Ella
Não sabia o que era mais insuportável: o som pesado das botas de Pierre ecoando pelo corredor ou a sensação de que, a cada segundo, eu estava perdendo mais pedaços da minha liberdade. Quando a porta do quarto se fechou atrás dele, fui invadida por uma onda de desespero.
Fiquei alguns segundos estática, tentando me recompor. Não havia muito o que pensar eu estava presa. Literalmente. Tranquei os dedos no cabelo, respirando fundo, mas mesmo isso parecia inútil.
Minha mente corria em círculos: como foi que minha vida tão simples, tão segura, se transformou em... nisso? Eu era uma professora, pelo amor de Deus! Meu mundo era feito de crianças rindo, de livros e aulas planejadas. Não de mafiosos ameaçadores, mansões frias e seguranças me observando como se eu fosse alguma criminosa perigosa.
Olhando pela janela, vi apenas a escuridão lá fora. Mesmo que conseguisse escapar, para onde eu iria? Esse lugar parecia isolado do resto do mundo.
— Isso não pode estar acontecendo... — sussurrei para mim mesma, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos.
Andei de um lado para o outro no quarto, tentando pensar em um plano. Meu coração estava acelerado, o nó na garganta ficando mais apertado. Como Pierre podia ser tão c***l? Tão controlador?
Minha gravidez que m*l havia tido tempo de processar — era agora uma prisão. E eu? Eu não era nada além de um recipiente para o "filho dele".
Essa era a parte que mais doía. Ele não se importava comigo, com o que eu sentia ou queria. Para Pierre, eu era apenas uma peça em seu jogo, e ele estava determinado a me manter na posição que escolheu.
Eu precisava sair daqui.
Fui até a janela novamente, abrindo-a com cuidado. O ar fresco da noite bateu no meu rosto, e por um breve momento, senti esperança. Mas quando olhei para baixo, percebi que estava pelo menos no terceiro andar. Escapar por ali era impossível.
Encostei a testa no vidro, frustrada.
— Você vai me pagar por isso, Pierre...
Enquanto a noite avançava, sentei na cama, abraçando minhas pernas. Meus pensamentos vagaram para como tudo isso começou.
A clínica. A consulta. A enfermeira me chamando para aquele maldito exame. Meu nome sendo confundido com o de outra pessoa. Como eu fui tão azarada?
Se eu soubesse o que aquele dia iria trazer, teria ficado em casa. Ou talvez nunca tivesse sequer pisado naquela clínica.
Fechei os olhos, tentando acalmar minha mente, mas a imagem de Pierre não saía da minha cabeça. Seus olhos intensos, a voz grave e autoritária. Ele era o tipo de homem que você não esquece não importa o quanto tente.
Mas ele não tinha o direito de me fazer isso.
Quando abriu a porta do meu quarto mais cedo, a maneira como ele me olhou... como se eu fosse dele. Aquilo me deu arrepios, mas não de medo. Havia algo no jeito como ele dominava a sala, como se o ar ao redor pertencesse a ele.
— Não! — sacudi a cabeça, frustrada comigo mesma.
Eu não podia deixar minha mente ir por esse caminho. Ele era perigoso, controlador, e eu precisava ficar longe.
Olhando em volta, meus olhos pararam na porta. E se...
Levantei-me, indo até lá com cuidado. Girei a maçaneta lentamente, mas, claro, estava trancada. Dei um empurrão mais forte, apenas para confirmar o óbvio.
— Droga...
Não ia ser tão fácil, mas eu não desistiria.
Bati na porta, com força.
— Vocês não podem me manter presa aqui!
Nenhuma resposta.
— Eu tenho direitos, sabia? Isso é sequestro!
Ainda assim, nada. Era como se eu estivesse falando com as paredes.
Voltei para a cama, mas a ideia de ficar parada me deixava ainda mais inquieta. Eu precisava de um plano qualquer coisa.
Foi quando ouvi passos no corredor.
Levantei-me num salto, esperando que fosse Pierre. Queria enfrentá-lo de novo, jogar na cara dele o quão absurdo tudo isso era. Mas quando a porta se abriu, foi um segurança quem entrou, carregando uma bandeja com comida.
— Senhorita, o jantar.
Olhei para ele com raiva, cruzando os braços.
— Quero falar com Pierre. Agora.
O homem permaneceu imóvel, sem demonstrar qualquer reação.
— Isso não é uma solicitação, é uma ordem.
— O senhor Tavares está ocupado. Coma. — Ele deixou a bandeja sobre a mesa e saiu, trancando a porta novamente.
Meus punhos se fecharam com força.
A noite parecia interminável. Eventualmente, deitei-me na cama, mas não consegui dormir. Cada som, cada sombra, me deixava alerta.
Quando finalmente cochilei, fui acordada por um som pesado do lado de fora. Levantei-me, indo até a janela, mas não consegui ver nada além de carros estacionados.
Minha mente não parava de trabalhar, imaginando o que Pierre estava planejando. Ele era um mafioso, afinal. E eu? Apenas uma professora que foi arrastada para um mundo que não entendia.
Mas eu sabia de uma coisa: não ia ficar parada enquanto ele decidia meu destino.
Quando o sol começou a nascer, ouvi a porta se abrir novamente. Dessa vez, era ele. Pierre entrou no quarto como se fosse dono do espaço e de mim.
— Dormiu bem? — ele perguntou, com um sorriso irônico.
— Você realmente espera que eu responda isso? — retruquei, cruzando os braços.
Ele ignorou minha provocação, aproximando-se.
— Precisamos conversar.
— Finalmente decidiu ouvir o que eu tenho a dizer?
— Não. Você vai ouvir o que eu tenho a dizer.
Senti meu corpo enrijecer, mas mantive o olhar firme.
— Isso não vai funcionar, Pierre. Você não pode simplesmente decidir controlar minha vida.
Ele deu um passo mais perto, sua presença quase me esmagando.
— Eu não decidi isso, Ella. As circunstâncias decidiram. Meu filho está dentro de você. E eu não vou permitir que nada aconteça a ele.
— Eu nunca faria m*l ao meu próprio filho! — exclamei, sentindo a raiva borbulhar. — Mas isso não te dá o direito de me prender aqui como se eu fosse sua propriedade!
Ele inclinou a cabeça, analisando-me.
— Você acha que isso é sobre controle, mas não é. É sobre proteção.
— Não preciso da sua proteção, Pierre!
— Não se trata apenas de você, Ella. — Sua voz ficou mais baixa, mas ainda firme. — É sobre o que é meu.
Fiquei sem palavras por um momento, chocada com a intensidade em seus olhos.
— Eu nunca vou aceitar isso, Pierre. Nunca.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, antes de se virar para a porta.
— Você vai, Ella. Mais cedo ou mais tarde, você vai.
Quando ele saiu, deixando-me sozinha novamente, senti um misto de raiva e medo. Pierre Tavares podia achar que tinha o controle, mas eu ia provar que ele estava errado.
Eu não era uma prisioneira. E não ia ser sua.