Capítulo 6 - Vamos passear

2491 Palavras
Raissa acabou pegando no sono em algum momento da noite, enquanto esperava sentada no sofá extremamente confortável da sala de Antony e era totalmente ignorada por ele, ocupado demais em mexer sem parar no tablet. Quando acordou, a claridade do começo da manhã invadia a sala pelas janelas e portas de vidro da varanda, por elas Raissa observou o céu ainda cinza ganhar gradativamente o tom rosado dos primeiros raios de sol do alvorecer. Era uma bela vista e Raissa torceu muito para que aquela fosse a primeira e única vez que tivesse a oportunidade de observa-la. Se tudo desse certo, no dia seguinte àquela hora, estaria bem longe dali, mesmo ainda não fazendo ideia de como alcançaria tal proeza. Ainda deitada de mau jeito no sofá, ouviu a conversa vinda da cozinha. Eram Antony e Camile falando aos sussurros. Como provavelmente falavam dela, Raissa se obrigou a levantar do conforto quentinho do sofá e ir até lá. Infelizmente, o seu novo modo de locomoção aos pulos não era silencioso o bastante para bisbilhotar a conversa alheia sem ser notada. Antony se calou antes mesmo que ela chegasse à cozinha. — Bom dia — ela os cumprimentou, sentindo a garganta seca. Camile se virou na sua direção com um sorriso nos lábios finos já tingidos de vermelhos àquela hora da manhã. Por um momento Raissa se perguntou se a ruiva tinha algum dom para parecer tão estonteante à uma hora daquelas, e olha que ela não usava nenhuma outra maquiagem além do batom e de um leve delineado nos olhos. Os cabelos estavam presos em um coque alto e despojado e ela usava um vestido branco curto e simples, mas, ainda assim, parecia iluminar a cozinha enquanto sorria na sua direção. Raissa só podia imaginar como era o oposto total da outra mulher naquele momento, os seus cachos embaraçados deveriam estar ainda mais bagunçados após terem secado na noite anterior sem serem penteados, e com certeza s*xy era a última coisa que poderia ser usando as roupas de Antony, que engoliam os seus braços e ficavam folgadas demais na cintura — Está se sentindo melhor? — a ruiva perguntou, se aproximando, ao menos até Antony a segurar pela cintura antes mesmo que desse dois passos na sua direção. — O café está esfriando, por que não senta para comer? — ele sugeriu. Camile descartou a sugestão com um movimento de mão. — Vai mesmo ficar agindo como se ela fosse capaz de me machucar? — a ruiva retrucou. Raissa observou a cena, esperando que a próxima fala de Antony fosse autoritária, dirigida a Camile como se ela fosse uma adolescente desobediente. Para sua surpresa, ele deu de ombros sem se abalar e soltou a cintura da outra. — Não. Mas coloque nessa sua cabecinha que todo ser humano é capaz de machucar — foi a resposta que ele deu antes de ir se servir de uma xícara de café expresso. — Você não acha isso meio dramático? — a ruiva rebateu, desdenhando antes de voltar a se aproximar de Raissa, que se viu obrigada a dizer: — Ele está certo — admitiu e acrescentou quando Camile hesitou: — Não que eu pretenda te machucar, é claro, mas é sempre bom ter o que ele disse em mente. Algo que Raissa aprendeu na prática. Pessoas sempre podiam machucar as outras, e algumas até o faziam por puro e simples prazer pessoal. — Olha só, Antony — a ruiva sorriu — Parece que você achou outra pessoa adepta à teoria das conspirações universais. Raissa ficou mais um tantinho perdida quando ao invés de repreender a ruiva, Antony só deu de ombros, de novo. Será que ela havia imaginado toda aquela história de senhor Ribeiro e da forma patética como ele tratara a mulher na noite anterior? Ou será que aqueles dois tinham um tipo de dupla personalidade que mudava da noite para o dia? — Então — Camile continuou, parando na sua frente, a observando da cabeça aos pés — Está se sentindo melhor? — Ah, eu... — Raissa pensou na resposta, seu corpo ainda incomodava bastante com os arranhões, mas era um incômodo leve que quase podia ser ignorado. Já o tornozelo... — Na verdade, acredito que o efeito do analgésico está passando — ela desviou o olhar para Antony — Será que pode me conseguir mais alguns comprimidos? — O doutor Alfredo já está a caminho — ele retrucou, se sentando à mesa — Melhor esperar até que ele dê uma olhada em você e defina que tipo de remédio deve tomar. Raissa abriu a boca para protestar, mas Camile a impediu, avisando: — Nem tenta, ele não vai te dar o remédio sem ordens médicas — ela suspirou — Não faz ideia de como esse homem pode ser cabeça dura. — Ótimo — Raissa murmurou — Não bastava ser arrogante e metido... — Petulante m*l agradecida — Antony resmungou da mesa, o olhar inexpressivo cravado no seu. Camile riu. — Ah, eu adoraria ficar aqui vendo como vocês dois vão se sair, mas preciso ir — ela segurou a mão de Raissa — Falei com Antony que você pode usar as minhas roupas reservas se precisar, apesar de achar que vão ficar um pouco curtas em você... — a ruiva deu mais uma olhada no seu corpo. Camile devia ter no máximo um metro e sessenta de altura, p****s fartos, cintura fina, e uma b*nda que não era reta, mas também não chegava a ser o tipo de b*nda que os gringos imaginavam que toda brasileira tinha. Já Raissa tinha um e setenta e cinco e antes de começar a se alimentar m*l na rua, vestia quarenta e dois e ostentava curvas que, segundo Daniel, fariam qualquer gringo enlouquecer — Mas certamente vão ficar melhor do que as dele — a ruiva completou, apertando de leve a sua mão — Espero que sirvam. — Ah, obrigada — Raissa sorriu para ela. Gostava bem mais daquela versão da ruiva do que da versão submissa e calada da noite passada. Camile soltou a sua mão e se voltou para Antony. — Até mais — ela lançou um beijo no ar e foi em direção a porta da sala. Raissa a observou ir embora, constatando que a m*ldita porta estava destrancada. Se ela ao menos soubesse disso quando acordou... — Nem adianta perder o seu tempo — Antony voltou a se pronunciar — Eu te alcançaria antes que você alcançasse o elevador. Sente e tome café antes que o doutor chegue, vai ser uma forma melhor de aproveitar as suas energias. Ela não rebateu, afinal, discutir com ele é que seria uma real perda de tempo. Raissa pulou até a mesa e se sentou em uma cadeira vazia. Havia uma variedade de alimentos sobre a superfície giratória, ainda que Antony continuasse ingerindo somente o café. — Sinta-se à vontade — ele abrangeu os alimentos com um gesto de mão. Ela observou os pães, queijos, bolos, frutas, sucos e iogurtes. — O que faz com o que sobra da comida? — perguntou antes de começar a se servir, Antony fixou o olhar no seu. — O que acha que eu faço? — Joga fora como a maioria dos ricos esnobes como você faz? OK, ela não conseguia evitar perder tempo discutindo com ele. Mas ver toda aquela comida, obviamente desnecessária, enquanto sabia como haviam centenas de pessoas passando fome por aí, a deixava indignada. Era uma afronta a si mesma e a toda a fome que já passara até ali. — Você deveria se preocupar mais com o seu futuro e menos com que eu faço ou deixo de fazer com a minha comida — ele se levantou, sério — Coma se quiser, mas se preferir, pode ir para o quarto e esperar pelo doutor lá. Antony deixou a cozinha em seguida. Raissa revirou os olhos, pessoas ricas e sua mania de se ofender mesmo estando erradas. *** O tal doutor Alfredo era um homem na casa dos quarenta anos, branco, barba cheia e bem feita, olhos azuis e cabelos começando ganhar fios grisalhos, mas não de um jeito feio, era até meio atraente nele. Quando ele chegou, Raissa estava no quarto para onde foi após comer tudo o que conseguiu da mesa do café-da-manhã. Se era para a comida ir parar no lixo, era melhor que a ingerisse e evitasse mais desperdícios. Alfredo chegou ao quarto sozinho, trazendo uma mala e usando um jaleco branco com o seu nome bordado em preto no bolso sobre o peito. — Bom dia, senhorita...? — Raissa — ela ergueu a mão para cumprimenta-lo. — Bom, Raissa, eu sou o doutor Alfredo Jatobá, o médico de confiança do senhor Castro, como você deve saber. — Sim, ele me falou. — Ótimo. Ele me informou que a senhorita foi atropelada ontem à noite, correto? — o médico abriu a mala sobre a cômoda. — Isso mesmo. — Bateu a cabeça? Ele continuou com mais uma dúzia de perguntas às quais Raissa respondeu com toda a sua boa vontade, sempre mantendo o olhar na porta. Alfredo escutou os seus batimentos, aferiu a sua pressão e fez um monte de anotações. Durante todo o processo, ela encarava a porta e pensava nos prós e contras da possibilidade de pedir ajuda ao médico para escapar dali. Poderia dizer que estava sendo mantida na casa contra a sua vontade, e depois disso haviam três possíveis finais: Alfredo poderia milagrosamente acreditar sem questionar e ajuda-la, ou poderia simplesmente ir direto até Antony contar tudo, ou ainda, poderia resolver chamar a polícia para ajudá-la. E como as alternativas positivas eram menores, ela desistiu da ideia rapidamente. Teria que encontrar outra forma de fugir. — Ao que tudo indica, está tudo bem com você — Alfredo diagnosticou por fim — Pelo que me disse, sofreu uma concussão leve, a dor de cabeça, as tonturas e a visão turva são indícios disso. Porém, os sintomas não devem piorar. Caso sinta mais alguma coisa, como, por exemplo, perda de memória recente, insônia, ou dores de cabeça muito intensas, peça ao senhor Castro para entrar em contato comigo. Eu receitei analgésicos e um anti-inflamatório, e ainda hoje o senhor Castro vai te levar a clínica para tirar um raio-X do tornozelo e fazer uma ressonância da cabeça — ele lhe entregou a receita dos remédios, sorrindo docemente — Te vejo mais tarde na clínica, foi um prazer conhecê-la. *** — Que história é essa de ir fazer raio-X e ressonância? — ela perguntou assim que Antony apareceu no quarto, pouco depois do médico ir embora — Pensei que você tivesse entendido a parte do “nada de hospitais”. — Não é um hospital, é uma clínica particular. E no seu caso não vai gerar ficha alguma, eu já acertei tudo com ele — Antony encostou o ombro na porta, colocando as mãos nos bolsos da frente da calça social escura que usava — Agora, pare de surtar e vá tomar um banho e dar um jeito nesse cabelo, nós vamos sair. — Para a clínica? — Primeiro, vamos passar em alguns lugares, preciso resolver umas pendências. Depois que terminar, te levo na clínica. — E porque raios vai me levar para resolver as suas pendências com você? Pode me deixar aqui... Antony abriu seu sorriso m*ldoso de deboche. — Claro que posso — ele virou de costas para deixar o quarto — Mas não vou. Quero você onde os meus olhos possam ver até que tudo isso seja resolvido. E vá logo tomar banho, vou trazer algumas das roupas de Camile para você. Ele sumiu de vista antes que Raissa conseguisse chamá-lo de babaca arrogante, de novo. *** As roupas de Camile eram extremamente sensuais, e o fato dela ser menor que Raissa fazia com que as peças parecessem ainda mais ousadas. Antony havia levado várias roupas para o andar de baixo, as calças foram as primeiras que Raissa descartou, ela tinha pernas longas e com certeza qualquer uma das peças pareceria uma calça capri ridícula. Depois precisou descartar metade das blusas, porque os s***s de Camile eram tão mais abundantes que os seus, que as blusas mais decotadas acabavam mostrando demais. Por fim, sobraram quatro opções: dois vestidos e duas combinações de saia e blusa. Raissa não conseguia definir qual era pior. — Porque ainda está assim? — Antony voltou ao quarto meia hora depois. Ela ergueu o olhar das roupas, as quais havia passado os últimos dez minutos observando com uma careta de desgosto, e olhou para ele. — Você nunca bate na porta antes de entrar? — Por que não está arrumada? — ele voltou a perguntar, pausadamente. Ela deu de ombros. — Essas roupas não cabem em mim. Tem certeza que não posso ir assim? — abriu os braços para enfatizar como a camisa de mangas que ele lhe emprestara na noite anterior poderia muito bem servir, pelo menos cobria mais do seu corpo do que qualquer uma das roupas de Camile poderia cobrir. — Não — Antony sentenciou em um tom que definitivamente não permitia uma contradição — Apenas troque de roupa. — Mas... — Não tem “mas”, você não está apresentável assim — ele gesticulou na sua direção — vou te dar dez minutos — avisou antes de sair, fechando a porta. Raissa suspirou. Que cara b*baca, ela nem estava tão r*im assim. Tinha até conseguido desembaraçar os cabelos com os dedos e prendê-los em um coque relativamente apresentável. Mesmo achando desnecessário, se levantou e pegou o vestido menos curto. Além do pouco pano a mais no comprimento da saia em relação aos outros, o vestido também era o único que o decote, cruzado na frente, não deixaria os seus s***s tão expostos. Ainda assim, se sentia patética após se vestir. Da cintura para baixo era como se estivesse presa em uma embalagem à vácuo, tão apertada era a saia nas suas coxas. Da cintura para cima o pano começava a sobrar até o tecido ficar bem folgado na altura do b***o. Resumindo, era óbvio que aquele vestidinho preto com cara de caro não era de forma alguma seu, e isso a deixava irritada. Não bastava ser mantida ali contra a sua vontade, ter de ouvir os sarcasmos de Antony e estar com o corpo todo ferr*do? Também precisava se humilhar daquela forma usando uma roupa que lhe fazia parecer uma pr*stituta de luxo com um péssimo gosto para moda? Não que Raissa tivesse algo contra pr*stitutas, mas já conseguia imaginar o tipo de olhares que receberia na rua usando algo assim. — Vamos — Antony chamou, invadindo o quarto mais uma vez, parou na porta e a olhou de cima a baixo. Ela esperou algum comentário m*****o, mas ele não veio. Tudo o que Antony fez foi dar as costas e sair do cômodo, presumindo que ela o seguiria. E ela o seguiu.
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