Pierre
A mansão estava silenciosa, exceto pelo som dos meus passos ecoando no mármore do corredor. O silêncio sempre me trouxe conforto, mas ultimamente, ele carregava um peso diferente. Desde que Ella chegou, algo dentro de mim não se aquietava.
Ela estava a poucos metros dali, no quarto que eu havia designado para ela, trancada e segura. Não confiava nela para deixá-la circular livremente. Não porque achava que fugiria — isso era inevitável —, mas porque o mundo lá fora não era gentil. Especialmente para alguém carregando meu filho.
Mas, apesar de toda minha lógica, algo naquela mulher era... desafiador. A maneira como me enfrentava, sem medo, mesmo sabendo quem eu era, me deixava intrigado. Poucas pessoas ousavam levantar a voz para mim. Ella não apenas levantava a voz, ela cuspia fogo.
Estava imerso nesses pensamentos quando ouvi o interfone tocar.
— Senhor Tavares, há uma visita para o senhor — informou Marcos, meu segurança mais próximo.
— Quem é? — perguntei, irritado com a interrupção.
— Senhorita Renata Monteiro.
Renata. Não ouvia esse nome há meses, e para ser honesto, esperava nunca mais ouvir. Fechei os olhos por um segundo, soltando um suspiro pesado.
— Deixe-a entrar — respondi com relutância, já antecipando a dor de cabeça que estava por vir.
Renata entrou na sala de estar como se ainda fosse parte da minha vida, usando um vestido justo demais e um sorriso calculado.
— Pierre, querido, que prazer te ver — ela disse, aproximando-se com um ar de familiaridade que me incomodava.
— Renata, o que você está fazendo aqui? — cortei, sem esconder a impaciência na voz.
Ela fingiu não notar meu tom, jogando os cabelos para trás enquanto se sentava no sofá como se fosse dona do lugar.
— Você anda tão ocupado que achei que precisava de um lembrete da minha existência.
— E acha que invadir minha casa é o jeito certo de fazer isso?
Ela sorriu, mas não respondeu de imediato. Estava jogando o jogo dela, tentando me provocar.
— Ouvi rumores, Pierre. Sobre... sua situação atual.
Senti meu corpo enrijecer.
— Cuidado com as palavras, Renata.
— Oh, relaxa. — Ela deu uma risadinha forçada. — Só estou curiosa. Não é todo dia que Pierre Tavares, o homem mais temido da máfia, acaba... se tornando pai.
Meu olhar endureceu, e o sorriso dela vacilou por um instante.
— O que eu faço ou deixo de fazer não é da sua conta, Renata.
Ela se levantou, aproximando-se de mim com passos lentos.
— E se eu quiser que seja? — Ela inclinou a cabeça, seus olhos analisando os meus. — Você sabe que tínhamos algo especial, Pierre. Algo que ninguém mais pode te dar.
Revirei os olhos, dando um passo para trás.
— O que nós tínhamos era um acordo. E acabou.
Ela suspirou, cruzando os braços.
— Você é mesmo inacessível, não é? Mas me diga, Pierre, o que exatamente essa... Omegazinha tem de tão especial?
Meu olhar ficou frio.
— Renata, se você veio aqui para discutir minha vida pessoal, sugiro que saia antes que eu mande alguém escoltá-la.
Por um momento, ela pareceu surpresa com minha dureza. Mas então algo em seu olhar mudou, tornando-se mais desafiador.
— Ela sabe quem você é de verdade? — Renata perguntou, com um tom venenoso.
— Isso não é da sua conta.
Ela riu, balançando a cabeça.
— Você acha que pode construir alguma coisa com ela? Uma professora comum, frágil, presa no seu mundo de violência? Isso não vai acabar bem, Pierre. Para nenhum de vocês.
Minha paciência estava no limite.
— Chega.
Minha voz ecoou pela sala, e Renata recuou, finalmente percebendo que havia cruzado a linha.
— Saia daqui, Renata. Agora.
Ela hesitou por um momento, mas sabia que não tinha escolha.
— Você vai se arrepender, Pierre. Ela não é forte o suficiente para sobreviver no seu mundo.
Com isso, ela virou e saiu, suas palavras pairando no ar como veneno.
Quando a porta se fechou atrás dela, sentei-me no sofá, esfregando as têmporas. Renata estava errada. Ella não precisava ser "forte o suficiente" para o meu mundo. Ela só precisava ficar ao meu lado.
Mas, no fundo, uma pequena parte de mim questionava se Renata tinha razão.
O mundo em que eu vivia era feito de traições, segredos e sangue. Não era lugar para alguém como Ella. Mas ela não estava aqui por escolha, e sim por necessidade. Eu não podia deixá-la ir, não com meu filho crescendo dentro dela.
Era estranho pensar em mim como pai. Nunca quis isso, nunca imaginei essa possibilidade. Mas agora que era real, uma parte de mim — uma parte que m*l entendia — queria proteger essa criança.
E talvez, só talvez, proteger Ella também.
Ela me desafiava de uma maneira que ninguém mais fazia. Não era medo ou submissão que eu via em seus olhos quando ela falava comigo, mas raiva e força. E isso me intrigava mais do que eu queria admitir.
Decidi que era hora de conversar com Ella novamente. Precisávamos deixar algumas coisas claras.
Quando cheguei ao quarto dela, ouvi o som de passos apressados lá dentro. Bati duas vezes antes de abrir a porta.
Ella estava de pé, os olhos brilhando com uma mistura de medo e raiva.
— O que você quer agora, Pierre?
Ignorei o tom dela, entrando no quarto e fechando a porta atrás de mim.
— Precisamos conversar.
— Já conversamos o suficiente — ela retrucou, cruzando os braços. — Nada do que você diga vai mudar o fato de que você me sequestrou.
Dei um passo em direção a ela, minha presença dominando o espaço.
— Não estou aqui para justificar minhas ações, Ella. Estou aqui para garantir que você entenda sua situação.
— Ah, eu entendo perfeitamente — ela respondeu, sarcástica. — Sou sua prisioneira, e você é um tirano.
Senti um sorriso involuntário surgir em meu rosto. Ela era corajosa, eu tinha que admitir.
— Você pode me ver como quiser, mas isso não muda o fato de que estamos nessa situação juntos.
Ela balançou a cabeça, frustrada.
— Você não entende, Pierre. Eu não quero estar aqui. Eu não quero isso.
Dei mais um passo, aproximando-me dela.
— Talvez você não queira agora, mas com o tempo, as coisas vão mudar.
Ela me olhou com descrença, mas não respondeu.
— Enquanto estiver aqui, você estará protegida. E isso é tudo o que importa.
Com isso, virei-me e saí, deixando-a sozinha. Ela precisava de tempo para aceitar sua nova realidade.
Quanto a mim, tinha outras questões para resolver. Renata podia ter ido embora, mas suas palavras ainda ecoavam na minha mente. Se Ella realmente fosse um ponto fraco, eu teria que encontrar uma maneira de protegê-la. Não apenas dos outros, mas de mim mesmo.