Jerônimo
A minha parte favorita de ser cigano é de morar por pouco tempo em um estado diferente do Brasil, às canções ciganas xonadas também é um item que aprecio muito, somos ciganos raízes e não nuttela, não temos casas e muito menos bem materiais a não ser nossas roupas, os animais, algumas joias que são passadas de geração para geração e ,óbvio, às panelas brilhantes e bem ariadas .
Eu sou líder, sou eu que decide para onde a nossa caravana vai, o que fazemos para sobrevivermos, muitos outros ciganos se mantém roubando mas isso não vem ao nosso caso, não somos pobres, temos uma quantia depositada em uma conta administrada por mim e como não sou bobo nem nada investi em alguns negócios, a cada mês a nossa poupança só engorda .
Gostamos de nos mudar à moda antiga, todos a cavalo, como sou o líder , vou na frente, por onde passamos chamamos atenção alguma pessoas que nos olham com desprezo, medo e até mesmo fascínio , claro que já me acostumei ser o centro das atenção por onde passamos, não é todo dia que passam várias pessoas vestidas roupas extravagantes _ principalmente as mulheres _ a cavalo e carroças, com troxas amarradas e penduradas por todos os lados .
Gostamos acampar em algum terreno ao final de alguma cidade essa parte é bem mais chata porque nem sempre o dono do terreno é compreensivo para nos emprestar o local por alguns dias ou meses, isso resulta uma dor de cabeça do cão, mas, como sempre a gente resolve do nosso jeito.
Estamos indo para uma cidade em Minas Gerais, Araxá, ficamos alguns dias em Espírito Santo e tivemos que nos mudar com pressa por conta de uma pequena confusão, que acabou resultando em alguns noiados esfaqueados, deixando claro que não foi nada demais, só uma turminha de maconheiros estavam assediando a minha irmã, Dandara. Nosso lema funciona assim, mexeu com um mexeu com todos .
Já estava tarde da noite e faltava pouco para chegarmos ao nosso destino, o único barulho que quebrava o silêncio da escuridão era o bater dos cacos dos animais e de vez em outra um carro passava por nós.
Estávamos passando perto de um boteco de beira da estrada, de lá vinha um barulho de pancadaria e gritos femininos misturado por vozes masculinas.
_ O p*u tá quebrando _ Reviro os olhos para ninguém em especial quando o João fala achando graça da desgraça alheia .
Apesar de ser meu melhor amigo e braço direito, João não deixa de ser um doido metido a engraçadinho.
Já estávamos quase passando pelo boteco, quando um vulto sai correndo de dentro da pocilga em nossa direção, pelo canto do olho já vejo o Tião sacar a espingarda. Pela iluminação fornecida pela lua cheia vejo uma jovem com os olhos maiores que a cara, o nariz sangrando e a blusa rasgada revelando a peça de baixo, ela para perto demais do meu cavalo que se assusta e levanta as patas da frente a garota acaba caindo de joelhos no asfalto reprimindo um gritinho de susto, bem na hora que aparece um gorducho xingando em plenos pulmões.
_ Cassandra sua p**a dos infernos, volte aqui agora mesmo ! _ nesse ponto todos já pararam, observando com atenção a cena na nossa frente.
A garota que aparenta ser da idade da Dandara, os olhos azuis brilhantes de fúria e medo ao mesmo tempo, a cabeleira n***a sendo chicoteada para traz por conta do vento .
_Prefiro levar um tiro e ser pisoteada por esses andarilhos do que voltar a ficar aguentado os seus abusos . _ O nome faz jus à essa garota, combina, Cassandra fala com o queixo erguido, perdendo totalmente a noção do perigo .
Somos andarilhos p***a nenhuma !
Fico calado segurando o riso entediado com aquele teatro que está atrapalhando a nossa viagem, mas ao ver o merdinha careca ficar roxo de raiva e com as narinas dilatadas como de um touro raivoso, ele se aproxima da garota agarrando-a pelo cabelo .
_ Sua vagabunda ingrata ! _ ergue a mão pequena e gorducha para acertar no rosto da mulher, mas decido acabar com aquela palhaçada, saco a minha arma, miro e atiro na sua mão erguida.
_ Se Você presa pela a sua vidinha medíocre, se afaste da garota agora mesmo! _ falo com a voz firme mirando na virilha dele, mas o medroso já tinha se afastado urrando de dor enquanto Cassandra olhava com as lantejoulas azuis quase caindo no chão asfaltado.
_ Vocês não tem nada haver com isso, não podem me impedir de domar a minha filha!
_ Eu não sou a sua filha seu nojento ! _ reviro os olhos, guardo a arma e olho de forma séria para aquela garota que ainda se mantém de joelhos à minha frente .
_ Anda logo com isso, Jerônimo ! _ ouço o resmungo da mãe Joana .
Decido seguir o conselho da velhinha .
_ Levanta -se . _ mando com a voz fria e fico contente por ela se levantar rapidamente, estendo a mão para ela e digo . _ Não tenho todo o tempo do mundo, monte logo !
A garota parece ponderar, olha para minha direção e para o chorão, não sei se fico impressionado por ela ter coragem de segurar a mão de um completo estranho montando na garupa passando as mãos por minha cintura e colando o rosto nas minhas costas ou se fico extasiado pela corrente elétrica que o seu toque causou ao meu corpo .
E assim deixamos o covarde para trás amaldiçoado e xingando em plenos pulmões, seguimos com a nossa viagem agora com um falatório sobre o que aconteceu e reclamações por termos mais uma nova integrante à vida cigana _se ela quiser .
Só falta 100 Km , murmuro essa mantra pra me acalmar e esquecer um pouco a presença dessa mulher colada as minhas costas que me queima com o toque de suas mãos, mesmo que seja por cima da camisa .