Lorena Narrando
Enquanto estou terminando de me arrumar para receber o Kevin, ouço o som da campainha soar, verifico as horas em meu celular e noto que demorei mais que pretendia, até porque não costumo me arrumar quando estamos em casa. Eu e o Kevin, estamos nessa há alguns anos, então já nos acostumamos um com o outro, hoje em dia temos mais uma amizade colorida, que outra coisa.
Vou até à porta, dando de cara com um homem lindíssimo e sorridente me esperando.
— Para quê tudo isso? — me refiro a ele estar todo arrumado.
— Tenho que estar bem na fita para minha gata — reviro os olhos e lhe dou passagem para entrar — A propósito, você tá linda. — me dá um selinho, após colocar a caixa de pizza e a garrafa de vinho em cima do balcão da cozinha.
— Obrigada, mas não fiz nada demais.
De fato não me arrumei, coloquei um vestido solto, de alcinha e prendi o cabelo num ra.bo de cavalo alto.
— Você é linda, Lô. Mesmo se estivesse vestida num saco de batatas, ainda assim, continuaria sendo linda. — sorrio, balançando a cabeça em negação.
— Essa cantada realmente funciona?
— Tá funcionando? — pergunta com um sorriso sapeca.
— Definitivamente não. Vem, vamos para a sala. — puxo seu braço de leve.
— Já escolheu o filme?
— O que acha?
— Não sei porque ainda pergunto. — senta no sofá.
— Como se fosse fácil achar um filme que você goste, eu amo terror e você não assiste porque tem medo, parece uma mocinha. — Kevin crispa os olhos para mim.
— Claro, olha os filmes que você gosta, Annabelle, Constantine, cara. Se eu quisesse ver exorcismo, ia numa igreja.
— Lembro bem da última vez — me jogo ao seu lado no sofá — Pensei que você fosse chorar como uma menininha. — rio, tendo lembranças desse dia.
— Tá, tá — estala a língua na boca — O que veremos? — pega o controle da minha mão.
— Só porque estou boazinha hoje, deixarei você escolher.
— Eu agradeço. — aperto os lábios, tentando conter a vontade de rir.
— Otária. — solto uma gargalhada.
Kevin vira de frente para a televisão, entrando no aplicativo da Netflix.
— Achei! — só faltou gritar, apontando o tal filme escolhido.
— Sério, Kevin? A culpa é das estrelas?!
— Quê? Eu sou um romântico nato, você já deveria saber disso.
— O problema não é ser um filme romântico, mas sim, o fato de sempre que nos reunimos, você escolhe esse filme. — bufo e ele ri.
— Se o filme é bom. — dá de ombros.
— Escolhe outro ou nada de filme. — ele bufa, insatisfeito.
— Tá!
Só vejo a tela da minha enorme smart tv deslizando para baixo e nada de ele escolher um filme, quando já estava perdendo a paciência, finalmente o Kevin acha.
— Agora sim! — diz cheio de empolgação — E nem diga que não vai assistir, porque nunca assistimos juntos esse.
Ele escolheu o filme como eu era antes de você.
— Sempre quis assistir com você, então essa é a nossa oportunidade. Que tal? — arqueia as sobrancelhas, provavelmente esperando que eu negue.
— Vai ser esse mesmo, porque já perdi a paciência.
— Assim é que se fala. — pisca para mim e dá play no filme.
A medida que passa a apresentação, aquela coisa chata de início de filme, vou até à cozinha pegar a pizza, o vinho e fazer uma pipoca. É, eu sei, uma bailarina não deveria comer tanto, mas às vezes, só às vezes — sempre que estou com o Kevin — enfio o pé na jaca. Depois é só malhar um pouco e pronto.
Retorno para a sala de estar, levando tudo que fiz, coloco sobre a mesinha de centro e sento ao lado dele.
Kevin estava bastante concentrado durante todo o filme, e devo ser sincera que algumas cenas, melhor dizendo, quase o filme todo me fez lembrar do meu relacionamento com o Caleb, pessoa essa que tento esquecer há anos, sem sucesso. Ao final do filme, Kevin está chorando e minha vontade é de rir, apesar de ter sido bem emocionante, porém, devido aos fatos da minha vida, meu passado, não costumo me emocionar tão facilmente com essas coisas.
— Eu nunca vou aceitar o final desse filme. — comenta, limpando as lágrimas.
— Só me diz uma coisa, Kevin... — ele olha para mim — Quantas vezes você já assistiu esse filme?
Pensa por alguns instantes.
— Contando com essa, são cinco — dou risada — Ah confessa vai, o filme é bom.
— De fato é...
— Mas? — Kevin é uma das pessoas que mais bem me conhece nessa vida.
Respiro fundo.
— É só que, já não acredito no amor, faz um bom tempo. — ele me olha nos olhos intensamente.
— O que aconteceu em seu passado, que te deixou assim? Você nunca me contou com detalhes. — cruzo as pernas em cima do sofá, estilo borboleta, sentando de forma mais relaxada.
— É complicado, Kevin. — coloco vinho na minha taça.
— Ei! Antes de tudo, somos amigos — alisa meu rosto — Sabe que pode me contar o que quiser, não é? — assinto com um menear de cabeça.
— Tudo bem. Já se passaram dez anos, desde que tudo aconteceu. — faço uma pausa, porque ainda dói lembrar. Kevin percebendo, sente empatia.
— Não precisa contar agora.
— Preciso sim, você merece saber.
— Sendo assim, sou todo ouvidos. — sorri, me fazendo sentir confortável.
— Eu e Caleb namoramos por dois anos, sem dúvida foram os melhores anos da minha vida, ele foi meu primeiro amor, meu primeiro beijo, meu primeiro homem, perdi a virgindade com ele. Nossas famílias sempre nos apoiaram, a não ser pela vovó, que sempre teve um pé atrás com o Caleb, e ela estava certa, porque na primeira oportunidade, o cafajeste me traiu.
— Ele o quê? — quase cuspiu o vinho em minha cara — Eu mato esse Caleb!
— Isso mesmo que você ouviu.
— Foi a partir daí, que tudo em minha vida mudou e vim para a Itália.
— Você ainda o ama, né?
— Por um tempo, pensei tê-lo esquecido, mas sempre que minha melhor amiga toca no nome dele, sinto o mesmo de anos atrás, meu coração acelera de uma forma louca.
— Bem que essa sua amiga poderia evitar falar sobre ele... — tem ironia em sua voz.
— Acho meio difícil, já que Laura é irmã dele. — Kevin me olha incrédulo.
— Que roubada você foi se meter, Lô.
— Pois é né — aperto os lábios — Ela até evitou tocar no nome dele por alguns anos, porém, agora, não entendo o motivo, sempre que nos falamos, Laura dá um jeito de falar sobre o irmão.
— Só tenho uma coisa para dizer sobre tudo isso — o olho atentamente — Se um dia eu tiver a oportunidade de conhecer esse tal Caleb, a primeira coisa que farei é socar a cara dele.
Dou uma gargalhada.
— Não ri, é sério, Lô. Como uma pessoa em sã consciência tem coragem de fazer algo assim com você? Tem noção do quanto é maravilhosa?
— Na verdade, tenho sim. — dou de ombros, o olhando com deboche.
— E é para ter mesmo, porque se eu tivesse a chance de ter algo sério contigo, jamais faria isso — iria interrompê-lo, no entanto, ele não deixa — Eu sei, eu sei, você não quer nada sério, não quer quebrar seu coração outra vez, já sei esse discurso de cor e salteado — balanço a cabeça, assentindo — Só tô falando que se um dia você decidir deixar essa bobagem de lado, estarei bem aqui te esperando.
— Você é um ótimo amigo, Kevin. — lhe dou um beijo na bochecha, que por ele virar o rosto, acaba sendo no canto da boca.
Meu amigo me olha por alguns instantes, depois me puxa para seu colo, unindo nossos lábios em um beijo, um beijo maravilhoso, sinto o sabor do vinho misturado ao gosto dos lábios dele, Kevin coloca uma mão em minha nuca, guiando o beijo e a outra leva até minha cintura, apertando-a, solto um suspiro.
— Acho melhor pararmos por aqui, hoje não estou no clima e preciso estudar.
— Tem certeza?
— Sim.
— Tudo bem. Não sabe o que tá perdendo. — me dá mais um beijo molhado, terminando com selinhos e me tira de seu colo.
— Na verdade, sei sim. — mordo de leve o lábio inferior.
— Sou um deus na cama né? Pode falar. — ele passa a mão no abdômen e eu balanço a cabeça em negação.
— Tchau, Kevin. — o empurro na direção da porta.
— Não precisa me expulsar, já tô indo. — abro a porta.
— Obrigada pelo momento de distração, estava precisando. Você é um bom ouvinte.
— Não há de quê, Lô. — deposita um beijo no dorso da minha mão e outro em minha testa, saindo em seguida.
Fecho a porta.
Pego a caixa de pizza vazia, a garrafa de vinho também vazia, levando ao lixo da cozinha, limpo toda a sujeira que fizemos e por último lavo a louça, deixando tudo organizado, tenho mania de limpeza.
Após terminar tudo, desligo as luzes do restante da casa e vou estudar no quarto, onde tenho um cantinho de estudo.
**
Caleb Narrando
Desde ontem, quando minha irmã tocou no meu passado, volta e meia meus pensamentos vão até à Lorena, e por um breve momento, tentei imaginar o que ela podia estar fazendo na Itália. Acabo me distraindo no trabalho por conta disso. Sem resistir, pego meu celular, entro no i********: e procuro por possíveis nomes que ela possa ter colocado no perfil, fazem tantos anos que não nos comunicamos, nem sei mais se ainda tem rede social.
Até que vejo o perfil de uma Lorena Evans, pela foto até parece ser ela, porém, está bem diferente, mais bonita ainda do que há dez anos. Entro no tal perfil, abro uma foto, que me confirma ser ela, não me resta mais dúvida alguma, está vestida de bailarina, o sonho dela sempre foi esse, pelo visto está se realizando. Continuo olhando outras fotos, até que paro em uma, em que Lorena está abraçada a um homem, deslizando mais para baixo, vejo mais fotos dela com esse homem, suponho ser alguém especial em sua vida.
Nem sei explicar o que senti, mas certamente por um momento esperava que ela estivesse solteira.
Sou desperto do meu transe com batidas na porta do meu escritório. Guardo rapidamente o celular.
— Senhor Johnson? — é a minha secretária. Me pergunta somente com a cabeça para dentro da sala.
— Pode entrar. — permaneço sério.
— Vim te entregar esses papéis para serem assinados. — ela coloca a papelada sobre a mesa, inclinando o bus.to em minha direção, consigo ver seus sei.os fartos, sei que está fazendo isso para me provocar, no entanto, desde a morte da minha esposa, nunca mais tive alguém, nem mesmo para uma noite de sexo casual.
— Tudo bem, Hilary. Assim que eu terminar de assinar, te chamo.
— É... Eu estava pensando, que tal sairmos hoje? — passa a língua nos lábios.
— Desculpa, mas terei que recusar, tenho que cuidar dos meus filhos. — não esboço nenhuma emoção em minhas palavras.
— O senhor precisa de uma babá, tem que voltar a viver.
Dou um pigarro, já sem paciência.
— Já disse que não, senhorita Miler. Se era só isso, pode sair. — aponto para a porta.
Ela me olha irritada.
— Desculpa, senhor Johnson. — sai, insatisfeita.
Desde que me tornei CEO na empresa de minha família, as mulheres dão em cima de mim, tentando conseguir alguma coisa, até pararam enquanto eu estava casado, contudo, depois que fiquei viúvo, tudo voltou a ser como antes. Sinceramente não tenho a menor paciência para lidar com isso.
Após a saída dela, retorno ao trabalho.