Capítulo 5 - Uma longa noite

1811 Palavras
Antony colocou a tala no seu tornozelo, simples assim, sem maldade ou má vontade, para sua surpresa. Quando Raissa o viu sentar na poltrona do quarto, que ele posicionou em frente a cômoda, e pedir seu pé, achou que ele fosse usar aquele momento para se vingar, que fosse ser c***l enquanto imobilizava o seu tornozelo, mas não, Antony pareceu até mesmo... gentil. Ele até fez uma pausa quando a dor ficou tão intensa que arrancou um grunhido dela. — Por que não me conta o que você e seu amigo estavam querendo da minha casa? — ele parou de mexer no seu pé, sem soltar a tala já posicionada na parte de trás do tornozelo, e fixou o olhar nela. Raissa apertou a beirada da cômoda, contendo a dor. — Eu já disse... não estávamos querendo nada além de... um lugar legal para dormir — a frase saiu entrecortada pela respiração pesada. Antony voltou a atenção para seu pé, sem retrucar. No entanto, assim que recomeçou a mexer na tala, Raissa engasgou com a dor, ele diminuiu os movimentos mais uma vez. — E que tal me contar do que está fugindo? Ele estava tentando distraí-la, ela finalmente se deu conta. Contudo, preferia mil vezes a dor à falar sobre os seus perseguidores, porque falar deles costumava tornar seu medo mais real. — Por favor, apenas termine logo isso. Antony ergueu a cabeça e a observou em silêncio. Raissa franziu as sobrancelhas, deveria mesmo ter sofrido uma pancada forte demais, porque só isso explicava o fato de só naquele momento, depois de todas as discussões que tiveram até ali, perceber como os olhos dele eram extremamente claros, algo entre castanho e verde. O tipo de olhos que uma pessoa com a capacidade cerebral em perfeito funcionamento jamais poderia ignorar por tanto tempo, ainda mais se considerasse todas as dezenas de vezes que ele a encarara durante a noite. — Tudo bem — Antony disse por fim, fazendo-a desviar o olhar de volta para o tornozelo inchado — Mas você vai ter que me contar a verdade, não vou deixar que fique aqui sem saber do que está fugindo. Ela não respondeu. Não pretendia mesmo ficar ali por muito tempo, de qualquer forma e ainda que ficar fosse uma opção, duvidava muito que aquele desconhecido a quisesse por perto se soubesse o tamanho do problema em que estava metida. Antony fez o resto do processo em silêncio, com agilidade e aquele cuidado nos movimentos destoante de todo o resto do seu comportamento. — Pronto — ele se levantou após guardar os materiais que não havia usado de volta na maleta — De um a dez, qual o nível de dor que está sentindo no tornozelo agora? — Quatro? — ela olhou para o pé enfaixado, a dor diminuiu bastante depois de ter sido totalmente imobilizado. — Acredito que era esse o resultado esperado — Antony se dirigiu para a porta — Não durma... — ele se interrompeu e olhou na sua direção, pareceu considerar algo antes de continuar: — Melhor você vir comigo, não quero que fique com mais sequelas por causa da teimosia. — Parece bastante preocupado com as minhas sequelas — ela rebateu sem se conter. Antony lhe dirigiu um sorriso pela primeira vez, um sorriso que pareceu bastante m*****o. — É claro que estou, afinal, como você trabalharia para pagar pelos danos da casa se ficasse mais lesada? Mais lesada. Raissa travou os dentes e engoliu todos os dez palavrões que pensou em usar contra ele. — Vamos logo — Antony apressou, saindo do quarto. — Filho da p*ta arrogante — ela resmungou, deslizando para fora da cômoda. — O que eu disse sobre palavreado de baixo escalão? — ele repreendeu do corredor. Mesmo que não pudesse ser vista, Raissa lhe mostrou o dedo do meio e continuou o xingado mentalmente enquanto pulava para fora do quarto. *** Ela ficava mais deslumbrada a cada novo cômodo que conhecia da casa. Antony a fez pular até chegar na cozinha, ou melhor, na bela e enorme cozinha moderna cheia de aparelhos cromados e caros que reluziam sob a luz das lâmpadas de led embutidas no gesso do teto. Raissa nem conseguia imaginar como alguém era capaz de encher uma geladeira tão grande como a geladeira preta que havia ali, mas é claro que quando Antony abriu as duas portas do eletrodoméstico, ele estava entupido de alimentos. — Com fome? — murmurou para ela, sem desviar a atenção do interior da geladeira onde mexia. Sim, Raissa estava faminta. A sua última refeição tinha sido um PF que Daniel conseguiu comprar com as gorjetas do dia, e para quem havia passado o dia todo trabalhando sob o sol sem ter feito nenhuma refeição, um prato feito não era o suficiente para tapar o buraco que havia constantemente no estômago. Por isso, a menção de Antony à comida fez o seu estômago roncar, ainda assim, Raissa ergueu a cabeça e respondeu em tom casual: — Um pouco. — Claro — ele a olhou por cima dos ombros — Senta, vou preparar algo para comer, se a sua pouca fome quiser me acompanhar... Ela oficialmente odiava aquele poço de sarcasmo e deboche humano. Só porque o “senta” dito por ele foi expresso no tom imperativo de dono do mundo, Raissa permaneceu de pé, observando-o pegar queijo, requeijão, presunto, Nutella, tomate, alface, pão de forma e mais um monte de coisas que poderiam ser usadas em sanduíches. Depois o viu carregar tudo até a ilha de mármore n***o no meio da cozinha e voltar a olhar na sua direção. — Vai querer o seu de quê? — ele questionou. Ela voltou a olhar os ingredientes sobre a ilha. Se fosse ser sincera, diria que queria um de cada, mas como sentia o dever de manter a ideia da pouca fome, deu de ombros e murmurou: — Qualquer um, menos Nutella, eu não suporto essa coisa. Antony assentiu e voltou a cuidar dos sanduíches e Raissa resolveu que agora era hora de ceder e sentar antes que a sua perna boa sucumbisse ao cansaço de suportar sozinha todo o seu peso. Se jogando em uma das cadeiras em volta da mesa, ela desviou a atenção da ilha da cozinha para observar o resto do ambiente. As paredes, assim como as da sala, eram de um tom neutro de cinza, os eletrodomésticos todos em tons cromados ou preto, a mesa à sua frente tinha um tampo de vidro escuro e um daqueles centros giratórios que ela só vira na mesa da cozinha da casa do BBB. Um pouco mais adiante, ficava outra mesa, no que parecia ser o local da sala de jantar, não que houvessem paredes delimitando nada, o apartamento seguia um conceito de ambiente aberto, salas e cozinhas em um espaço sem divisórias. — Aqui — Antony se aproximou da mesa com dois pratos, o que posicionou na sua frente tinha quatro sanduíches de sabores diferentes. O que posicionou do outro lado da mesa tinha apenas um de salada — Bom apetite — ele desejou, já lhe dando as costas — Vou levar um desses para a Camile e já venho te fazer companhia. Ela o observou pegar outro sanduíche na ilha e sair em direção as escadas, com o prato em uma das mãos e o copo de leite na outra. Raissa voltou a olhar para o prato à sua frente, a boca salivando. Por que mesmo disse que estava com pouca fome? Agora seria obrigada a comer devagar e fingir não ter apetite para todos os sanduíches, quando, na verdade, podia devorá-los em segundos e pedir mais. Sentindo-se frustrada, escolheu um aleatório e na primeira mordida soube que era de peru defumado, tomate e maionese. Era tão bom que a fez revirar os olhos de prazer. Enquanto mastigava devagar para não demonstrar desespero pela comida, seus pensamentos vagaram até Dan. Onde o amigo estaria naquele momento? Havia achado abrigo para a noite? Teria ido direto para o bar onde vinham trabalhando no último mês para esperar que ela chegasse lá às onze e meia como combinado? Será que ele entraria em pânico quando ela não aparecesse? Sim, ele entraria. Da última vez em que Raissa sumiu, Daniel ficou tão desesperado que foi atrás dela feito um louco, e logo depois eles se meteram naquela enrascada enorme da qual fugiam até hoje. Tudo por culpa dela. — Não precisa fingir na minha frente — a voz de Antony soou de volta na cozinha — Pode parecer que não, mas eu sei o que é fome — ele se sentou na cadeira do outro lado da mesa e fixou o olhar no seu. Raissa suspirou, soltando o sanduíche pela metade no prato. — Não estou com fome — ela deu de ombros. Agora era verdade, havia perdido o apetite com a possibilidade do que o amigo estava passando. Afinal, era injusto, não? Estar ali de banho tomado com um monte de comida boa à sua disposição enquanto Dan provavelmente estava ao relento, com fome e preocupado. Antony continuou a observando, provavelmente tentando descobrir se aquilo era puro orgulho ou se estava sendo sincera. — Então — Raissa continuou, ignorando o olhar sobre si — Seu médico disse que eu não posso dormir? Isso parece o tipo de coisa que a minha avó diria. Ele também acredita que vou ficar maluca se dormir depois de bater a cabeça? — Não, mas ele acha que se você estiver inconsciente, vai ser difícil monitorar caso haja alguma alteração ou dano — ele pegou o sanduíche e mordeu, ainda a mantendo sob aquele olhar frio e atento que começava a incomoda-la. — Vou ter que passar a noite toda acordada? — ela desviou o olhar para os sanduíches no prato, cutucando um deles. — Só por algumas horas — Antony respondeu depois de terminar de mastigar. — E você vai ficar me observando assim durante todas essas horas? — ela ergueu o olhar, tentando parecer “petulante” como ele gostava de definir. — Isso te incomoda? — Antony arqueou uma sobrancelha e aguardou a resposta com um ar estranhamente interessado. Sim, incomodava pra caramba. — Não — mentiu com toda naturalidade — Mas também não posso dizer que é a coisa mais agradável do mundo, senhor Ribeiro. — Prefiro que me chame de Antony ou de senhor Castro — ele rebateu todo formal, Raissa se recostou na cadeira. — E eu prefiro dar o fora daqui e nunca mais te ver, mas as coisas nem sempre são como a gente quer, não é mesmo, senhor Ribeiro? — Garotinha petulante — ele murmurou, abocanhando mais uma vez o sanduíche. O olhar frio queimando sobre ela, em um terrível paradoxo torturante. Raissa entrelaçou os dedos e apoiou a mão sobre a mesa, seria uma longa noite.
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