capítulo 6

1558 Palavras
Cassandra Não era isso que eu imaginava, nunca, nunquinha passou pela a minha cabeça que uma barraca poderia ser tão acolhedora por dentro, tapetes de pelos de algum pobre animal entre as duas camas de solteiro simples e dois baús rosa ao canto, não é algo luxuoso mais é aconchegante. Não tinha reparado como tinha um grande número de pessoas nessa vida de andarilhos, mulheres de todas as idades, crianças e homens. _ Bora comer _ Dandara diz assim que terminamos de organizar as minhas coisas . _ Depois vou te apresentar para todo mundo . _ Ainda não agradeci por tudo o que você fez por mim _ falo fazendo um coque nos meus cabelos, pois estou à ponto de derreter, de tanto calor . _ Desde que acordei a única coisa quê fiz foi reclamar e reclamar, se não fosse por vocês não saberia o que ia ser de mim . _ Não precisa agradecer, vejo nos seus olhos que você é uma pessoa boa, Cassandra, e sei que meu irmão vê a mesma coisa . _ Ela sorri de forma doce, enquanto dá um nó na barra do seu vestido . _ Agora venha, pois vamos comer e depois vou te apresentar algumas pessoas . De novo senti o incômodo, pois quando cheguei sendo carregada por Jerônimo, nós fomos os centros das atenções de todos . Sai pulando de um pé e Dandara servindo de apoio, não consegui andar de muletas tive uma impressão que cairia a qualquer momento, assim que saímos da tenda onde Dandara e eu vamos dividir pelos próximos dias, de novo recebi vários olhares atravessados de algumas mulheres e adolescentes . _ Porque estão me olhando assim? _ Pergunto baixinho pra Dandara, ela olha em volta como se não estivesse notado . _ Elas estão pensando que você pode ter acabado com as chances delas em relação ao Jerônimo. _ Responde dando de ombros . _ Porque ela pensariam algo assim ? _ guincho com os olhos arregalados . Dandara me olha como se eu fosse uma boba ou até mesmo louca e responde : _ Para nós ciganos, o que o Jerônimo fez naquela noite é como se você fosse a escolhida . Te defender e te convidar pra andar na garupa do cavalo dele é como um pedido de casamento ou noivado, namoro ... etc . Não sei se reparo a ala que eles chamam de cozinha à minha volta ou começo o meu discurso, indignada com tal ideia . _ Que Deus me livre daquele andarilho arrogante, tosco e insensível, prefiro morrer virginha e solteirona do que casar ou ficar noiva dele, me desculpe, Danda, sei que ele é seu irmão mas é que aquele ogro é insuportável, essas mulherada podem ficar tranquilas que não vou acabar com a chances delas não viu, nem a base de chicotadas . _ Falo me sentando em um banco comprido de frente à uma mesa de madeira rústica enorme . Dandara me olha sorrindo e sem dizer nada pega um prato esmaltado e começa se servi . _ Para começar, sou cigano e não andarilho, posso ser esse monte de coisas que você disse, mas, pode ficar tranquila que gosto de comer carne e não ossos ._ virei a cabeça lentamente pra trás e lá estava ele, agora com um chapéu na cabeça os primeiros botões da camisa xadrez desabotoados, os olhos de Jerônimo parece está mais escuros suponho ser de raiva. _ Nem se você fosse a única mulher do mundo, eu preferia morrer sozinho do que me envolver com uma potranca igual você. Sua resposta ácida me deixou fervendo de raiva mas assim que ia abrir a boca, Dandara intervém: _ Não acredito que você me chamou pelo meu apelido, Cass . Jerônimo sai pisando duro e praguejando só quando ele sumiu do meu campo de visão parei de fuzila-lo com os olhos, desejando ter super poder de fogo . _ Ele me chamou de égua ? _ pergunto baixinho para mim mesma, escuto uma risadinha ao meu lado e um prato cheio de comida é posto na minha frente. _ É a primeira vez que vejo alguém tirar o Jerônimo do sério . _ Danda balança a cabeça rindo da situação. Bufo, irritada resmungando alguma coisa sobre ele ser insuportável, mas, ao prestar atenção a comida à minha frente, por hora, esqueço o meu pé de guerra com esse cara que me tira do sério. Comemos em silêncio, meia hora depois estávamos até sonsa de tanto que comemos, tudo que eu preciso agora é tirar um cochilo parece que Danda pensou a mesma coisa que eu, pois ela bocejou dando tapinhas na barriga e disse : _ Vou dormir e só acordar daqui a três dias .... Uma mão bagunça os seus cabelos e diz uma pessoa rindo alto : _ Bem típico de um come e dorme em , Danda! _ um homem parecendo índio diz, tirando rapidamente a mão quando ela rosna . _ Vá se lascar, João . _ fico rindo, quando ela mostra o dedo do meio para ele . Saindo da bolha de farpas, ele olha para mim ainda sorrindo. _ Devo dizer que você é mais linda ainda acordada, João ao seu dispor _ fala enquanto trocamos aperto de mãos. _ Sou Cassandra._ ele ri ainda balançando a minha mão. _ Agora que vocês já se apresentou, João, que tal dar um fora daqui ? _ Dandara boceja novamente, entediada . Ele ri, mostrando todos os dentes brancos e retos inclusive um de ouro . _ Te irritar é o meu melhor passatempo . Observo o moreno se sentar ao meu lado e passar o braço no meu ombro, o sono foi embora, pois fiquei assistindo a série de farpas que são trocadas por João e Dandara. Jerônimo O dia foi longo, muito longo, me deu uma dor de cabeça danada a questão de alugamento de pasto para os animais, também tive que lidar com o dono do terreno que estamos acampando, o miserável está cobrando uma pequena fortuna, então, presumo que a nossa estadia em Araxá será por pouco tempo. Após tomar banho, vou para uma roda onde os homens bebem e ouvem umas canções ciganas no rádio, o cheiro de carne assada no ar, sons da bagunça na cidade ao longe, a noite fresca e aluarada foram capazes de me acalmar . Comprimento todos e me sento em uma cadeira perto de João que canta a pleno pulmão e sua música favorita. Era sempre isso, João embebedava, repetia a mesma música pelo menos trinta vezes e depois chorava se lamuriando sobre o seu amor impossível, já cansei de perguntar quem é essa infeliz que o deixa nessa condições, mas ele não me diz, então a única coisa que faço é deixar ele beber até esquecer o nome e depois carrega-lo pra sua barraca. _ Vamos, Jerônimo, canta comigo . "Eu vou arrancar do meu peito essa louca paixão, que não sai , que não sai, tá gravado em mim ." Reviro os olhos sabendo muito bem a letra de tanto meu amigo ouvi-la, a canção é até boa, mas, com um tempo a gente enjoa de ouvir a mesma coisa e não é só eu . Seu Constantino se aproxima com um copo na mão e um cigarro na outra. _ Daqui à pouco esse caboclo cai no choro._ ele ri e todos da roda o acompanha, menos eu. _ Desencana dessa, João, homem que é homem não chora por mulher nenhuma, acho que tu tá assim porque não pegou essa danada de jeito. _ todos exclamam em concordância, até que o Nando alfineta: _ Ele tá assim porque já foi lassado pelo tal do amor. _ entediado, fico encarando as brasas da churrasqueira, pois sem bem como tudo isso termina, toda santa noite é a mesma ladainha de sempre. _ Nós, homens não pode deixar a mulher fazer sola da gente não _ Nando continua, ficando no meio da roda improvisada, todos ficam em silêncio, não querendo avisa-lo que a sua mulher está logo atrás dele . _ É o homem que tem que comandar, nós temos que mostrar para elas quem é que manda . _ Há é? Não ouvi direito! Fale de novo Fernando ! _ ao ouvir a voz da sua esposa, Carla, o sorriso de garanhão no rosto dele morre a esse ponto todos já estão rindo horrores . _ Não é isso que disse, minha docinho, eu estava explicando pra essa macharada que mulher .... _ Já pode ir parando por aí, não quero nem saber_ ela o corta, bufando e colocando as duas mãos na coluna, a barriga enorme, fico impressionado como ela consegue ainda se manter de pé. _ Não sei o que você ainda faz aqui, já para dentro, ou prefere dormir no terreiro ? E assim mais uma noite se encerra, com Nando indo para a sua barraca com a sua mulher _ que tá mais para general _ mostrando quem realmente manda, meu amigo bêbado e chorão indo embora dessa vez com a Bruna, uma cigana que já anda frequentando a sua cama desde os seus dezoito . E eu ... bem, o cansaço me acompanhando e meus pensamentos voltados em uma certa doidinha de cabelos pretos brilhantes .
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