Capítulo 16: A Bússola de Ouro

2612 Palavras
Fazenda Shiroikitsune, Japão, Paraíso Thais sorriu ao ver seu primo abrindo os olhos. Deitado em seu colo desde o momento em que desmaiara, John por pouco não acertou a cabeça no banco – não que ele se machucaria, é claro, mas Thais instintivamente o protegeu. Ele se sentou, olhando em volta, sem saber a princípio onde estava; demorou um pouco para encontrar-se em Kitame, onde vivia desde o começo da guerra. – Você também era um feiticeiro, John, quando ainda era vivo. – Ele encarou os olhos de Thais. – Se eu pudesse, eu te ensinaria, mas não acho que conseguiria aprender aqui no Paraíso. Eu nem tenho muita certeza como eu mesma sou capaz de fazer a magia. Apesar das palavras, Thais não tinha intenção de tentar; não o queria. A Magia, qualquer tipo, era capaz de corromper os magos, fosse aqueles que buscavam poder ou simplesmente por aqueles que desejavam algo que não poderia ser obtido naturalmente. Essa corrosão era exatamente o que impedia os magos e feiticeiros de entrarem no Paraíso – ela e John eram exceção, pois ambos estavam ali por causa da Morte. Thais temia que se ensinasse a magia para ele, isto poderia custar seu lugar no Paraíso. – Eu não acho que quero aprender magia de qualquer forma. – John disse, com um sorriso; agora, já estava sentado de volta no banco. – Não me leve a m*l, é claro, mas minha vida aqui tem sido boa. Eu já vivi em vários lugares diferentes, até mesmo no Irã por um tempo. Não preciso de mais nada. Thais se lembrava muito bem de quando ela não precisava mais nada, quando sua estadia no Paraíso era simples e sem magia; quando sua única preocupação era servir um bando de motoqueiros muito simpáticos e livres de álcool. O único problema era que ela não sabia que havia outras coisas, coisas de seu passado, com a qual se preocupar. Ela ainda não tinha certeza se aquela ignorância era uma maldição ou uma benção; mas imaginou que, para John, a ausência de memórias era o melhor. – Mas você acredita em mim? – Thais disse, fitando o chão por alguns segundos, sem saber muito bem o porquê não conseguia olhar mais em seus olhos. Contudo, sua resposta não veio imediatamente; quando levantou os olhos, descobriu-o paralisado. – Gostou do meu presente? – As palavras soaram, mas pareciam estar escritas em uma lápide. Primeiro, ela viu os pés descalços parando logo a sua frente. Levantou a cabeça para encarar as órbitas vazias da Morte. Ele tinha algo que ela jugou ser um sorriso no rosto, mas estava tão distorcido, que poderia muito bem ser uma paralisia em seu rosto. – Do que está falando? – Seu encontro com John, é claro. Ou acha que ele veio parar em Kitame, de todos os lugares do mundo, por coincidência. – Seu tom era gélido, porém sarcástico. – Bem, foi um pouco complexo armar esse encontro, o importante é que deu certo. – Nós deveríamos ter morado no Paraíso juntos, desde o começo. – Thais disse, irritada, levando-se para ficar na mesma altura da Morte, porém, ele ainda era uma cabeça mais alto. – Deixar vocês dois juntos traria muitas suspeitas para mim, Thais Walker. – Os pelos da nuca dela se eriçaram quando ele disse seu nome; ela podia vê-lo claramente escrito em seu túmulo, como se estivesse na Terra. – E não é como se você lembraria de qualquer forma. Contudo, agora que estão juntos, eu sinto muito ter que separá-los outra vez. Os planos mudaram. Thais ficou em silêncio, pois ela sabia muito bem do que ele falava; sabia que as coisas haviam mudado, que Kifo estava muito mais poderoso do que a Morte gostaria e em breve ele poderia sair completamente do controle – se é que a Morte tinha qualquer comando sobre seu filho. – Leonard está em outra missão, o que significa que não passará mais aqui para encontrá-los. Vocês devem partir para o sul, mais especificamente, São Paulo, onde encontraram Dean e depois para Portugal, onde está atualmente Amélie. Jared se juntará a vocês no caminho até Kushiro, onde há um barco preparado para vocês. – Thais reconheceu os nomes, pois eram os mesmo que ele tinha dito na primeira vez que se reencontraram em seu Castelo; ao mesmo tempo, se perguntou quem poderia ter preparado tal embarcação. – Contudo, faça seu caminho até o Peru, onde escondi algo que irá ajudar em sua jornada há quase dois mil anos, quando comecei a planejar esta empreitada. Eu não planejava usar, já que a magia que existe nele é extremamente sombria, mas agora não temos escolha. Em São Paulo, você se juntará com Desmond. A garota, ainda silêncio, não se lembrava de ter visto a Morte tão falante daquele jeito. Ele sempre fora objetivo, sempre sendo vagos em seus objetivos – nunca falando qual era o proposito final para tal coisa ou algo semelhante; Thais nunca gostou muito disso nele. – Alguma pergunta? – Agora sim ela ficou ainda mais surpresa. – Não? Ótimo. Eu gostaria que Týr estivesse aqui, mas sua magia também irá servir. Estenda a mão para mim, palma para cima, e repita: Nav: Zlati Kompas. – Thais conhecia muitos feitiços, principalmente de cura, mas este em específico, não. Ela fez como a Morte dizia. Em sua mão surgiu uma rosa dos ventos com oito pontas, cada uma apontando para uma direção. Em dourado, ela nunca tinha visto nada semelhante, pois a bússola não apontava para o norte. – Este é um feitiço que irá apontar o caminho até seus objetivos, mas apenas funcionará três vezes: para encontrar o objeto, encontrar Desmond e Dean, e encontrar Amélie. Depois, fiquem em segurança e esperem meu próximo contato. Parta imediatamente. Thais concordou com a cabeça e a Morte desapareceu. O tempo ao seu redor voltou a funcionar; John começou a responder à pergunta que ela tinha feito, mas parou ao ver que sua prima tinha misteriosamente indo da posição sentada ao seu lado para de pé em menos de um piscar de olhos. Percebeu também que ela parecia um pouco perturbada, como se algo terrível tivesse acontecido. – Chegou a hora de eu partir, John. – Ela conseguiu dizer, quase num sussurro; pego de surpresa, ele se levantou. – Do que está falando? – Thais hesitou; não tinha contado para ele sobre seu pacto com a Morte, não tinha certeza se o faria. – Eu... Não posso contar. Sinto muito. – Para sua surpresa, ele sorriu e deu de ombros. – Sem problemas. – Então, a abraçou; a mente de Thais imediatamente foi ao passado, quando eram crianças e o que ela mais gostava era aquele gesto. Ela conseguia ver a lógica que existia por trás da ausência de memórias no Paraíso. – E só para constar, eu acredito em você. John mirou um último sorriso para ela antes de voltar para seu trabalho no jardim. Encontrou Minato e Rute conversando sobre algo que Thais não conseguiu captar, pois pararam de falar assim que ela se aproximou. Pediu para falar sozinha com Minato, dizendo rapidamente que a Morte tinha aparecido para ela – estranhamente, ele nem notara. Explicou quais eram as missões e deviam ir naquele mesmo instante, sem sequer despedirem-se dos hospitaleiros Heartless ou prepararem-se com mantimentos. – Ordens são ordens, não? – Minato disse por fim. Eles se despediram de Rute, que os abraçou e disse bençãos em hebraico para que tivessem uma boa viagem. Entraram no carro que usaram para chegar ali; assim que deu partida, Thais parou, sem saber muito bem para onde ir sem um GPS ou algo do tipo. Olhou para sua própria mão, onde a bússola dourada estava. Simplesmente pensou na Morte e no objeto que tinha que encontrar – o primeiro na lista. Com um leve comichão, a bússola virou alguns centímetros, apontando para algum lugar a esquerda. Ela engatou e partiu, de alguma forma sabendo exatamente para onde tinha que ir. _____________________________ O quarteto – mesmo que com um m****o involuntário – surgiu, em meio a descargas elétricas que quase causaram uma crise de pânico em Rouen, no deserto que cercava Nova Jerusalém. A luz ali brilhava mais intensamente do que qualquer outro lugar do Paraíso e o calor era intenso – devido a guerra e a presença dos Filhos do Abismo, o clima, antes ameno e agradável em qualquer lugar, estava cada vez mais parecido com a Terra. Jeremy manteve Tart, o Pnamryak, paralisado com sua eletricidade até a chegada dos anjos. Não tinha como garantir que ele não fosse imediatamente buscar a ajuda de outros membros da Soulryak. Os seres celestes estavam alertas; mesmo que não tivessem olhos de Filhos do Abismo, eles demonstravam habilidades que não deveriam – exceto, é claro, se fossem Heartless, mas estes não tinham avisado da chegada de mais ninguém, ainda mais por teletransporte. O arcanjo que estava com eles avançou na frente dos outros, com o Fogo Celestial pronto para queimar Caleb até virar cinzas; este, porém, respondeu com o gesto de levantar as mãos, o que fez o arcanjo hesitar por um momento. – Eu não esperava ver você de volta tão cedo, Vizard. – Ele disse; seu olhar superior, principalmente por ter quase o dobro da altura de Caleb. – Não sou mais Vizard. – Caleb respondeu. Ele acrescentou, achando melhor não mentir ou omitir: – Digo, ele está dentro da minha mente, mas agora sou eu, Caleb Chevalier, que está no comando. E este – apontou para Jeremy – é Jeremy Keeler, um humano que apagou o Filho de dentro de si, assumiu seus poderes e seu lugar dentro da memória coletiva. O arcanjo arregalou os olhos em reconhecimento. Caleb percebeu que ele já tinha ouvido falar de Jeremy, mesmo que até então não soubesse seu nome. Em seguida, o arcanjo ordenou que Caleb contasse como eles haviam escapado e, ainda, capturado um Pnamryak. Ele o fez. Com um gesto, o arcanjo pediu para que Caleb saísse do caminho. Sem hesitar, ele cravou sua espada no peito de Tart, que foi selado completamente no Abismo – Jeremy, porém, ao perceber o que aconteceria, soltou o Filho, pois não sabia o que aconteceria com ele mesmo caso a conexão permanecesse. – Nós iremos levá-los e testá-los, para descobrir se dizem a verdade. Caleb sentiu um aperto no peito; em outra época, antes de tudo aquilo, um anjo jamais duvidaria da palavra de uma alma. Ele se perguntou se Terra era assim, porém com homens e mulheres mentindo um para os outros, nunca capazes de saber se dizem a verdade ou não. Devia ser uma vida terrível. Eles foram guiados pelos três escudos que os separavam do portão. O primeiro abriu-se e o segundo só o fez quando primeiro fechou; aconteceu o mesmo com o terceiro em r*****o ao segundo. Caleb entendia o motivo de tanta segurança, afinal, Nova Jerusalém era o lugar mais importante do Paraíso. Se a cidade caísse nas mãos de Kifo, a guerra acabaria. Assim que atravessaram o portão, suas sombras desapareceram, o que surpreendeu Rouen e Caleb, que por serem almas Nascidas no Paraíso, não haviam passado por ali quando chegaram naquele mundo – e nem fizeram visitas em todos seus anos ali. Jeremy conteve uma risada de seus companheiros. Nova Jerusalém estava repleta de almas – e nenhuma delas era novata, vinda recentemente da Terra, já que o Julgamento havia sido interrompido para garantir que Kifo não tivesse acesso a mais almas; o arcanjo não tinha ideia de quantas almas vagavam pelo Vácuo, como era chamado o espaço escuro onde as almas caminhavam para o Julgamento, aguardando. Todas aquelas almas eram de refugiados, que chegavam a Nova Jerusalém quase diariamente, sendo escoltados por anjos ou sozinhos, como eles três. Também havia o que o arcanjo chamou de Heartless – e cujo conceito Caleb entendeu sem muitos problemas. As pessoas ocupavam todos os prédios e casas, algumas montavam acampamentos nas ruas e em lojas. E apesar de tudo aquilo, de todas as coisas terríveis acontecendo fora daquele muro, as almas sorriam; não parecia sofrer. Confiavam plenamente que tudo daria certo. Ele sabia que aquilo era o que os humanos chamavam de Fé, mas sendo um Nascido no Paraíso, ele não sabia exatamente qual era a sensação. Ele nunca precisou acreditar que existia um Criador, pois o via todos os dias nas belas criaturas do Paraíso. No entanto, assim que colocou os olhos em Rouen, ele percebeu que sabia muito bem o que aquelas pessoas estavam sentindo, pois nunca duvidou que veria seu amor outra vez; que a resgataria de Vizard – ou Kifo. Caleb sorriu. _____________________________ Thais e Minato encontram Jared na saída da cidade de Kitami. Ele havia preparado uma quantidade grande suprimentos para a viagem, além de malas para a viagem; Thais achou muito gentil da parte dele preparar tudo aquilo para a viagem. Trocaram para o carro dele e continuaram a viagem pela estrada. O silêncio entre os três era desconfortável. Jared até tentava puxar assuntos, mas Minato já era naturalmente calado, como se ele fosse o herói misterioso de um filme de samurai, e respondia com um som na garganta que m*l se classificava como uma palavra. Thais não conseguia deixar de pensar em John e como gostaria de ter passado mais tempo com ele, principalmente em vida. Tentou imaginar como sua adolescência e juventude seria se ele estivesse lá, mesmo que do outro lado do país, mesmo que se vissem apenas nos finais de semana. Ela pensou nas lições que seu pai, também um mago esloveno, lhe dera e como seria se John tivesse treinado com ele. Estava curiosa para saber como ele havia conseguido despertar sua magia, já que sua mãe – e tia de Thais – não era uma maga como eles. Infelizmente, aquelas eram respostas que Thais jamais encontraria, ainda mais ali no Paraíso, onde seu pai não estava – ela evitava pensar nas terríveis torturas que ele passava no Inferno, pois era impossível ele ainda estar vivo por tanto tempo. Thais não percebeu quando os pensamentos se tonaram em imagens feitas de sonhos. Ela não viu as árvores dando lugar a cidades e as cidades, a árvores. E assim, a viagem passou sem que ela nem ao menos percebesse.   Eles cruzaram pela cidade vazia de Kushiro, como todas as outras do Japão. Desviaram de carros abandonados no meio das ruas, vendo-os parcialmente queimados. Havia sinais de batalha, mas sem a presença de anjos ou almas ali, Thais não tinha ideia do que poderia ter acontecido. Torcia para que as almas tivessem sido levadas e não estavam nas mãos dos Filhos do Abismo. Descansaram em um hotel a beira do rio Kushiro, que dava o nome a cidade. Instalaram-se na cobertura do La Vista Kushirogawa sem nenhum problema, sabendo que mesmo que houvesse pessoas ali, eles seriam capazes de aproveitar o melhor que havia no planeta. A noite foi longa para Thais, que já não tinha mais sono para dormir. Resolveu ir até o saguão do hotel para treinar alguns movimentos de espada. Thais suava como nunca depois de horas de treino. Não tinha de fato acertado nada diretamente, mas apenas movimentar a espada de madeira e seu peso já era exercício o suficiente para ela. Sentindo o corpo extremamente cansado e pronto para desistir de permanecer acordado, ela voltou para seu quarto e capotou na cama. Na manhã seguinte, após o café-da-manhã e conseguirem mais mantimentos para a longa jornada através do Pacífico, o trio encontrou uma embarcação propícia para a viagem e partiram para cumprir a missão da Morte.
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