângulo das Bermudas, porém mais sombria, talvez por causa da conexão com Amorah. Eu estava extremamente curioso para saber mais sobre o misterioso lugar chamado Amorah e o que existia lá, mas se os anjos não tinham informações sobre Amorah, seria impossível saber mais sobre eles. Miguel deu um passo a frente e eu o acompanhei para dentro da estrutura. Todavia, assim que passamos o arco, Miguel desapareceu de vista; não havia qualquer pena para dizer que um dia ele esteve ali. Týr até voou um pouco para tentar encontrá-lo, mas logo pousou, dizendo que o ar ali estava pesado demais para voar – algo que não entendi muito bem, mas soube que voar não faria bem para ela. Havia uma parede de pedra avermelhada em cada um dos meus lados, contudo, menos de um metro a frente, os arredores estavam completamente penumbres. – Pronta? – Perguntei, sentindo meu coração acelerar. – Seja lá o que está a nossa frente, Leo, o desafio será para você e ninguém mais. Acho um milagre que eu mesma tenha conseguido passar com você. – Ela respondeu em tom de sabedoria; ela estava muito mais cheia de frases assim desde que voltou de Godheim. – Talvez seja por causa de sua altura. – A fada acertou minha orelha em cheio; eu soltei uma risadinha e seguimos em frente. Caminhei por alguns minutos, mas era difícil contar o tempo sem um relógio ou luz natural – ou qualquer luz, por sinal. Eu mantinha o tempo todo minha mão na parede a minha esquerda, que estava gelada por ser feita de pedra e não haver um sol ali para esquentá-la. Surgiu, então, no fim do corredor um pequeno ponto de luz avermelhado que, quando mais eu caminhava, maior ficava. Notei que a luz não era bruxuleante, o que indicava não ser uma tocha; ao mesmo tempo, não tinha o mesmo tom alaranjado ou branco de uma lâmpada artificial. Seja lá do que era feita aquela iluminação, era algo único a ela mesmas a nada mais. De certa forma, era bela. Quando estava perto o bastante, notei uma porta, mas não era de ferro ou pedra ou rústica, pelo contrário, poderia pertencer a minha casa quando estava vivo. Ela brilhava, como se tivesse sido vernizada recentemente. A maçaneta era simples, de alavanca, um pouco maior do que minha própria mão; não havia tranca. Confuso, olhei para Týr, que levantou os ombros e indicou com a mão para que eu a abrisse. Hesitante, o fiz. O lugar no qual me encontrava do outro lado não era familiar, muito pelo contrário. Era um quarto com uma cama de casal, papel de parede esverdeado e florido; estava tão bem colado, que parecia ter sido feito naquele mesmo dia. Uma das paredes, porém, era coberta por um guarda-roupa gigantesco, quase duas vezes maior do que o que eu tive em casa ou no Colégio Andersen. Havia em uma das paredes uma penteadeira de espelho redondo, da cor de madeira vernizada escura. Não havia janelas ou outras portas. No entanto, eu não estava sozinho. Ali havia um homem que, sentado ao lado da cama em uma poltrona, velava e lia para uma pessoa que estava deitada sob as cobertas, dormindo o que parecia ser um sono sem sonhos. Aproximei-me devagar, sentindo o macio carpete sob meus pés – foi quando percebi que meus coturnos não estavam em meus pés, mas ao lado da porta, na entrada. O homem não levantou a cabeça ou demonstrou de qualquer maneira que notara minha presença. Pelo menos, não enquanto eu não descobri quem era a pessoa deitada na cama. Com seu rosto redondo e belo, os olhos fechados, e os cabelos castanhos mais compridos do que a última vez que a vi, Elena dormia o sono dos inocentes.
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