Um grito de horror escapa da boca de Lívia, e ela encara o pai como se ele tivesse enlouquecido.
Ele nunca havia gostado de Caio, é verdade, sempre implicou com a amizade dos dois, dizendo que ele parecia uma mosca irritante tentando pousar num sonho de padaria, mas Lívia ria do pai e dizia que Caio era um de seus melhores amigos, o pai bufava, mas nunca fizera nada contra Caio.
Na verdade, o pai costumava ser um alfa amado pela matilha e respeitado, Lívia nunca imaginou que ele seria capaz de tamanha crueldade apenas para fazer Caio desistir dela. Quando o beta se aproximou com o chicote na mão, ela rosnou furiosa, mas o pai, usando o tom alfa, ordenou:
“Fique parada aí e veja se o amor dele resiste”
Lívia tenta lutar, mas não pode ir contra o tom alfa do pai, por mais que tente, todo seu corpo permanece grudado ao chão, sua loba choraminga em sua mente, e diante dos seus olhos Caio é colocado de joelhos, sua camisa rasgada, e seu pai diz:
“Ainda a ama, ômega?”
Parte de Lívia queria que ele dissesse que não, que não a amava e saísse dali, mas a outra parte desejava que ele enfrentasse tudo por ela.
“Sim, a amo”, a voz de Caio saiu em um murmúrio baixo, mas decidido.
A primeira chicotada cortou o ar, rasgando a pele bronzeada de Caio, que morde os lábios, mas não grita.
Lívia, por um momento, apenas encara horrorizada, até que a segunda chicotada atinge Caio com a mesma força impiedosa da primeira, então ela rosna e grita para o pai parar, mas o alfa Mauro apenas a ignora, seu braço descia com força total, uma chicotada após a outra, e entre elas a pergunta era a mesma: se ele ainda ousava amar Lívia. Mas a resposta de Caio também continua a mesma:
“Sim, eu a amo”
Lívia grita, implora e então começa a amaldiçoar o pai, a dizer que nunca em sua vida iria perdoá-lo, mas nada fazia ele parar. Foi então que, sentindo uma dor alucinante, ela vai contra todos os seus instintos lupinos e quebra a ordem alfa do pai, correndo e se lançando sobre o corpo ferido de Caio.
Mauro não consegue parar e a última chicotada pega nas costas de Lívia, rasgando o vestido e expondo a pele clara cortada dela, mas a ferida começa a se curar quase que imediatamente.
Alfa Mauro a encara, uma mistura de decepção e orgulho. Afinal, ela era sua filha, tinha mostrado que no futuro seria uma alfa mais forte até mesmo que ele, ou nunca seria capaz de quebrar sua ordem alfa, mas, mesmo assim, ali estava ela se deixando manipular por aquele ômega de araque.
Largando o chicote, ele diz:
“Leve-o à enfermaria e depois se tranque em seu quarto. Está proibida de sair de lá até que eu decida o que fazer, para onde mandar esse ômega insolente.”
Ignorando o olhar magoado de Lívia, Alfa Mauro sai sem olhar para trás.
Só então Caio geme e cai desacordado. Lívia deixa lágrimas escorrerem por seu rosto quando vê as costas dilaceradas de Caio, seu vestido agora todo manchado com o sangue dele grudava em seu corpo. Ela então grita por ajuda, outros ômegas entram correndo e carregam Caio para a enfermaria. O médico olha com pena para ela e diz:
“Ele vai ficar bem, vai sofrer um pouco, afinal é um ômega e seu processo de cura é mais lento, mas com certeza vai ficar bem.”
Nesse momento, a mãe de Caio entra desesperada perguntando pelo filho. Quando vê que Lívia ainda está ali, ela a encara e então se ajoelha diante de Lívia, implorando:
“Por favor, senhora, vá embora, deixe Caio em paz, senão seu pai vai matá-lo. Ele é meu único filho, é tudo que tenho, por favor.”
Ver a mãe do homem que ela amava ali de joelhos diante dela enche Lívia de raiva e determinação. Ela faz a mulher se levantar e diz:
“Tudo bem, vou embora agora, mas não vou desistir de Caio, eu o amo e vou convencer meu pai disso.”
Um sorriso discreto surge nos lábios da mulher, e ela assente, correndo em seguida para o quarto onde o filho era atendido.
Lívia se vira e sai. Na entrada da enfermaria, encontra Marisa, uma de suas melhores amigas. Marisa a encara com lágrimas nos olhos e pergunta:
“Você está bem? Eu soube que seu pai brigou com Caio.”
Lívia dá um sorriso fraco e assente, dizendo:
“O sangue não é meu, é de Caio.”
Marisa dá um gritinho de horror, os olhos arregalados, o corpo estremecendo, gaguejando ela pergunta:
“Ele… ele… ele está morto?”
“Não vire essa boca para lá. Está ferido, mas vai ficar bem. Agora preciso ir confrontar meu pai.”
Marisa segura sua mão e diz:
“Lívia, não provoque o alfa Mauro ainda mais, ou ele descontará em Caio.”
Lívia encara a amiga, sabia que ela tinha razão. O pai não faria nada com ela, mas faria Caio pagar.
Ela então diz:
“Não se preocupe, vou pensar em algo antes de agir.”
Marisa então diz:
“Não sei, Lívia, mas acho que seu pai só cederia se você morresse.”
Lívia não responde, apenas se vira e sai, nem mesmo percebeu que Marisa não a segue; ao contrário disso, ela entra na enfermaria.
Lívia chega na mansão em que morava com os pais. Sua mãe corre em sua direção e diz:
“Lívia, querida, onde você estava com a cabeça? Seu pai está furioso, ameaçando te mandar para o exterior.”
Lívia encara a mãe, e embora ela não diga, Lívia pode ver no rosto da mãe que ela também não aprovava sua relação com Caio.
Furiosa, Lívia diz:
“Você e o papai são preconceituosos, estão fazendo isso apenas porque Caio é um ômega.”
Sua mãe a encara magoada e diz:
“Querida, se ele fosse seu companheiro, não importaria. Ele poderia ser até um humano que eu e seu pai o aprovaríamos.”
“Companheiro, companheiro, um maldito que sequer apareceu e que pode nunca aparecer. Não quero esse tal destino da lua, quero Caio, e apenas Caio.”
Sem esperar pela resposta da mãe, ela sobe as escadas correndo, entrando em seu quarto. Ela bate a porta, deixando as lágrimas escorrerem livremente por seu rosto, enquanto as palavras de Marisa ecoam em sua mente e uma ideia sombria começa a se formar:
“Apenas se ela morresse o pai cederia”